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“Saramago dizia que o primeiro Nobel em português deveria ser para Jorge Amado”

Viúva de José Saramago veio ao Brasil defender sua causa mais recente: a Declaração dos Deveres Humanos

Pilar del Río, presidenta da Fundação Saramago.
Pilar del Río, presidenta da Fundação Saramago.

Pilar del Río não tem papas na língua. Fala com os olhos cravados no interlocutor e tem resposta para quase tudo, ainda mais se o assunto é machismo, religião ou política. A viúva de José Saramago, único Prêmio Nobel de Literatura em português, e presidenta da Fundação que leva o nome dele, participou da programação alternativa da última edição da Flip, em Paraty, e defendeu sua causa mais recente: a Declaração dos Deveres Humanos.

O projeto nasceu do discurso de Saramago, que ao receber o Nobel em 1998 denunciou a falta de cumprimento dos direitos humanos, já passado meio século de sua declaração. Del Río, com a Universidade Autônoma do México e um bom número de juristas e ativistas, está por trás da elaboração do documento que pretende levar à ONU, mas, “sobretudo, às pessoas”.

Em sua enésima viagem ao Brasil --não sabe quantas foram suas visitas, mas já encontra pessoas conhecidas pela rua--, Del Río fez escala no Rio de Janeiro. Tentaram assaltá-la duas vezes na porta de seu hotel em Copacabana, onde recebe EL PAÍS. Com 66 anos e um corpo miúdo, Del Río se livrou do ladrão.

Pergunta: Foi sua primeira vez na Flip. Que impressão teve da edição deste ano?

Resposta: Fui convidada pela Casa Cais e Luana Carvalho [filha de Beth Carvalho]. Não era convidada oficial. Achei maravilhoso que houvesse instituições privadas, como esta Casa Cais, para promover a cultura fora do programa oficial. Um dos pontos fortes foram os humoristas porque partiram de que o humor é revolucionário e contesta as religiões, que nos querem tristes e amedrontados, enquanto o humor nos torna livres e desinibidos. Achei magnífico que se convocassem pessoas grandes e minha admiração total e profunda foi pela Prêmio Nobel deste ano [a bielorrussa Svetlana Alexievich], com quem tive um encontro breve, mas emocionante.

P. A Flip deste ano esteve carregada de reivindicações relativas à atualidade política do país. Que impressão você levou do momento que o Brasil vive?

R. O Brasil não é a Flip. A Flip é uma elite e a elite cultural não está com este Governo. Isso é óbvio. A elite cultural deste país, como não podia ser de outra maneira, se manifesta a favor da igualdade do homem e da mulher, a favor do casamento homossexual, da liberdade para abortar. O Brasil é um país que necessita de muito mais tempo de um governo de esquerda porque as desigualdades continuam sendo muito grandes. Acredito que o PT, com todos os desacertos, é o Governo que fez mais pela imensa maioria deste país, inclusive pelos que não votam nele. De números fizeram cidadãos.

P. José Saramago foi o único Prêmio Nobel em língua portuguesa, enquanto em castelhano há mais de uma dezena. Por que a literatura brasileira não tem tanto alcance como sua música?

R. É difícil responder. Talvez porque as editoras não tenham sido suficientemente atrevidas para lançar campanhas, faltou trabalho conjunto. As ditaduras, por um lado, a do Brasil, por outro, a de Portugal, foram más com seus autores. Evitou-se que houvesse orgulho da literatura. A música era mais difícil de ocultar. As multinacionais foram muito mais inteligentes e fortes que as editoras locais. A música brasileira é que nos salvou da mediocridade. José Saramago dizia que o primeiro Prêmio Nobel de Literatura em português teria de ser para Jorge Amado. Os dois fizeram um pacto: compartilhar o prêmio. O que acontece é que quando deram o prêmio a José, Jorge Amado estava muito mal e não pôde ir.

P. Você é ateia, comunista, feminista e de esquerda. Como seria para você viver no Brasil?

R. Viver no Brasil com estas ideias não deve ser fácil. No caso de gente extraordinária que amo, como Chico Buarque, temos visto o quanto se tornou difícil para ele. Imagino que seria uma ativista e teria muitíssimos problemas porque estaria pedindo direitos para pessoas que renunciam a eles. O problema é que estão fazendo dos homens escravos. Homens que em vez de reivindicar melhorias para sua vida estão esperando morrer para que Deus lhes dê sopa quente todos os dias. O poder das igrejas evangélicas vai fazer esta sociedade retroceder muito. As pessoas não vão filiar-se a partidos, a sindicatos, vão confiar em que Deus lhes resolva os problemas.

P. O PT foi um dos responsáveis por permitir que partidos evangélicos se infiltrem no poder. Não só pactuou com eles, como também evitou entrar em reformas importantes, como a do aborto, que confrontam os interesses moralistas.

R. Se há algo que não perdoo ao PT foi precisamente pactuar não com quem votou nele em razão de seu programa, mas com os outros. Não ter imposto leis para garantir a laicidade do Estado. Ser gay não é obrigatório, abortar não é obrigatório, mas deveriam ter defendido a liberdade de quem quer fazer isso.

P. Uma vez você comentou que se sentia agredida se sentia que alguém te desejava sem ser algo mútuo. No Brasil está crescendo um forte movimento feminista, que começou contra as cantadas na rua e continua com a luta contra a cultura do estupro.

R. É impossível explicar a um homem que não queremos que nos chame de bonita se ele abre um jornal e encontra uma mulher nua para vender um carro. Não quero que me olhem com cobiça, com descaramento, mas estou disposta a dividir todo o tipo de sorrisos, de olhares. Agora, não permito que me violem. E a primeira violação é que não me chamem por meu nome, que não reconheçam minha função. Se queremos enfrentar essa questão horrível da cultura do estupro alguém tem que dar o primeiro passo e creio que deveriam ser os meios de comunicação.

P. O caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro revelou que não é um episódio isolado em pleno século XXI. Não parece forte para você esse choque de realidade?

R. O pior é que a sociedade se sinta chocada em um dia e não sejam tomadas medidas no dia seguinte. Houve alguma proposta corretiva na legislação na educação, nos livros escolares, nos meios de comunicação?

P. Qual é a sua relação com a saudade?

R. Procuro não tê-la. Estou tão plena do presente que é preciso administrar e do futuro que é preciso mudar que não tenho tempo para isso.

P. Acredita que seja incompatível um governo de centro-direita, de ideias liberais, que combata a desigualdade?

R. É incompatível com a igualdade um Governo como o atual que faz as declarações que faz. Por um lado, responde não a critérios liberais, pelo amor de Deus!, mas a critérios econômicos em benefício próprio , por outro, está dominado pelo obscurantismo da religião.

P. Por que obscurantismo?

R. Ouvi as declarações dos deputados que apoiam e sustentam o Governo. São pessoas que estão dispostas a abdicar do máximo que um ser humano tem, que é a razão, em função do dogma. É voltar à inquisição.

P. O que achou do processo e da forma como se destituiu Dilma Rousseff e do Governo Temer? Como você explicaria a situação a alguém que não esteja familiarizado com o Brasil?

R. No Brasil houve um governo de esquerda que fez projetos muito interessantes, mas com atitudes inadmissíveis e que causaram muitos danos à causa, com comportamentos individuais, mas não me esqueço dos diferentes programas sociais que estão em andamento. Não podemos nos esquecer disso, embora reconheçamos os casos de corrupção. Não vejo Dilma como uma corrupta. A corrupção tem muitos anos no Brasil. O que acredito é que ela abriu a caixa de Pandora e nesse dia assinou sua liquidação. Lamentavelmente algumas pessoas de seu partido que deveriam ter se colocado na primeira fila não fizeram isso.

P. A quem você se refere?

R. A algumas pessoas que passaram por diferentes governos e que estavam limpas e, provavelmente, Lula. Lula tinha que ter sido muitíssimo mais corajoso e muitíssimo mais claro. E não aparecer à última hora, quando não se sabia se era para salvar ou para salvar-se. Dilma foi durante o processo vítima do machismo e de uma sociedade patriarcal, e não consigo entender que uma das primeiras decisões de Temer fosse suprimir [da EBC] o feminino de presidente e que não haja ninguém que tenha protestado. São pequenas histórias, mas dão o tom.

P. Precisamente, você já deu uma boa bronca em um jornalista empenhado em te chamar de presidente [da Fundação José Saramago]. No Brasil até essa discussão acaba sendo política. Por que você acha importante reivindicar o termo presidenta?

R. Não podemos aceitar agora a masculinização. Nenhum dos altos cargos do mundo está feminizado: no sínodo dos bispos são todos homens, o Papa é homem, os cardeais são homens, na Espanha, na monarquia, o rei é o terceiro na linha de sucessão porque as mulheres não podiam ser rainhas... O poder não quer feminizar-se porque considera que eles perderão privilégios.

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