Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

“Nenhum cenário está descartado na eleição em São Paulo”, diz diretor de instituto

Campanha curta, ofuscada por noticiário nacional, faz eleitores decidirem voto em cima da hora

Da esq. para a dir.: os candidatos à Prefeitura de São Paulo João Doria, Celso Russomanno, Fernando Haddad, o apresentador Cesar Tralli (centro), Luiza Erundina, Marta Suplicy e Major Olímpio no último debate da TV Globo, no dia 29.
Da esq. para a dir.: os candidatos à Prefeitura de São Paulo João Doria, Celso Russomanno, Fernando Haddad, o apresentador Cesar Tralli (centro), Luiza Erundina, Marta Suplicy e Major Olímpio no último debate da TV Globo, no dia 29.

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, já se prepara para explicar aos brasileiros porque, provavelmente, os números das últimas pesquisas do instituto não refletirão 100% o resultado das urnas. Isso porque, em grandes centros como São Paulo e o Rio de Janeiro, a disputa pela prefeitura continua embolada. Embora nas duas capitais já é dada como certa a ida ao segundo turno dos líderes das pesquisas —João Doria (PSDB), em São Paulo, e Marcelo Crivella (PRB), no Rio — a segunda vaga para a próxima fase das eleições municipais 2016 é disputada voto a voto —e assim será até o último minuto. "A única coisa que eu sei é que na segunda-feira vou ter que explicar porque os números não batem...", brincou o pesquisador, em entrevista ao EL PAÍS, antecipando uma tendência verificada há pelo menos dois anos: as pesquisas eleitorais não devem acertar quem será o prefeito da sua cidade. E nem por isso estarão erradas.

Até o início da semana, reta final da campanha, um em cada três eleitores de São Paulo (34%) e do Rio de Janeiro (36%) admitia ao Datafolha a possibilidade de mudar de candidato até o próximo domingo, data do 1º turno. Esse percentual é bastante expressivo, e um tanto quanto atípico. Paulino explica que é um reflexo do fato de essa eleição ter sido mais curta (uma mudança nas regras cortou pela metade o tempo de campanha, de 90 para 45 dias), e ainda ofuscada pelo noticiário nacional. Assim, grande parte da população só se deu conta de que tem que votar há poucos dias. 

Esses e outros fatores, que o diretor do instituto Datafolha detalha na entrevista abaixo, justificam porque as urnas devem confirmar somente tendências verificadas nas ruas (ou seja, quem vinha crescendo e quem vinha caindo nas intenções de voto), mas não necessariamente reproduzir os números das amostragens. Na capital paulista, a briga pela segunda vaga do segundo turno está concentrada entre três candidatos: Celso Russomanno (PRB), Marta Suplicy (PMDB) e Fernando Haddad (PT). Já na capital fluminense, quatro candidatos se engalfinham para continuar no páreo: Pedro Paulo (PMDB), Marcelo Freixo (PSOL), Flávio Bolsonaro (PSC) e Jandira Feghali (PC do B), todos empatados tecnicamente.

Pergunta. Vou antecipar uma pergunta que vão te fazer na segunda-feira depois da eleição. Por que as urnas devem trazer surpresas em relação às pesquisas?

Resposta. Isso é algo que a gente já vem verificando há algum tempo. Mesmo a última pesquisa, aquela que a gente faz na sexta-feira e na manhã do sábado, não consegue antecipar algo que ainda não aconteceu, que é a decisão de voto de última hora. Um exemplo é o que ocorreu na eleição pra presidente em 2014: as pesquisas de véspera do primeiro turno mostravam o Aécio Neves ultrapassando pela primeira vez a Marina Silva, mas dentro ainda da margem de erro. E nas urnas ele acabou abrindo uma vantagem maior. Isso tem sido comum a cada eleição e está sendo um movimento cada vez mais forte: de a tendência verificada na véspera se intensificar no dia da eleição.

P. Por que isso acontece?

R. Por vários fatores. Primeiro porque vem mudando drasticamente a forma de troca de informações, com as redes sociais principalmente, essa troca ficou mais rápida e mais ampla. Na década passada, a gente sempre explicava que a troca de informações entre familiares, amigos e colegas de trabalho era um fator importante na definição do voto. Nessa década isso se potencializa com as redes sociais, porque essa troca se torna mais rápida e em um segundo você passa uma informação pra 200, 300 amigos no Facebook.... Há dois anos, havia 43% do eleitorado brasileiro que tinha conta no Facebook já. Não tenho um dado mais recente, mas isso já deve ter passado de mais da metade, já deve ser maioria agora. E nos grandes centros, como São Paulo e Rio, esse efeito se potencializa. Isso é uma revolução na comunicação que a gente está vivendo.

Além de que essa eleição é mais curta, há também muitos fatos políticos importantes ocorrendo ao mesmo tempo. A questão da Operação Lava Jato, a troca de Governo (o impeachment de Dilma Rousseff) no começo da campanha... Isso também fez com que a eleição ficasse em segundo plano. Então somente nesta semana que, de fato, as pessoas estão acordando pra eleição. Até a última segunda-feira, faltando menos de uma semana pra votação, se você perguntasse em seu entorno, muita gente ficava surpresa sendo informada de que tem eleição no domingo. Isso vai diminuir ao longo da semana, claro, mas reforça o fato de que muita gente está decidindo de última hora e mudando de voto de última hora, então tem que tomar cuidado. Eu não descarto nenhuma possibilidade ainda nessa eleição de São Paulo.

P. Foi quase uma campanha de uma semana...

R.  É como se essa semana tivesse valido por dois meses de campanha. Então isso torna decisivo tudo o que acontece na reta final: o último debate, o da Globo, por exemplo, que tem uma audiência maior, e também a última pesquisa (prevista para sair no sábado, 1º de outubro). Porque muita gente vai esperar o resultado da última pesquisa pra exercitar o voto útil, pra definir o voto. E os últimos fatos, enfim, o noticiário, as últimas declarações, possivelmente algum último direito de resposta que vá ao ar na véspera... Enfim, tudo isso faz com que alguns eleitores mudem de opinião.

P. As pesquisas então não antecipam mais o resultado?

R.  Com essas mudanças, obviamente que o que a última pesquisa capta não tem mais a pretensão de dizer que números vão dar na urna, mas sim qual era a tendência naquele momento. Isso gera estranhamento, porque todos esperam que a última pesquisa mostre o que vai acontecer e, na verdade, ela mostra o que já aconteceu, ou seja, a tendência dos últimos dias. Não tem como pesquisar o que ainda não aconteceu. Então o que ocorre entre o meio dia de sábado e o momento em que o eleitor se depara com a urna, isso as pesquisas não tem como captar. E nessa eleição, especificamente em São Paulo, eu acho que, mesmo depois de votar, alguns eleitores vão sair com dúvida se era isso mesmo que queriam (risos)...

P. Então há chances de reviravolta?

R. Tem outro fator aí também, que é o conhecimento do número. Eleitores da Marta, por exemplo, até o início da semana, confundiam muito e digitavam 13 [número do PT, não do PMDB, partido da candidata]. Os eleitores da Luiza Erundina também tem um alto grau de desconhecimento do número. Os que mais conhecem os números dos candidatos são os eleitores do Doria e do Haddad, porque tradicionalmente São Paulo vota no 45 ou no 13, então são os números que estão na cabeça de todos. Então pra decorar o número da Marta, o número da Erundina, que só teve 10 segundos de TV, e mesmo o do Russomanno, muita gente ainda não sabe. É claro que isso diminui drasticamente na véspera da eleição, mas sobra um tanto significativo de eleitores que vão pras urnas sem saber muito bem o número dos seus candidatos.

P. E num ano de campanha pobre, em que vimos pouco material de campanha nas ruas...

R. Sim, acho que vamos ver mais na véspera e no domingo. Mas numa eleição que pode ser disputada voto a voto a segunda colocação, são esses detalhes, esses fatores que vão definir a ida para o segundo turno.

MAIS INFORMAÇÕES