O corpo-a-corpo de Temer para garantir o impeachment de Dilma

Interino recebe senadores que não declararam voto, enquanto aliados de petista esperam reação

Michel Temer e Impeachment de Dilma
Temer durante declaração à imprensa, no dia 18, no Rio. Getty Images

Enquanto propaga aos quatro ventos que a batalha pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) já está ganha, o presidente da República em exercício, Michel Temer (PMDB), intensificou conversas com um grupo de senadores que se declaram indecisos ou que não revelaram seus votos no julgamento da presidenta afastada.

Às vésperas da votação do impedimento da petista pelo Senado – prevista para iniciar no dia 25, a próxima quinta-feira –, Temer se encontrou com oito senadores entre segunda e terça-feira, sendo que em quatro deles o Planalto identificou algum risco de votar a favor de Rousseff. Todos esses encontros foram marcados de última hora e trazem à tona uma estratégia política do Governo para superar os 54 votos necessários para condenar a presidenta. A expectativa de ministros e de senadores da base é que 61 dos 81 parlamentares votem pelo impeachment. Enquetes feitas pela imprensa brasileira, no entanto, mostram que menos de 50 parlamentares declaram seu voto contra a presidenta afastada.

Oficialmente, as reuniões no Palácio do Planalto ocorreram para discutir assuntos locais de interesses dos parlamentares, como a conclusão de obras paradas ou a liberação de recursos para municípios de suas bases eleitorais. O presidente interino não mencionou uma palavra sobre o julgamento, conforme participantes dos encontros. Cabia a auxiliares deles tratarem do tema ao término de cada audiência. “O movimento é discreto. É um ato político. Você vai, trata de um tema de interesse do Estado e, depois, vem um ministro, um assessor, e te assunta sobre o impeachment. Já esperava que isso ocorreria”, afirmou um dos congressistas recebidos pelo presidente em exercício.

Nos últimos dois dias, Temer se reuniu com dois senadores que se declaram indecisos – João Alberto Souza (PMDB-MA) e Roberto Rocha (PSB-MA) – além de outros dois nordestinos que foram considerados como votos certos a favor do impeachment, mas poderiam mudar de lado de última hora – Ciro Nogueira (PP-PI) e Eduardo Amorim (PSC-SE). Os outros quatro recebidos pelo presidente interino foram Edison Lobão (PMDB-MA), Ataídes Oliveira (PSDB-TO), Hélio José (PMDB-DF) e Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE). Esses últimos dois já haviam sido contemplados com diversos indicações para cargos comissionados na esfera federal.

A estratégia de aproximação com congressistas já havia sido adotada no início do processo de impeachment no Senado. Senadores que, em alguma das fases, votaram contra o andamento da ação foram recebidos por Temer em diversas reuniões ou participaram de solenidades públicas ao lado dele. Estão nesta lista Wellington Fagundes (PR-MT), Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), Omar Aziz (PSD-AM) e Otto Alencar (PSD-BA).

Do lado de Rousseff, seus aliados apostam que ela é capaz de reverter o jogo virando oito ou nove votos de senadores que já tinham sido contrários a ela. A expectativa é que isso ocorra com o discurso que ela promete fazer na próxima segunda-feira, dia 29, quando poderá dar a sua versão dos fatos.

Na fala, a petista deverá reforçar que não cometeu nenhum crime de responsabilidade e que os senadores que a condenarem entrarão para a história como injustos ou golpistas. Prometerá também seu apoio para a realização de um plebiscito com o objetivo de consultar a população sobre o encurtamento do mandato presidencial. A maior possibilidade é que o discurso dela seja todo lido, já que a oratória improvisada em atos públicos não está entre seus fortes.

Até agora, Rousseff perdeu em todas as etapas do processo. Na Câmara dos Deputados, foram 367 votos a favor do impeachment, 137 contrários e 7 abstenções. O mínimo para aprovar a abertura era de 342. No plenário do Senado, foram duas etapas. A primeira, que tratava da admissibilidade a petista perdeu por 55 a 22. A segunda, que a tornou ré, a derrota foi de 59 a 21. Na terceira, e última, ela precisa evitar que seus acusadores obtenham 54 votos.

Rede nacional

Ao mesmo tempo em que se aproxima de congressistas, Michel Temer já prepara a gravação do que pode vir a ser o seu primeiro discurso em cadeia nacional como presidente efetivado no cargo. Tradicionalmente, o presidente fala ao país no dia 7 de setembro, quando é comemorada a independência do Brasil. Porém, segundo assessores, o peemedebista quer antecipar a declaração para o primeiro dia após o fim do julgamento de Rousseff. A expectativa é que esse processo seja concluído entre os dias 30 e 31 de agosto.

A pressa de Temer em terminar essa última fase do impeachment também leva em conta a sua viagem para a China, onde participará do encontro do G20 (grupo dos países mais ricos do mundo e a União Europeia), nos dias 4 e 5 de setembro.

Para tentar acelerar o julgamento, senadores da atual base governista se comprometeram a reduzir o número de perguntas que serão feitas às oito testemunhas que serão interrogadas nas próximas quinta e sexta-feira. Um acordo entre sete partidos foi firmado para que apenas os líderes das bancadas apresentem questionamentos às testemunhas. Assim, mais de 40 dos 81 senadores abririam mão do interrogatório. Ainda não está definido se o mesmo procedimento será adotado quando da oitiva da presidenta afastada.

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