Estado Islâmico

Jihadistas falam castelhano e têm a Espanha na mira

Autoridades alertam para um “aumento das menções” ao país nos textos do Estado Islâmico

Homem encapuzado diante de uma bandeira do autoproclamado Estado Islâmico.Reuters

Autoridades espanholas de combate ao terrorismo alertaram para um “aumento nas alusões” ao país europeu em textos, vídeos, infográficos e outras peças de propaganda lançadas nos últimos tempos pelo Estado Islâmico. Os jihadistas escrevem em espanhol e chegam a analisar os resultados eleitorais da Espanha, dando a esse país uma relevância que “aumenta a possibilidade de uma ação de um terrorista autônomo em nosso território”, segundo essas autoridades. Entre seus alvos estão multidões, policiais, cristãos, judeus e homossexuais.

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“Em qualquer lugar que vocês considerem ser um alvo válido para castigar os espanhóis criminosos... por qualquer meio disponível”, dizia um comunicado emitido em árabe em 18 de julho pela Fundação de Mídia Wafa, ligada ao Estado Islâmico. Depois de uma breve referência histórica, o porta-voz se dirige aos habitantes do Magreb (Marrocos, Tunísia, Mauritânia e Líbia) recomendando que ataquem indivíduos de nacionalidade espanhola.

A NOVA ESTRATÉGIA PASSA PELA LÍBIA

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Como consequência dos êxitos da Coalizão Internacional e do desgaste das vias de financiamento e abastecimento do ISIS na Síria, fontes da luta antiterrorista ressaltam que a organização “necessita de uma nova ação de alto impacto para manter o terror e o alarme nos países europeus e reafirmar sua liderança frente à população”. Para isso estariam “redirecionando o fluxo de combatentes estrangeiros para a Líbia, como base para atacar a Europa, e/ou para seus próprios países de origem a fim de constituir células operacionais”, além de continuar com os trabalhos de captação e recrutamento.

Desde o começo deste ano, os investigadores da luta antiterrorista detectaram um aumento das menções à Espanha nas comunicações jihadistas, acompanhado da “progressiva divulgação de textos e comunicados traduzidos ao castelhano, [que] conferem [à Espanha] cada vez mais relevância propagandística e elevam a possibilidade de uma ação em território espanhol”, dizem os especialistas, com base em fatos recentes.

Num texto escrito em idioma castelhano e divulgado meses atrás, por exemplo, a Ifriqiya Media, plataforma jornalística oficial da Al Qaeda no Magreb Islâmico, dizia que na eleição espanhola de 26 de julho “todos perderam, menos Marrocos”. O comunicado interpretava o pleito na Espanha sob o contexto do conflito no Saara Ocidental – ex-colônia espanhola anexada por Marrocos.

Os últimos atentados de Orlando (13 de junho), Nice (14 de julho) e Normandia (26 de julho) tornaram a mostrar que uma das armas mais poderosas dos terroristas do EI – ou mesmo a mais poderosa, após suas perdas territoriais – é sua máquina propagandística. Meses antes desses brutais ataques, os jihadistas usavam seus canais habituais (agências de notícias, revistas e redes sociais) para se dirigir aos seus seguidores estimulando-os a cometer ataques. Em nota divulgada antes do começo do Ramadã (mês sagrado que durou de 6 de junho a 6 de julho), o EI dizia “priorizar como alvo a população civil, com qualquer meio disponível”. A edição número 5 da revista Dar al Islam, de julho de 2015, e a número 15 da Dabiq, editada pelo EI, citava, explicitamente os cristãos como alvo prioritário.

Há meses, segundo os investigadores, é comum encontrar vídeos legendados “integral ou exclusivamente” em castelhano. Recentemente, o canal jihadista do vilaiete de Anbar, distrito do Estado Islâmico no Iraque, publicou um texto chamado As Incursões dos Depredadores, legendado em espanhol. Do mesmo modo, a publicidade incluída em um novo vídeo do EI, Quem É o Próximo?, é em espanhol.

Fotos e legendas

Outro vídeo, O Caminho dos Pais Justos, de 14 minutos e com legendas em espanhol, aborda a captação e recrutamento. As mensagens são sempre distribuídas a partir de diferentes vilaietes (divisões administrativas) do EI, o que sugere “a atuação de diferentes pessoas com diretrizes específicas de uma organização central”, segundo os especialistas.

A bandeira da Espanha também apareceu em uma imagem com o título Uma Religião, Um Califado, em que se vê um indivíduo agitando a bandeira preta do EI, tendo outros 12 pavilhões aos seus pés, inclusive o espanhol.

Também os últimos infográficos realizados pelos propagandistas da jihad para comemorar os dois anos do autoproclamado califado de Abu Bakr al-Baghdadi, em junho, estão em língua espanhola. O mesmo se aplica ao resumo dos cem atentados suicidas cometidos por seus fiéis só no mês de junho. Em ambos os casos, os gráficos são creditados à Agência Amaq, produtora oficial do EI.

Os investigadores reuniram todo um compêndio de informações expressas “num espanhol mais que correto.” Fontes da luta antiterrorista suspeitam que algumas podem ter sido escritas por espanhóis, e acreditam que sua finalidade é estimular “terroristas autônomos que, frustrados pela incapacidade de viajar à Síria e ao Iraque para combater junto aos jihadistas, optem por atentar em seu país de origem ou residência”.

186 ESPANHÓIS VIAJARAM À SÍRIA, 75 SÃO POTENCIALMENTE PERIGOSOS

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Desde 2004 (ano dos atentados terroristas do 11 de Março) os grupos encarregados do combate ao terrorismo realizaram 181 operações contra os jihadistas (163 na Espanha e 18 no exterior), em que foram presas 692 pessoas (633 na Espanha e 59 no exterior). Desde o início do conflito sírio, 76 operações estiveram ligadas à Síria, com um total de 164 detidos. Também houve uma operação relacionada ao Mali, com 6 detidos.

Nos últimos anos, o esforço empreendido e a eficácia policial e judicial espanholas estão em contínuo crescimento. Em 2012, oito pessoas foram detidas em cinco operações. Em 2013, 20 detidos em oito operações. Em 2014, 13 operações com 36 detenções. A maioria dessas prisões está vinculada a redes de captação e envio de jihadistas a zonas de conflito. Outras detenções foram realizadas fora da Espanha em cumprimento de ordens internacionais emitidas pelas autoridades espanholas no âmbito dessas e de outras operações. Em 2015, foram realizadas 36 operações na Espanha e oito no exterior (três na Turquia, uma na Polônia, uma na Alemanha e três operações conjuntas com Marrocos) com 102 detidos relacionados ao jihadismo. Só na Catalunha foram realizadas 14 operações (três delas pelos Mossos d’Esquadra) com um volume global de 38 detidos.

O total da 10ª Legislatura (2012-2015) foi de 62 operações na Espanha e 17 no exterior, com 139 detidos na Espanha por ligações com o jihadismo. Com os 58 detidos no exterior, somam um total de 197.

Até agosto de 2016 foram realizadas 15 operações na Espanha e uma no exterior (em conjunto com Marrocos), com um total de 31 detidos (30 na Espanha e um no exterior).

O serviço secreto espanhol já identificou 186 espanhóis ou residentes na Espanha que viajaram à Síria ou outras zonas de conflito, pelo menos 31 deles podem ter morrido. Sabe-se que há 25 retornados na Espanha (24 da Síria e do Iraque e um do Mali), dos quais 15 estão presos e 10 em liberdade. Uma estimativa rigorosa de todos os deslocados potencialmente perigosos os situaria em torno de 75.

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