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Vigilância melhorou após tragédia de 2004, mas Espanha não saiu do radar do terror

Ataque que matou 191 madrilenhos em 2004, o pior da história na Europa, obrigou a reforçar a segurança

Mustafá Setmarian junto a Osama Bin Laden nas montanhas de Tora Bora (Afeganistão) em 2001.
Mustafá Setmarian junto a Osama Bin Laden nas montanhas de Tora Bora (Afeganistão) em 2001. EL PAÍS

Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Nice... As grandes cidades europeias foram sacudidas nos últimos dois anos por massacres do terrorismo islâmico radical. Mas a Espanha tinha escapado, apesar de o país ter sofrido algum tempo antes o pior massacre ocorrido até agora na Europa. Foi em 11 de março de 2004 e nunca se esquecerá o horror vivido no início da manhã daquele dia em Madri. Um grupo de terroristas islâmicos colocou 10 bombas em quatro trens lotados de milhares de trabalhadores residentes na periferia da capital. Eles se deslocavam para começar sua jornada de trabalho na cidade. As explosões simultâneas deixaram 192 mortos e mais de mil feridos. Desde então, mais de 600 pessoas morreram em atentados terroristas nos países da União Europeia. Após as bombas nos trens de Madri, os ataques mais sangrentos ocorreram em Paris em novembro de 2015, contra uma sala de shows musicais e vários bares, onde morreram 130 pessoas.

Aquele de ataque de 2004 chocou toda a Espanha, cinco dias antes de uma eleição para renovar o Parlamento e o Governo, e, de acordo com todos os analistas, foi a causa direta da derrota do Partido Popular, de centro- direita, que estava havia oito anos no poder e que tinha colocado a Espanha, apesar da enorme rejeição da população, na guerra contra o Iraque promovida pelo então presidente dos EUA, George Bush. O banho de sangue mostrou que o país do sul da Europa com fronteira com a África muçulmana era provavelmente o mais indefeso e o mais infiltrado por jihadistas dispostos a tudo.

A resposta dos serviços de segurança foi um esforço de investigação enorme que, até esta quinta-feira em Barcelona, tinha conseguido evitar um novo massacre. Nos últimos anos, a polícia espanhola tinha organizado com sucesso numerosas diligências contra terroristas que preparavam atentados no país. Mas a possibilidade de um novo ataque aumentou significativamente nos últimos tempos. E desde 2015 o Governo elevou o nível de alerta diante do risco de algum atentado iminente na esteira de massacres nas principais capitais da Europa. O autodenominado Estado Islâmico (EI), mais acuado do que nunca na Síria e no Iraque, buscava ser novamente visível fora de seus domínios.

O banho de sangue de 2004 mostrou que o país com fronteira com a África muçulmana era provavelmente o mais indefeso e o mais infiltrado por jihadistas dispostos a tudo

O aumento de atentados jihadistas nas capitais europeias foi uma consequência do retorno de dezenas de terroristas, muçulmanos nascidos ou criados na Europa, que se alistaram na Guerra da Síria, onde receberam formação do EI e da Al Qaeda Central na frente síria. Desde então, os serviços de segurança espanhóis já estavam convencidos de que apenas o acaso os tinha permitido de se livrar da ofensiva sangrenta em todo o continente.

Nas últimas três décadas do século XX, a Espanha foi o país europeu mais afetado pelo terrorismo, embora de natureza muito diferente. A obsessão dos serviços policiais de informação espanhóis era acabar com a organização terrorista ETA, que em sua luta armada pela independência do País Basco, uma região do norte, causou mais de 800 mortes em 40 anos, até sua recente dissolução. Todos os esforços de segurança estavam concentrados na ETA, o que facilitou que desde meados dos anos noventa os sírios Mustafá Setmarian e Imad Eddin Barakat, e o argelino Allekema Lamari, lançassem ao seu bel prazer as primeiras sementes da jihad na Espanha aproveitando a paralisia policial e judiciária.

A importância desses três personagens, então irrelevantes, mas interessantes para os poucos observadores da polícia que tiveram o olfato de investigá-los, foi demonstrada por sua meteórica trajetória. O ruivo Mustafá conseguiu a nacionalidade espanhola e um passaporte europeu com um falso casamento de conveniência. Acabou se tornando o número três da Al-Qaeda Central, depois de Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri; Imad se casou com uma madrilenha e conseguiu a façanha de que seu nome e endereço em Madri aparecessem na agenda de Said Bahaji, um dos membros do comando que realizou os ataques de 11 de setembro nos EUA; o solitário Allekema não teve tempo de se casar com uma espanhola porque antes de morrer –sob os escombros de um apartamento em Madri, no qual o comando que executou o atentado de 11 de março se suicidou– já estava obcecado com sua virgindade.

O monstro cresceu com a passividade da polícia e a indiferença geral. Nem o Governo nem o Judiciário levantaram a voz

Os três e sua legião de acólitos fizeram bem seu trabalho e no início de 2000 tornaram a Espanha a base principal da Al-Qaeda na Europa, em centro de retaguarda dos radicais islâmicos que fugiam de operações policiais em outros países. Em 1995, no aeroporto de Madri, alguns poucos policiais já haviam observado como o sírio Imad Eddin Barakat se despedia ou recebia os mujahideen (combatentes muçulmanos) que viajavam para participar das guerras do Afeganistão, Bósnia –antiga Iugoslávia– ou Chechênia, em território russo. Também tinham se estabelecido na Espanha tipos como o marroquino Amer Azizi, casado com uma espanhola, que morava ao lado da praça de touros de Madri, rezava na principal mesquita da cidade e chegou ao comando de operações externas da Al-Qaeda. Não foram presos na época, pois a polícia preferia deixá-los em liberdade para saber onde eram capazes de chegar. Alguns eram inclusive vistos como combatentes românticos em desertos distantes, considerados de inofensivos para a Espanha.

O monstro cresceu com a passividade da polícia e a indiferença geral. Nem o Governo nem o Judiciário ou mesmo a classe política levantaram a voz. Tampouco os meios de comunicação. Apenas  um pequeno grupo de policiais seguia os passos do sírio Barakat e seus acólitos em uma investigação de cinco anos dirigida pelo juiz Baltasar Garzón. A semente tinha germinado tão rápido que o egípcio Mohamed Atta, chefe dos suicidas de 11 de setembro, escolheu Tarragona, uma cidade próxima de Barcelona, para conversar durante duas semanas, em julho de 2001, com o iemenita Ramzi Binalshibh e comunicar-lhe os objetivos do ataque mais grave sofrido pelos EUA desde Pearl Harbour.

Naqueles anos, o agente do FBI Randall Benett perguntava em seu escritório em Karachi (Paquistão) a que se devia o fluxo de jihadistas paquistaneses e dos países do norte da Europa que voltavam para a Europa via Madri desde os campos de treinamento da Al-Qaeda no Afeganistão. O homem que tentou salvar a vida do jornalista do Wall Street Journal Daniel Pearl, sequestrado pela Al-Qaeda e decapitado por Khalid Mohammed Sheik, o cérebro do 11 de setembro, não sabia que a Espanha era o terreno mais fértil da Europa. Ignorava que menos de 150 agentes –a metade dedicada a tarefas burocráticas– seguiam o rastro dos barbudos. “A Espanha é a retaguarda, não a vanguarda do terrorismo jihadista”, se dizia nos escritórios da polícia. Benett entendeu tudo mais tarde, quando foi enviado a Madri depois de ter saído ileso de um ataque com um carro-bomba colocado sob a janela de seu escritório.

A Espanha se tornou a ponta de lança do combate à jihad em território europeu com mais de 600 presos, 140 condenados desde 2004, e uma centena de expulsos do país

Mas o ataque de 11 de março, o primeiro êxito da jihad na Europa, mudou tudo. A partir de então, a Espanha se preparou de verdade. Mais de 3.000 agentes de segurança foram dedicados à análise das redes sociais, o recrutamento dos que querem viajar para a Síria ou o Iraque, ou a monitorar as centenas de suspeitos em muitos lugares do país. A Espanha se tornou a ponta de lança do combate à jihad em território europeu com mais de 600 presos, 140 condenados desde 2004, e uma centena de expulsos do país.

Mas o perigo não desapareceu. A determinação dos que foram para a Síria ou o Iraque e o risco de que retornassem treinados como terroristas eram demonstrados pelos telefonemas às esposas. “Se eu morrer, não te darão as condolências, te felicitarão como se fosse um batismo”, disse um deles em uma conversa captada pela polícia. “Não há esperança porque não vou voltar. Você quer que eu te dê falsas esperanças? Quer que eu minta para você?”. Mustafá Maya, de 54 anos, confessou à Justiça que, prostrado em sua cadeira de rodas e com um computador nos joelhos, enviou à Síria desde sua casa em Melilla (uma pequena cidade pertencente à Espanha, mas encravada no norte da África, no meio do território de Marrocos) “mais de duzentos” combatentes vindos de dez países. Os juízes e procuradores franceses e espanhóis que o ouviram ficaram assombrados.

Embora a Espanha tivesse se tornado um lugar muito mais seguro, continuava no centro do alvo, no sinistro radar dos mesmos que atacaram em Paris, Londres, Nice, Bruxelas ou Berlim. A longa trégua de 13 anos foi rompida nesta quinta-feira em Barcelona.

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