Independência da Catalunha

Depois de intermináveis dias históricos, de repente um sábado normal em Barcelona

Moradores da cidade catalã respiram aliviados após tantas jornadas extenuantes

Pedestres passam perto do monumento a Lluís Companys no dia depois da proclamação da República.
Pedestres passam perto do monumento a Lluís Companys no dia depois da proclamação da República.Carles Ribas

Depois de tantos dias históricos, um dia tão normal como foi este sábado acaba sendo um dia muito estranho. Na ronda de Sant Pere, os quatro bancos de madeira que circundam a estátua e Rafael Casanova, maior autoridade de Barcelona durante o sítio de 1714, estavam ocupados. Três deles por indigentes, um senhor mais velho que lia um conto de Mark Twain, uma anciã e um jovem, e o quarto por Jordi V. F., um aposentado precoce que escolheu uma palavra muito precisa para descrever seu estado de ânimo: “Aliviado”. Diz Jordi que, durante os últimos meses, amigos muito queridos e familiares muito próximos viveram presos numa espécie de encantamento.

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“Viviam convencidos de que chegaria uma República que resolveria todos os seus problemas”, explica Jordi F. V., de pai catalão e mãe de La Rioja, “hoje acordaram sem República e com os mesmos problemas. Será duro para eles, mas os demais poderemos voltar a respirar”. Sob a estátua de Rafael Casanova restam apenas uma rosa murcha e três cravos vermelhos. Jordi fuma um cigarro e explica que o processo secessionista serviu, pelo menos, para que muitos cidadãos que, como ele, se sentem catalães e também espanhóis se atrevessem a sair para a rua deixando pela primeira vez de lado suas diatribes partidárias. “Durante muitos anos”, explica, “vivemos com o complexo de ser acusados de não ser catalães porque não pensamos como eles. Eu suportei isso porque eu e meu pai e meu avô nascemos aqui, e ninguém vai me dizer o que sou ou que não sou, mas ainda não entendo como aguentam as pessoas que vêm trabalhar aqui e para as quais sempre olham por cima dos ombros, com esse sentimento de superioridade que, se você escavar um pouco, sempre encontra por trás do independentismo”.

Jordi continua a ser surpreendido pelo encantamento —“uma espécie de estado de hipnose”— sob o qual vivem pessoas aparentemente normais que aceitaram o conto da República idílica. “Veja”, explica, “estamos tratando de pôr elevador na casa da minha família, porque agora há um subsídio, e te dão 50% do que você investir. Pois acontece que outro dia meu primo, que é muito independentista, nos disse: ‘Estou certo de que com a República nos dariam 100%’. E não disse brincando! O ruim é que acreditava nisso!”. Jordi recorda que até as mais altas autoridades esportivas da Generalitat (o Governo catalão) trataram de meter na cabeça das pessoas a ideia de que, se algum dia se conseguisse a independência e o Estado espanhol decidisse excluir os clubes catalães da Liga, o Barça poderia escolher a liga que quisesse. “Nunca houve uma loucura tão compartilhada.”

Diante do Arco do Triunfo, não muito distante da estátua de Rafael Casanova está a de Lluís Companys, presidente da Generalitat em dois períodos, entre 1933 e sua execução, em 1940. A poucos metros, dois furgões dos Mossos (a polícia catalã) vigiam a entrada da 37ª Mostra de Vinhos e Espumantes catalães. Os visitantes passeiam entre os estandes com taças na mão. Trouxeram de casa a comida —queijo, presunto, fritada de batatas, filés empanados— e a puseram sobre barris. Um dos expositores, de uma conhecida empresa de vinhos, afirma que as pessoas já tinham vontade de uma trégua e que, pelo que ouvia aqui e ali, “só os mais furiosos tentarão continuar mantendo viva a chama de um processo que já não tem curso”. E acrescenta: “Eu sou nacionalista, mas não quero te enganar: tudo isso é questão de dinheiro, e no final se ajeitará com dinheiro. Mas na política faltam comerciantes, pessoas acostumadas a negociar, a ceder, a chegar a acordos. Temos políticos lamentáveis, os daqui e os de lá, que nos levaram a esta situação”.

—Aliás, há alguma manifestação prevista para hoje?

—Não, graças a Deus, hoje tudo está tranquilo. Esta tarde será uma grande tarde de vendas. Já era hora.

—Sabe onde fica a estátua do presidente Companys?

—Olha, não sei bem...

Na esquina da rua Trafalgar com a esplanada de Lluís Companys, o senegalês Elhadjy administra um negócio de aluguel de bicicletas. Ou mais exatamente, um mau negócio de aluguel de bicicletas desde que o desafio secessionista baixou às ruas e assustou os turistas. “Antes”, esse antes tão recente e que às vezes parece tão distante, “nos sábados pela manhã alugávamos umas 30 ou 40. Hoje, apesar do tempo bom, só alugamos quatro”. Elhadjy não fala de questões políticas, mas tem bem claras duas coisas. Que o turismo continuará diminuindo —“acho que enquanto não houver eleições a situação continuará de mal a pior”— e que os catalães estão pondo em risco um bem-estar pelo qual em outros lugares se chega a apostar a vida.

“Eu cheguei à Espanha em 2006, com apenas 15 anos, a bordo de uma barcaça que aportou em Tenerife com uma centena de pessoas a bordo. Passei muito medo, foi muito duro, mas pelo menos chegamos vivos. Um amigo meu da seleção infanto-juvenil de futebol morreu ao chegar à Itália. Tinha bebido água do mar demais, e seu corpo não aguentou.” O jovem senegalês procura em seu celular uma foto do atestado que a polícia emitiu em sua chegada. “Sim, aqui está, naquele barco tão velho viajamos 107”, confirma com um sorriso, “e até o ano passado não tinha conseguido a documentação e o dinheiro para visitar minha família no Senegal. Meu país avançou muito, mas não pode ser comparado com isso. Não quero fazer o caminho de volta... Que pena tudo”.

A terceira estátua está na praça da Catalunha. É de Francesc Macià, presidente da Generalitat entre abril de 1931 e dezembro de 1933, colocada sob uma grande escadaria invertida, uma espécie de labirinto sem saída como o de Carles Puigdemont (presidente deposto). Como se também quisesse se juntar à fortuna dos dias sem história - “Talvez, talvez tenham razão os dias de trabalho”, escreveu Jaime Gil de Biedma -, o já ex-presidente sem glória gravou uma mensagem de três minutos e foi passear em Girona. Enquanto isso, alguns de seus fiéis perambulam pela praça de Sant Jaume distribuindo para os correspondentes estrangeiros - desconcertados diante de tanta normalidade imprevista - a cantilena vitimista. Pilar M., uma barcelonesa de 70 anos, explicava a uma jovem repórter norte-americana que durante décadas o catalão foi perseguido, era preciso falá-lo clandestinamente.

—Só agora que há liberdade podemos falá-lo.

—Mas você não me disse que não há liberdade?...

—Bem, relativamente.

Perto da estátua de Rafael Casanova, Juan Chacón continua lendo o conto A Famosa Rã Saltadora do Condado de Calaveras, de Mark Twain. Tem 65 anos, irmãos e filhos, mas há anos vive nas ruas porque acredita que é perseguido por espiões malvados. Trata-se de uma loucura própria, pacífica.

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