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OBITUÁRIO

A fascinante história do fundador da rede de restaurantes Rubaiyat

O galego Belarmino Fernández Iglesias, que fundou um império familiar de carnes, encontrou seu destino no servir bem

Belarmino Fernández, fundador da rede de restaurantes Rubaiyat em sua casa, em São Paulo, em 2011.
Belarmino Fernández, fundador da rede de restaurantes Rubaiyat em sua casa, em São Paulo, em 2011.

Tinha nos gestos a agradável e discreta ironia galega e a intuição certeira no olhar. Chegou ao Brasil com um dólar no bolso, há mais de 65 anos. Tinha 19 quando tomou o trem na estação de Areas, perto de Monforte de Lemos (Lugo) em direção a Barcelona, para embarcar rumo à América. Gastou todas as economias na véspera, descobrindo as Ramblas, e desembarcou em Santos, onde ninguém o esperava. Em São Paulo, foi operário da construção civil e vendedor de tecidos, mas quis se tornar hoteleiro para comer melhor do que na pensão.

Encontrou seu destino aprendendo a servir bem e associando-se com seus patrões. Comprou o Rubaiyat, um restaurante libanês em decadência, e o transformou na melhor churrascaria de São Paulo. Foi certamente o dono de restaurante de origem espanhola que serviu mais refeições no mundo. Quando comemos juntos há oito anos, no A Figueira, disse: “Entre os cinco restaurantes de São Paulo, Buenos Aires e Madri servimos mais de um milhão de pessoas por ano”. O número deve ter pelo menos dobrado com as sucessivas aberturas de novas unidades em Brasília, México, Rio e Santiago.

Morreu na terça-feira, aos 85 anos, em São Paulo, no dia do aniversário do filho Belarmino, uma dramática substituição que chega precisamente quando acabavam de recuperar o controle absoluto do negócio, que dividiam com um grupo de capital de risco há cerca de 4 anos, quando abriram o Rubaiyat no México.

A carne de altíssima qualidade na grelha, em cortes espetaculares, era sua especialidade. Nos anos oitenta, Belarmino Fernández comprou uma fazenda no Mato Grosso do Sul com 100 quilômetros de perímetro, 36 quilômetros de rios navegáveis e um campo de pouso. Visionário e pragmático, teve a iniciativa de criar em pastos abertos gado da raça brangus, híbrida da escocesa a angus e do zebu brâmane indiano, uma mestiçagem bem adaptada ao clima brasileiro.

A singular fazenda, à qual viajava incansavelmente, produz mais de vinte mil reses brangus, milhares de cordeiros e leitões, e cerca de cinquenta mil frangos caipiras por ano. Representam boa parte do abastecimento dos Rubaiyat instalados no mundo, do Cabaña de la Lilas – a mais famosa das churrascarias de Buenos Aires – e do A Figueira, em São Paulo, talvez o restaurante mais espetacular da América Latina, aberto há quase 30 anos à sombra de uma colossal figueira centenária de 8 metros de diâmetro cujos ramos atingem mais de 30 metros de comprimento.

Nesse galego intrépido também havia um componente cultural importante e inquietudes sociais muito concretas. No Mato Grosso, abriu a primeira escola instalada em uma fazenda brasileira. Há 40 anos, antecipou-se à iniciativa dos institutos Cervantes promovendo o Colegio de España de São Paulo, entidade que forma em castelhano e português cerca de quatro mil jovens anualmente. Também criou e presidiu até sua morte a Fundação Rosalía de Castro, que acolhe imigrantes espanhóis idosos sem recursos. “Devemos nos lembrar daqueles que não tiveram tanta sorte quanto nós”, costumava dizer.

Seu pai era trabalhador agrícola no Pazo de Rivas, na Ribeira Sacra. Belarmino comprou a propriedade em uma espécie de desagravo sentimental durante uma de suas viagens anuais e dedicou-a à produção de vinhos de uva mencía de Amandi, que espanholeiam pelo Brasil. O lugar também é sede de uma escola de hotelaria particular, cujos alunos saem empregados em estabelecimentos da Galícia. Tinha orgulho que não tinham necessidade de apelar aos seus restaurantes para encontrar trabalho.

Luis Cepeda é jornalista.


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