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Kevin Spacey pede desculpas após ser acusado de abuso e se declara gay

Ator disse não se lembrar do episódio relatado pelo colega Anthony Rapp, que teria acontecido em 1986

Kevin Spacey Anthony Rapp
Kevin Spacey chega ao Radio City Music Hall de Nova York para a cerimônia dos Tony Awards. Invision/AP
Madri / Los Angeles

Kevin Spacey terminou com anos de rumores e insinuações ao declarar que “agora” escolheu “viver como um homem gay” e quer lidar com sua decisão de maneira “honesta e aberta”. O ator, que não havia divulgado sua homossexualidade antes porque até agora era “muito cioso” de sua intimidade, diz ter dado esse passo agora “alentado” por uma acusação de assédio sexual feita pelo também ator Anthony Rapp, segundo o qual Spacey teria tentado abusar dele em 1986, quando tinha 14 anos e o astro, 26. Spacey afirma que não se lembra do episódio, mas que, se isso aconteceu, pede a Rapp “as mais sinceras desculpas”.

Em uma declaração postada à meia-noite no Twitter, que em apenas três horas acumulou 4.000 comentários, mais de 11.600 compartilhamentos e 23.500 curtidas, o ganhador de dois Oscar, de 58 anos, diz que, como sabem as pessoas mais próximas a ele, manteve “relações tanto com homens como com mulheres”. “Amei e tive encontros românticos com homens ao longo de minha vida, mas agora escolhi viver como um homem gay”, revela.

No comunicado, que começa enfatizando “seu respeito e admiração” por Rapp “como ator”, declara-se “horrorizado” pela acusação. “Honestamente, não me lembro do encontro, que teria ocorrido há mais de 30 anos. Mas, se me comportei como ele descreve, devo pedir-lhe as mais sinceras desculpas pelo que teria sido um comportamento de bêbado profundamente inadequado”, declara o ator de House of Cards.

O episódio, relatado horas antes por Rapp ao portal Buzzfeed News, teria ocorrido durante uma festa no apartamento de Spacey em Nova York para comemorar o sucesso das peças de teatro em que ambos participavam na época. Rapp, ator da série Star Trek: Discovery, era o único adolescente na festa, à qual tinha ido desacompanhado. Entediado, foi ver televisão em um dos quartos.

Depois da meia-noite, percebeu que era o único convidado que continuava ali. Nesse momento, Spacey entrou no quarto e se inclinou sobre ele com a intenção de manter relações sexuais. Spacey, ganhador de um Oscar por Os Suspeitos e outro por Beleza Americana, tinha 26 anos. “Bem, todo mundo já foi embora. Preciso voltar para casa”, pensou Rapp. Mas Spacey “se colocou na frente da porta, cambaleando”. “Minha impressão é que estava bêbado”, acrescenta o ator, que agora tem 46 anos.

“Estava tentando me seduzir. Não sei se usou essa linguagem. Mas tinha consciência de que estava tentando ter sexo comigo”, declara Rapp. Spacey, segundo o relato do denunciante, agarrou-o “como quando o marido agarra a mulher” na noite do casamento e se deitou sobre seu corpo. Rapp diz não lembrar quanto tempo Spacey permaneceu nessa posição, mas conta que conseguiu escapar dele. Quando vê Spacey hoje sente “o estômago revirar”, confessa.

Rapp diz que nunca mais falou com Spacey depois do incidente, mas que o caso de Harvey Weinstein, acusado por dezenas de mulheres de assédio e abuso sexual, o encorajou a dar esse passo. “Com isso, quero trazer à luz décadas de comportamentos que continuaram porque muita gente, incluindo a mim mesmo, permanecemos em silêncio”, afirma Rapp, que começou sua carreira aos nove anos e ganhou fama como membro do elenco original do musical Rent.

A reação de Spacey não demorou. “Essa história me levou a abordar outros assuntos de minha vida. Agora escolho viver como homem gay. Quero lidar com isso de forma honesta e aberta e isso começa pelo exame do meu próprio comportamento”, declara. Em um artigo de 1997, a revista Esquire insinuou que Spacey era homossexual. O ator demorou dois anos para responder e, quando o fez, declarou-se heterossexual na Playboy.

Anthony Rapp
Anthony Rapp na estreia da série de televisão ‘Star Trek: Discovery’. Chris Pizzello/Invision/AP

Por que não fez isso antes? “Não me pareceu necessário”, disse Spacey em uma entrevista ao EL PAÍS em 2000. “Não vejo nada de mau em ser gay. Eu circulo em um mundo no qual todos os dias trabalho com muita gente diferente. São meus amigos e os amo. E muitos deles são gays. E não poderia imaginar ter de pular e dizer ‘não sou um deles’. Se alguns querem acreditar nisso, são absolutamente livres para fazê-lo, não me importo”. Depois acrescentou sorrindo: “Estou escondendo algo? Não. Todo o artigo foi inventado. É irritante. Existe gente em minha vida que acha graça em tudo isso”. Segundo o ator, o artigo da Esquire o ajudou a ficar com muitas garotas que acreditavam que era gay. “Para elas era um desafio me fazer voltar ao bom caminho. E eu as deixava”.

Na última cerimônia dos Tony Awards em junho, que fez Anthony Rapp se lembrar da história de 30 anos atrás, Spacey brincou sobre sua condição sexual. O ator, que apresentava a cerimônia, abriu o show com um número musical cheio de gestos gays e acenos para a comunidade LGTB. Depois da atuação, Whoopi Goldberg entrou em cena como convidada surpresa e os dois riram dos rumores a respeito de suas preferências sexuais.

“Há quanto tempo você está nesse armário?”, perguntou Spacey, ao que Whoopi respondeu: “Bom, Kevin, depende de quem você pergunta”. Depois, Spacey se vestiu de Norma Desmond, personagem de Sunset Boulevard e enquanto cantava As If We Never Said Goodbye disse: “Estou saindo... esperem, não, não, não, não”. Muitos interpretaram essas brincadeiras como uma discreta saída do armário de Spacey e Goldberg.

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