EXÉRCITO DE LIBERTAÇÃO NACIONAL

ELN e o Governo da Colômbia começarão a negociar em 27 de outubro em Quito

Segunda maior guerrilha do país libertará dois dos sequestrados em seu poder antes da data fixada

Foto: AFP | VÍDEO: FEDERICO PARRA / EFE

O Governo de Juan Manuel Santos e o Exército de Libertação Nacional (ELN), o segundo maior movimento armado da Colômbia, começarão a fase pública das negociações de paz em 27 de outubro em Quito, capital do Equador, de acordo com informações das duas delegações em Caracas. Além disso, a guerrilha se compromete a libertar dois sequestrados antes dessa data, mas ainda continua sem informar quantas pessoas tem em seu poder. O anúncio vem uma semana depois dos colombianos recusarem os acordos acertados com as FARC no plebiscito de 2 de outubro e o presidente se ver obrigado a iniciar um novo diálogo nacional. Se for acertado um acordo com as duas guerrilhas, a violência que assolou a Colômbia durante mais de 50 anos – com aproximadamente oito milhões de vítimas – ficará reduzida aos grupos criminosos ligados ao narcotráfico e aos paramilitares ainda presentes em muitas regiões do país.

O processo começará pelo ponto 1 da agenda que os dois lados aprovaram em 31 de março. As delegações começarão a discutir como será a participação da população durante a negociação, um dos pedidos da guerrilha. O ponto também inclui “a resolução da situação jurídica dos membros e condenados por ações no desenvolvimento da mobilização social”. Ou seja, as pessoas que durante essas décadas de conflito foram julgadas e condenadas por sua ligação com a guerrilha. O presidente Santos, à espera do começo das mesas de trabalho, já enfatizou em março que não será criado outro tribunal especial de paz, de modo que os guerrilheiros do ELN serão julgados da mesma forma que o acertado com as FARC.

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A negociação continuará pelo ponto relativo às ações e dinâmicas humanitárias, como assinala o documento lido na capital venezuelana. Os negociadores mudaram a ordem do processo para reafirmar o compromisso da guerrilha com a libertação de dois dos sequestrados em seu poder, que se juntariam aos três camponeses já libertados nas últimas semanas. Essa prática, junto com a extorsão, foi sua principal fonte de renda, mas nos últimos anos as ligações com o narcotráfico ganharam importância. “É preciso ressaltar que se decidiu iniciar as negociações discutindo simultaneamente dois pontos para ajudar a construir a paz”, disse o presidente momentos depois.

A delegação do Governo já não é liderada por Frank Pearl, economista, ex-Alto Comissário para a Paz, ex-ministro do presidente Juan Manuel Santos e negociador plenipotenciário nos diálogos com as FARC. Foi substituído no cargo por Mauricio Rodríguez, ex-embaixador em Londres no Governo do ex-presidente Álvaro Uribe, ex-jornalista e irmão da mulher do atual mandatário. Santos frisou em sua intervenção posterior ao anúncio que “as equipes de negociadores serão conhecidas nas próximas semanas”, sem esclarecer se os assinantes do documento permanecerão na mesa de diálogo.

Se Rodríguez continuar no cargo de responsável da delegação, já não terá diante de si Antonio García, comandante do ELN e membro da guerrilha desde os anos setenta, que anunciou a agenda em março. Em seu lugar o documento foi assinado por Pablo Beltrán, membro do Comando Central (Coce), o órgão que comanda as decisões da guerrilha. Cada equipe será integrada por pelo menos 30 representantes. Nas sessões só poderão participar 10 pessoas, cinco principais e cinco suplentes, e contarão com a ajuda dos assessores que forem considerados necessários.

De janeiro de 2014 a março de 2016 foram realizados uma série de encontros privados entre as duas delegações no Equador, Brasil e Venezuela. Essas reuniões também tiveram a presença da Noruega, Cuba e Chile, todos eles países garantidores da negociação. As negociações com o ELN serão realizadas principalmente no Equador, mas existirão sedes paralelas na Venezuela, Chile, Cuba e Brasil. Até oito presidentes tentaram sem sucesso iniciar um processo de paz com o ELN, uma guerrilha que teve um componente político muito mais marcado do que as FARC.

O ELN nasceu em 1964, quase ao mesmo tempo que as FARC, com uma ideologia que mistura cristianismo, marxismo e nacionalismo radical. As autoridades colombianas calculam que a guerrilha conta com aproximadamente 1.300 membros, mas alguns analistas acreditam que o número pode chegar a 2.000. Apesar do número ser inferior aos 6.500 que se dá às FARC –, o ELN intensificou seus ataques nos últimos cinco anos. O medo de que o ELN ocupe os espaços deixados pelas FARC também era muito grande. Os principais riscos se concentrariam nas regiões onde estão as frentes mais beligerantes, o circuito conhecido como ABC (Arauca, Boyacá e Casanare), Norte de Santander, Chocó, Cauca e Nariño.

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