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Catástrofes nem sempre naturais

Na enchente em Pernambuco, o exemplo de Rivânia, a menina que salvou os livros

Loures e a mala de dinheiro (Divulgação PF); Rivânia e sua mala de livros (Imagem Blog do Tenório)
Loures e a mala de dinheiro (Divulgação PF); Rivânia e sua mala de livros (Imagem Blog do Tenório)

A criança escapava da enchente, em cima de uma jangada, no distrito de Várzea do Una, município de São José da Coroa Grande, na zona da Mata Sul de Pernambuco. Derradeiro domingo de maio. Na agonia para deixar a casa, não teve dúvidas em salvar o que mais lhe importava. A foto de Rivânia grudada na mochila, como circulou na internet, nos toca agora como uma obra de Charles Dickens chacoalhava um leitor inglês no século XIX. Como o assunto é do mundo livreiro, que me permita a viagem literária.

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Corta para o sr. Loures salvando aquela mala cheia de grana da JBS, conforme as delações recentes. O sr. Loures não fugia de nenhuma tormenta, o sr. Loures aparentava uma certa tranquilidade no café gourmet onde aconteceu o encontro, nos arredores do shopping Iguatemi, cartografia luxo só de São Paulo. No tráfego, sim, estava nervoso, segurou firme a maleta com a bagatela de R$ 500 mil, entrou resfolegante em um veículo, com o profissionalismo de quem jamais seria descoberto. Sorria, sr. Loures, você estava sendo flagrado pela PF.

O sr. Loures não estava tentando escapar de nenhuma catástrofe ou reviravolta climática. Esqueceu de lembrar, porém, que dinheiro na mão é vendaval, como alertou a música de Paulinho da Viola para o tema de "Pecado Capital" (1975), novela de Janete Clair na TV Globo. O sr. Loures, no barco reformista do chefão Temer, se sentia muito seguro – só interessaria à PF e ao Ministério Público as falcatruas do passado, jamais a missa de corpo presente. Qual o quê! Caiu feito um patinho da Fiesp.

Viajemos, de novo com Dickens, sem lengalenga, para a enchente da zona da mata nordestina. No ponto geográfico onde o rio Una, que passa no quintal de Rivânia, se encontra com o oceano Atlântico. Lá também viveram os valentes índios caetés. Marzão bonito da gota serena. Os livros da menina que não roubava nada ou ninguém estão a salvo da cheia que castiga Pernambuco e Alagoas. Na região, todavia, cerca de 30 mil desabrigados carecem de um tudo. Os quinhentinhos da mala da propina resolveriam um bocado de besteirinhas.

Aí são outros quinhentos, sr. Loures, vossa excelência como "Trezentão da República de Curitiba" sabe muito bem do que se trata. O trezentão, que me desculpe o leitor cheio de justa moral, roubei do título do primoroso perfil do ex-assessor de Michel Temer escrito pela jornalista Maria Cristina Fernandes no jornal Valor. Recomendo a leitura. Trezentão é tradição e riqueza familiar. Seria o equivalente curitibano a um quatrocentão da capital de São Paulo. O moço tem pedigree, opa, não se trata de um esfomeado emergente.

Fechamos por aqui, chega, antes que me lembre de algum personagem de Dalton Trevisan, o mais curitibano dos vampiros, e saia a viajar de novo no mundo dos livros. Viva a menina Rivânia!

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de A Pátria em sandálias da humildade (ed. Realejo, 2017), entre outros livros. Comentarista dos programas Papo de Segunda (GNT) e Redação Sportv.

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