ENTREVISTA | Frank Miller

Frank Miller: “Batman está sempre de mau humor”

Autor e desenhista é a estrela do Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona

Frank Miller em Barcelona durante o Salão de Quadrinhos.
Frank Miller em Barcelona durante o Salão de Quadrinhos.Carles Ribas

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Frank Miller faz sua aparição e sinto que tenho que esfregar os olhos: mais parece um arquivilão das histórias em quadrinhos depois de ter apanhado repetidamente de algum super-herói. Já se sabe que Miller – uma lenda viva do mundo dos comics, o homem que devolveu ao Batman toda a sua dignidade e obscuridade [foi o roteirista de 'Batman, Ano 1', que reformulou a origem do herói] – enfrentou uma doença grave, da qual ele não fala. Mas nada me prepara para encontrar com ele cara a cara. Caminha com dificuldade, com o corpo torto, e sua figura e seu rosto mostram uma devastação que parece incompatível com sua idade (nascido em 1957, em Olney, no Estado americano de Maryland, ele completou 59 anos em janeiro). É extraordinariamente parecido com Freddy Kruger, semelhança para a qual contribui o chapéu de abas largas com que se apresenta e que, ainda por cima, lhe confere um ar de velho profeta alienado. Exibe uma barba despenteada, como a de um moleque, e veste uma camiseta com um desenho bem grotesco do Batman que ele próprio fez. Contempla tudo com olhos inquisitivos e quando pousa o olhar sobre você, é difícil conter um calafrio. Frank Miller, o criador de Sin City, 300, Ronin e Elektra, é a estrela do 34o Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona, que abriu suas portas nesta sexta-feira e no qual ele deve autografar exemplares de suas obras.

Surpreendentemente, apesar da imagem que transmite e de sua fama de homem polêmico e visceral (por não falar de suas criações), Miller se mostra muito simpático. Pode parecer um Ecce homo, mas ostenta uma inteligência brilhante e dá respostas com humor e ironia. Uma das coisas mais surpreendentes é que ele não se considera, de jeito algum, uma pessoa atormentada.

Quando digo a ele que nascemos no mesmo ano, ele me olha entortando ainda mais o gesto, mas esboça um sorriso. Ressalto que nós dois conhecemos desde jovens o velho Batman, um cara desleixado, desprestigiado, vestido com uma roupa lilás que lhe caía pessimamente, um perdedor e herói dos fracassados. Como esse indivíduo se tornou o Cavaleiro das Trevas, ícone da atormentada modernidade? "Ele era um herói de folclore, e esses heróis, que todas as gerações têm, envelhecem mal. Quando o conheci, ele era como você descreve: velho e gordo, estava cansado, e seu programa de TV era muito bobo. Suas revistas já não vendiam bem. Então, quem era o Batman? O Batman tinha que mudar. A DC Comics me perguntou se eu podia salvar o Batman. E eu disse que sim". Pensando bem, 'o homem que salvou o Batman' pode ser um ótimo título para mim".

E qual foi a receita? "Eu o tornei mais velho e muito mais irritado", conta. Miller contempla as mãos pelas quais nasceu o novo homem-morcego transformado no zangado Cavaleiro das Trevas. "Eu vivia em Nova York na época. Só tive que olhar em volta. Ali estavam todos os motivos para que o Batman voltasse dessa maneira. Era 1985. Havia criminosos por toda a parte. E em 1986 terminei O Cavaleiro das Trevas. Batman saiu da aposentadoria e voltou a fazer o que sempre fez de melhor: dar surras nos malvados".

Neste momento, Frank Miller sorri abertamente e até gargalha. O riso parece sair um pouco da boca, como nos quadrinhos. Um riso seco. Será que o Batman é Frank Miller, assim como Madame Bovary era Flaubert? O artista adora a comparação. "Batman c'est moi? O Batman é os meus sonhos. Minhas histórias são meus sonhos. Todo personagem que crio ou desenho é parte de mim. Mas nem tenho carro, não posso saltar pelos telhados e você poderia me dar uma surra". Ele diz isso com um sorriso que me faz pensar que o Coringa também parecia um espantalho e nunca teria vontade de encontrá-lo em um beco escuro. Frank Miller está atualmente longe de ter os músculos do Batman, mas será que não há uma identificação existencial? "Bem, estou irritado. E o Batman está sempre de mau humor".

O que é um herói? Se há alguém que saiba isso deve ser Miller. "Um herói é um homem ou uma mulher que faz o que é certo. Se existem heróis é porque o mundo precisa deles. O mundo não está bem, e precisa deles. Precisamos de alguém superior, mais valente, para nos ajudar. E eles nem precisam voar". Mas seus heróis, e a maioria deles, de maneira geral, desde que o homem é homem, de Édipo ao Capitão América e a Wolverine, são pessoas atormentadas, não? "A motivação do Batman vem da sua dor. Ele encontra consolo e até um tipo de felicidade em dar sentido a um mundo demente, enlouquecido".

Elektra, os espartanos de 300... Diríamos que a Grécia lhe cai bem. "Me interesso muito pela cultura grega. Sou obcecado pelos mitos e heróis desde muito jovem. Os gregos entenderam muito bem a ideia do herói, que eles imaginavam como filhos de Deus e humanos. Devemos muito a eles. Os super-heróis são a mitologia norte-americana. Simplesmente pegamos um herói clássico, colocamos nele uma roupa justa e damos poderes a ele". Poderia se dizer muito da húbris dos super-heróis. Os olhos de Frank Miller brilham com um flash de cumplicidade. "Sim, húbris, o defeito fatal, a falha, o desejo de transgredir os limites, o orgulho que é castigado. Existe nos super-heróis e nas pessoas comuns. Em qualquer personagem, herói ou vilão, existe esse defeito. Se o Superman fosse um homem mais fraco, seria um ditador. E se o Batman não fosse, no fundo, um homem bom, seria um criminoso". Não sei por que me ocorre que o senhor deve ter lido Joseph Campbell. Ele volta a sorrir. "Aha! O 'Herói de Mil Faces".

Falemos do Demolidor. Que herói mais diferente. Um deficiente, um cego. "Ah, o Demolidor é um personagem maravilhoso? Tive muita sorte porque não vendia bem, ninguém gostava dele, e também me pediram para que o redimisse. Eu aceitei desenhá-lo porque ninguém queria fazer isso. E por isso, me deixaram fazer o que eu quis. Tive muita sorte, porque ele agradou". Todos os seus personagens parecem se mover em um espectro de relatividade moral. "Não acho. Acho que minha obra, na realidade, é bastante moral. É o bem contra o mal. Essa é a base. Mas não é algo simples. Se fosse, meu trabalho seria mais fácil".

Miller foi criticado por empregar muita violência e sordidez em suas histórias e desenhos. Será que Frank Miller é o Tarantino dos quadrinhos? "Nós trabalhamos juntos em Sin City e nós dois metemos bastante medo", responde o artista. E acrescenta outras semelhanças: "Temos um senso de humor estranho, e nós dois gostamos das mulheres japonesas que assustam. Nós dois gostamos de meter medo nas pessoas, mas sempre com esse senso de humor esquisito".

Como criador de Elektra, o que pensa das super-heroínas, a quem o salão em Barcelona dedica uma exposição – e da mulher nos quadrinhos, de maneira geral? "Bem, Elektra não é uma super-heroína. É uma vilã muito atraente. As mulheres trouxeram e estão trazendo uma grande contribuição aos quadrinhos. Mas muitas ainda fazem falta: super-heroínas, desenhistas, escritoras e leitoras".

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