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A nossa guerra particular

Devemos sempre nos indignar e condenar os ataques terroristas, sem esquecer que temos um atentado de Barcelona por dia só no Rio de Janeiro

Violência no Rio de Janeiro
Forças armadas realizam operação contra o crime organizado no bairro Manguinhos, na zona norte do Rio de janeiro. REUTERS

Entro em um táxi, dois dias após o insano atentado terrorista que matou 15 pessoas na Espanha. No rádio, o locutor reporta as notícias mais recentes sobre o caso. O motorista puxa conversa. Diz: “Deve ser horrível morar num lugar assim, não é mesmo?” Eu pergunto, já sabendo o que vinha: “Assim como?” “Tão inseguro”, ele responde. Então, me irrito. No Brasil, temos agido desta maneira, como as crianças que, fechando os olhos, acreditam que eliminam a ameaça. Não se trata de ignorância, mas de alienação: não queremos encarar nossos problemas, pois, constatando-o, teríamos que nos mover para tentar resolvê-lo. E preferimos nos fingir de mortos. Literalmente.

A Espanha possui 46 milhões de habitantes e recebeu no ano passado 75,3 milhões de turistas, atividade que corresponde a 11% de seu Produto Interno Bruto. O que atrai as pessoas àquele país, além, claro, de paisagens deslumbrantes, cidades lindíssimas, museus fantásticos, comida excelente, transporte público de qualidade, é justamente a segurança. A Espanha tem uma taxa de homicídio baixíssima, cerca de 0,7% por 100 mil habitantes, mesmo com um desemprego rondando os 18% da população economicamente ativa.

Só para compararmos, a taxa de homicídios no Brasil, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) referentes a 2015, é de 30,5 mortes por 100 mil habitantes – ou seja, 43 vezes maior que a da Espanha -, o que nos coloca em nono lugar no ranking dos países mais violentos do mundo. Isso significa que cerca de 60 mil brasileiros são assassinados todo ano, aos quais podemos acrescentar outros 37 mil que perdem a vida em acidentes de trânsito, modalidade em que ocupamos o quarto lugar no ranking mundial. Aqui, além de sinônimo de status social, o carro também é usado como arma.

A OMS afirma que um dos principais impulsionadores das taxas de homicídio no mundo é o acesso às armas. Segundo a Ong Small Arms Survey, no Brasil existiam, em 2016, cerca de 15 milhões de armas nas mãos de civis, algo como oito para cada 100 mil habitantes, o que nos coloca em sétimo lugar no ranking mundial. Segundo a pesquisa, há mais armamentos em poder de civis do que nas mãos de agentes legais. (Sem alarde, o presidente não eleito, Michel Temer, assinou um decreto, no dia 9 de maio, afrouxando as exigências do Estatuto do Desarmamento para agradar a Bancada da Bala, que, aliás, tem entre seus membros de destaque o deputado federal Jair Bolsonaro, estrela ascendente do fascismo nacional).

Atentados terroristas são realizados por pessoas dementes, cegas pela intolerância religiosa ou ideológica, que atacam alvos civis de forma alheatória e inesperada. Embora diferentes em suas motivações, os militantes dos grupos radicais islâmicos e os delinquentes brasileiros possuem o mesmo perfil: jovens das periferias, humilhados e ressentidos, que não têm nenhuma esperança de serem absorvidos pela coletividade. Desprezados, tornam-se facilmente manipuláveis, já que nada têm a perder – ou, na lógica perversa da sociedade do espetáculo, têm é a ganhar, nem que seja um minuto de atenção, o que é o bastante para quem passa a vida na invisibilidade.

Devemos sempre nos indignar e condenar os atentados terroristas, pois são atos covardes de mentes autoritárias. Mas não podemos ficar indiferentes ao que ocorre à nossa volta. Vivemos acossados pela violência. Perdemos o direito de ir e vir e nos tornamos reféns da ansiedade – pior, substituímos a solidariedade pelo cinismo. Ao motorista do taxi com que abri esse artigo poderia informar: todos os dias, apenas na cidade do Rio de Janeiro, são assassinadas 15 pessoas – ou seja, temos um atentado de Barcelona por dia somente na chamada Cidade Maravilhosa. A morte de Arthur Cosme de Melo, o bebê baleado ainda na barriga da mãe, ganha assim um sentido de metáfora do que acontece no Brasil contemporâneo: estamos condenando nossa população à morte antes mesmo do nascimento.

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