Serraglio diz não a Temer e cria mais dor de cabeça para o Governo

Planalto avalia nova estratégia para proteger ex-assessor do presidente de ameaça de prisão

Osmar Serraglio, no último dia 4.
Osmar Serraglio, no último dia 4.Marcelo Camargo (Agência Brasil)

No domingo à tarde, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR) foi demitido do cargo de ministro da Justiça por intermédio da imprensa. Na noite do mesmo dia, a assessoria de comunicação do presidente Michel Temer (PMDB) informou que o parlamentar seria nomeado para o ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União, numa troca com Torquato Jardim. Mais uma vez, sem ouvi-lo. No fim da manhã desta terça-feira, finalmente Serraglio foi ouvido pelo Governo. Sua resposta ao convite para o novo ministério foi um “não”, que irritou o presidente.

Mais informações

A recusa do deputado fez com que Temer iniciasse uma busca por outras alternativas para que seu antigo assessor especial Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), que é o primeiro suplente de deputado entre os peemedebistas do Paraná, e o principal personagem que liga Temer à devastadora delação da JBS, siga com o cargo na Câmara. Loures e Temer são investigados em um mesmo inquérito pelos crimes de obstrução à Justiça, corrupção passiva e participação em organização criminosa. O  deputado afastado é apontado pelo magnata da carne Joesley Batista como o responsável por receber 500.000 reais em propina por indicação do presidente da República. Ele foi filmado pela Polícia Federal carregando uma mala com os valores ilícitos.

Agora, a estratégia política de Temer é convidar para algum cargo na sua administração um dos outros três membros do PMDB paranaense que foram eleitos deputados federais em 2014. Se qualquer um deles deixar a Câmara, Loures seguirá com o cargo de deputado suplente, mesmo que afastado pelo Supremo. A preocupação é que, sem essa proteção do cargo que lhe dá foro privilegiado, aumente as chances de que o aliado de Temer seja preso e reforce sua intenção de assinar um termo de delação premiada com o Ministério Público. A informação sobre a assinatura do acordo de delação foi divulgada pelo jornal O Globo. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, chegou a pedir a prisão de Loures, mas ela foi negada pelo ministro do Supremo, Edson Fachin. Janot recorreu ao plenário da corte, mas ainda não houve decisão. Se o peemedebista confirmar tudo o que Joesley Batista, sócio da JBS, disse para os procuradores, pode complicar ainda mais a vida do presidente. Conforme Joesley, Loures era o homem de extrema confiança do presidente.

Sem o cargo de deputado, Loures perde tecnicamente o foro privilegiado que faz com que seu caso seja julgado no Supremo, e não por juízes de primeira instância como Sérgio Moro. Mas, a julgar por casos anteriores, parece improvável que seu inquérito mude de instância. Como ele está sendo investigado com Temer, o caso deve seguir no STF. A não ser que o próprio status de Temer mude.

Dificuldades de Temer

A dificuldade do presidente para salvar Loures é encontrar alguém que não tenha restrições na Justiça ou enfrente a aguerrida oposição dos funcionários do ministério da Transparência. Sergio Souza, João Arruda e Hermes Parcianello (conhecido como Frangão) foram um dos outros três membros do PMDB paranaense que foram eleitos deputados federais em 2014. Os nomes de Souza e Arruda foram citados no âmbito da Operação Carne Fraca, na qual a Polícia Federal investigava um grupo de fiscais agropecuários corruptos. Parcianello, não tem experiência no Executivo federal. Até que o impasse se resolva, o ministro interino da Transparência será Wagner Rosário, que era secretário-executivo na gestão Jardim.

Desde o início do Governo Temer, em maio do ano passado, Serraglio foi o segundo ministro que os servidores dessa pasta pressionaram para derrubar. No caso dele, antes mesmo de assumir o cargo. O outro foi Fabiano Silveira, gravado em um diálogo por um delator da Lava Jato no qual ele criticava a operação policial. “Não podíamos aceitar que uma pessoa que foi defensora do ex-deputado Eduardo Cunha e que apareceu na investigação da operação Carne Fraca chefiasse um dos órgãos do Governo responsáveis por combater a corrupção”, afirmou Rudinei Marques, presidente do Sindicato Nacional dos Auditores e Técnicos Federais de Finanças e Controle. Na segunda-feira, servidores da Transparência fizeram um protesto em frente ao Palácio do Planalto criticando a nomeação de Serraglio.

Procurado, o deputado Serraglio não atendeu às chamadas da reportagem em seu telefone. Sua assessoria de imprensa informou que a chance de ele conceder entrevistas sobre a recusa ao convite de Temer é igual a “zero”. Nesta semana, ele deverá retornar ao trabalho na Câmara dos Deputados.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: