Dia Mundial da Assistência Humanitária

O perigo de ser trabalhador humanitário em um conflito armado

Nem os trabalhadores humanitários nem a população civil deveriam ser alvo de ataques

No dia 19 de agosto se comemora o Dia da Assistência Humanitária
No dia 19 de agosto se comemora o Dia da Assistência HumanitáriaLusmore Dauda

Esse tipo de episódio precisa parar —esta é a mensagem divulgada pela ONU em função do Dia Mundial da Assistência Humanitária, comemorado em 19 de agosto. “A população civil não é o alvo”, diz o slogan desta edição que nas redes sociais foi traduzido pela hashtag #NotATarget.

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“No mês de janeiro passado em Walikale atendemos 122 mulheres de um mesmo povoado. Todas tinham sido estupradas.” Da República Democrática do Congo, Marit de Wit escrevia estas linhas há apenas algumas semanas. Em seu testemunho recordava com dor a violência sofrida pela população e (também) as equipes humanitárias no país africano. Por desgraça, esse tipo de ataque ocorre em uma infinidade de pontos cardeais do planeta. No Afeganistão, 3.498 civis morreram em 2016. Deles, 923 eram crianças, alertava a ONU em um informe de fevereiro passado. O chefe da missão das Nações Unidas naquele país, Tadamichi Yamamoto, pediu na época aos envolvidos no conflito que parassem de lutar em regiões habitadas e não usassem espaços como colégios e centros de saúde. Longe disso, em março passado terroristas do EI entraram disfarçados de médicos no maior hospital de Cabul, com 400 leitos, e dispararam de forma indiscriminada contra os ocupantes. Pelo menos 38 pessoas foram assassinadas. Na Síria, os títulos sobre vítimas inocentes são o pão de cada dia.

Também não devem ser alvo de ataques os trabalhadores humanitários nem as instalações nas quais realizam seu trabalho, que não é outro além de salvar vidas. No entanto, ainda são. Nos últimos 20 anos, 4.132 colaboradores em serviço foram atacados, lembra a ONU. Segundo os dados que compila anualmente o Aid Workers Security Report, em 2016, 288 foram vítimas de agressões graves: 101 foram assassinados, 98 feridos e 89 sequestrados. A maioria destes ataques ocorreu em cinco países: Sudão do Sul, Afeganistão, Síria, República Democrática do Congo e Somália.

Exatamente em um desses pontos quentes do planeta, na República Democrática do Congo (RCD), o espanhol José Barahona dirige as atividades da Oxfam. “Damos apoio às pessoas que fogem dos conflitos no país. No Leste, há cerca de 70 grupos armados ativos e cada vez que ocorrem enfrentamentos, as pessoas que moram por perto vão embora”, detalha. E são muitas. “Agora mesmo há 3.600.000 refugiados internos, são dois milhões a mais do que em janeiro de 2016. A isso há que somar os 400.000 que foram a outros países vizinhos como Sudão do Sul e Burundi”, destaca por telefone da RDC. Todos eles, recorda, precisam de água, esgoto e alimentos. “E as mulheres exigem atenção especial”, afirma. Pois com frequência elas se tornam campo de batalha entre grupos rivais que se castigam mutuamente estuprando-as, explica.

Uma mulher carrega um saco de grãos no mercado de Ndu, no extremo norte da República Democrática do Congo, perto do abrigo da República Centroafricana, em 13 de agosto de 2017.
Uma mulher carrega um saco de grãos no mercado de Ndu, no extremo norte da República Democrática do Congo, perto do abrigo da República Centroafricana, em 13 de agosto de 2017.Alexis HUGUET (AFP)

Pode parecer fácil, mas ajudar é um trabalho “muito arriscado” nessas regiões, alerta Barahona. “As pessoas fogem a pé por 20 ou 30 quilômetros da zona de conflito, de modo que, para ajuda-las, temos de nos aproximar bastante das áreas de violência”. Além disso, regiões que um dia são seguras podem não ser no dia seguinte.

São muito comuns, principalmente, os sequestros. Em 2015, a Oxfam registrou que pelo menos 148 trabalhadores dessa e outras ONGs foram capturados em algum momento por grupos armados apenas na região leste do país. “Eles ficam com os colegas por alguns dias para pedir dinheiro em troca”, explica o espanhol. Como as organizações não pagam o resgate, diz ele, o único recurso é a negociação. E as comunidades se tornam aliadas. “Eles mesmos pressionam para a libertação da pessoa, pois precisam da nossa ajuda”.

A bomba que transformou os assistentes humanitários em heróis

19 de agosto é o dia em que se homenageia a atividade realizada pelo exército de trabalhadores humanitários que luta contra as adversidades, a fome e a morte. A data foi declarada Dia Mundial da Assistência Humanitária em 2008, coincidindo com o aniversário do atentado de 2003 contra a sede da ONU em Bagdá, no Hotel Canal, que matou 22 funcionários da instituição. Lara Contreras, que hoje trabalha na Oxfam Intermón, estava lá naquele dia. Ele recorda:

“Naquele 19 de agosto, eu estive na sede da ONU na parte da manhã. Saí para almoçar com meus colegas e de repente, depois das 16h, ouviu-se uma forte explosão. Mas as explosões ali eram comuns, então não lhe demos muita atenção. Nós, seres humanos, nos acostumamos com tudo. Mas...”

As crises dos deslocados em Kasai, no sul da República Democrática do Congo, e no distrito de Pool, na República do Congo, atraem quase todas as atenções e os esforços do escritório regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA), na África do Sul, dirigido por Lola Castro. “Conseguimos fazer a distribuição de alimentos em Kasai par alguns milhares de refugiados, mas há pelo menos 1,4 milhão deles aos quais não se tem acesso”, denuncia. A ajuda que chega até eles representa ainda “uma gota no oceano”. “É preciso um apoio internacional maior a esses conflitos esquecidos. Esperamos que a situação se estabilize para poder chegar até os mais atingidos”, diz Castro.

É a mesma queixa de Barahona. “Este país sofre uma crise crônica desde os anos 90 e é muito difícil chamar a atenção para o fato de que a cada ano a situação fica pior”, lamenta. Mas os trabalhadores humanitários não conseguem esquecer daqueles que vivem sob uma instabilidade permanente e tiveram de recomeçar suas vidas várias vezes. Ali, eles continuar a “buscar o equilíbrio entre o dever de restar ajuda e ao mesmo tempo proteger nossos funcionários, diz o responsável da Oxfam. “Perdemos muitos companheiros em conflitos nos últimos anos. É importante que todos os lados, no caso de Kasai e de Pool, entendam que os civis estão sendo afetados e se encontram aterrorizados com a situação e que os trabalhadores humanitários não devem ser um alvo e precisam ser respeitados”, defende Castro, do PMA.

Não são o objetivo, mas sim vítimas da “violência cega”

Na América Central, não há uma guerra. No entanto, trata-se de uma das regiões mais violentas do planeta. Ali, Miguel Ángel García Arias dirige o escritório da Ação Contra a Fome, com atuação na Guatemala e na Nicarágua. “Aqui a violência é cega e afeta a todos igualmente”, observa. Isso significa que a população civil e os trabalhadores humanitários não são alvos de ataques de uma guerra, são simplesmente vítimas por estarem no lugar e na hora errados.

“Não somos especialmente visados. Mas os que promovem os ataques escolhem como alvo as pessoas que eles acham que possuem algo de valor”, explica García. Assim, o pessoal das ONGs se transformam em alvo não por seu trabalho, mas por seus pertences. “Um 4x4, por exemplo, atrai os atacantes independentemente de quem esteja na sua direção”, acrescenta. A Ação Contra a Fome, com efeito, teve um veículo roubado na Cidade da Guatemala, conta.

Riscos desse tipo em uma região do mundo onde os assassinatos ocorrem em grande número obriga as organizações a definir normas de segurança, mesmo que o seu trabalho não tenha nada a ver com as disputas existentes. É o caso da Ação Contra a Fome, que atua no corredor seco, onde as secas, causadas principalmente pelo fenômeno El Niño nos últimos três anos, atingem as comunidades rurais. Sem chuva, sem água, o feijão e o milho não crescem, “e eles não têm nem sequer como alimentar suas famílias”, detalha García. Quando saem à procura das populações mais atingidas, avós que cuidam de crianças pequenas, pessoas com deficiência, crianças com desnutrição aguda e que correm risco de morte, as precauções básicas são não viajar à noite e respeitar o toque de recolher. Além disso, eles devem ficar atentos para os assaltos que ocorrem na região, evitando os trajetos onde eles já aconteceram.

A Ação Contra a Fome presta assistência às comunidades rurais atingidas pelas secas na América Central, especialmente crianças em situação de risco e desnutrição.
A Ação Contra a Fome presta assistência às comunidades rurais atingidas pelas secas na América Central, especialmente crianças em situação de risco e desnutrição.Marvin Castañeda (ACH)

Mais que os trabalhadores humanitários, são os ativistas locais que estão no ponto de mira. García recorda os assassinatos de defensores do meio ambiente na região. “Alguém que lute pela proteção de um rio na Guatemala está correndo um enorme risco de sofrer violência”, afirma. O responsável pela Ação Contra a Fome na América Central não se esquece da grande crise humanitária, mudanças climáticas à parte, da qual é palco esta parte do mundo: a dos imigrantes rumo aos Estados Unidos. “Precisam de assistência, especialmente as crianças não acompanhadas e as mulheres, e muitas vezes não a recebem e são vítimas de abusos”, denuncia. Como pede a ONU neste emblemático dia, eles tampouco deveriam ser um alvo, mas também são.

Sudão do Sul

O recrudescimento do conflito no Sudão do Sul fez duplicar em um ano a população refugiada desse país africano.

Afeganistão

Os atentados contra a população e os ataques a instalações civis são comuns.

Síria

2016 foi, segundo a ONU, o pior ano de guerra nesse país. Pelo menos 652 crianças foram assassinadas e 338 hospitais foram atacados.

Somália

A seca põe o país africano em fisco de fome, a terceira em 25 anos, e ameaça também o Sudão do Sul, a Nigéria e o Iêmen.

Mediterrâneo

No ano passado, 5.153 pessoas morreram na tentativa de cruzar o Mediterrâneo para a Europa. As inquietações sobre onde, quem e como se resgatam essas pessoas estão sendo motivo de tensão atualmente.

Lago Chade

Enquanto o Boko Haram perde fôlego, as necessidades humanitárias se agravam na região, com 7,1 milhões de pessoas em risco de fome.

Iêmen

Além do conflito que mata e desloca milhares de pessoas no país, o cólera está devastando. Até junho, mais de 1.000 pessoas tinham morrido desde que a epidemia começou.

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