Primeiro de Maio, com Dilma em São Paulo, dá largada à nova fase da crise

Com iminência do afastamento da presidenta, esquerda se prepara para se opor a Temer

Manifestantes contra e a favor do impeachment, em São Paulo (à esq.) e em Brasília.
Manifestantes contra e a favor do impeachment, em São Paulo (à esq.) e em Brasília.FERNANDO BIZERRA JR. / SEBASTIÃO MOREIRA / EFE
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No atual cenário, Michel Temer, se confirmado presidente interino, tem muito com o que se preocupar. Sobre ele, que gasta seus prováveis últimos dias na vice-presidência construindo alianças e engordando seu próprio plano de Governo, pesam os olhares dos movimentos sociais que integram a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, como a CUT, o MST e o MTST, garantem que “não deixarão em paz” um eventual Governo seu e criticam Temer, que não esconde seus planos de cortes e medidas socialmente impopulares para viabilizar a volta do crescimento econômico.

Um termômetro do que esses movimentos são capazes de mobilizar será justamente a celebração deste domingo pelo Dia Internacional do Trabalhador. A CUT (Central Única dos Trabalhadores) a maior central sindical do país, com 22 milhões de trabalhadores representados, convoca a população para os protestos contra o impeachment de Dilma e garante “o maior 1o de Maio da nossa história”. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o diretor-executivo da CUT, Julio Turra, prometeu que o movimento “ficará nos pés de Temer” e trabalhará para sua saída. O “fora Temer”, diz, se levantará se houver “golpe” contra Dilma e se se concretizarem as políticas do vice-presidente que podem afetar o mercado de trabalho. No evento, segundo o jornal Valor Econômico publicou na sexta, Dilma deve anunciar o reajuste no programa Bolsa Família, sem correção desde 2014. A própria presidenta se prepara para acelerar a entrega de projetos seus e construiu, nas últimas semanas, uma agenda de encontros com as bases sociais para os dias derradeiros.

A articulação contra o “golpe” se dá em consonância com o MST (Movimento Sem Terra). Na semana passada, na terça-feira, o grupo fez manifestações em pelo menos sete estados brasileiros pela reforma agrária e contra o afastamento de Dilma. A ideia, segundo as lideranças, é provocar paralisações nacionais, de cuja viabilidade muitos analistas duvidam, dado a recessão econômica que coloca os empregos em risco. Mas o presidente do MST, João Pedro Stédile, pensa diferente: “É esse o termômetro que nós vamos levantar amanhã [hoje (20)]. Eu acho que tem muitos sindicatos que têm base organizada nas fábricas, como no ABC Paulista, no Vale do Paraíba. No Rio de Janeiro, os petroleiros da Petrobras, se quiserem, param o a Petrobras. Nós, na agricultura, temos condição de parar, parar as estradas, o transporte de mercadorias”, disse em entrevista à TV.

Às vozes infladas da CUT e do MST, soma-se a do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Em conversa por telefone com o EL PAÍS, Guilherme Boulos, líder do grupo, reforça o alinhamento popular que pode “derrotar o golpe nas ruas”: “Vamos permanecer nas lutas, fazer greve, ocupar terra, enfim... A resistência vai se dar nos métodos de que o trabalhador dispõe”, afirma. No entanto, destoa dos demais movimentos de esquerda ao defender que Dilma convoque novas eleições “já para o mês de julho” – ideia já batizada de “Diretas Já!”, ao qual a CUT e o MST se opõem fortemente.

A central que é pró-impeachment, a Força Sindical de Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (SD-SP), também faz ato do Primeiro de Maio em São Paulo, na Zona Norte. Estão previstas as participações de parlamentares a favor da destituição, como Carlos Sampaio (PSDB-SP). No ano passado, o aliado de Paulinho e presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi um dos participantes.

Sem "Fora, Cunha" à vista

Enquanto a esquerda reforça uma voz que esteve em parte adormecida ao longo do Governo do PT, a direita – que nos últimos anos vem captando os discursos de jovens lideranças políticas que despontam no país – também promete não largar o megafone para seguir mobilizada pelo afastamento definitivo de Dilma. Se aceito o processo de impeachment pelo Senado em maio, a presidenta será afastada temporariamente. Só uma votação por maioria qualificada dos senadores podem fazê-la perder o cargo de vez. De acordo com vários levantamentos, entre eles o da plataforma Atlas Político, esse resultado ainda não é garantido.  

Um dos eixos declarados destes movimentos, a luta contra a corrupção, porém, dá sinais de arrefecimento. Apesar das crescentes acusações contra Eduardo Cunha e do envolvimento na Lava Jato de nomes que se cacifam no futuro Governo interino, como Romero Jucá, não há atos grandes atos anti-corrupção marcados, pelo menos até agora. "Se vierem a ser comprovadas as denúncias contra Cunha, não vamos pestanejar em criticá-lo e possivelmente incluí-lo na nossa pauta de reivindicações", anunciou o MBL (Movimento Brasil Livre) ao EL PAÍS em entrevista em agosto passado.  Ainda não há no extenso material on-line do movimento, que acompanhou de perto os desdobramentos do impeachment na Câmara, dessa inclusão.

O MBL se mostra otimista com o Governo Temer em sua página do Facebook, onde publicou: “Algumas propostas de Temer parecem interessantes. Já disse que vai cortar verbas de movimentos como MST, MTST, etc, além de se mostrar contrário a volta da CPMF e o aumento de impostos. Agora, apresenta proposta de criar uma área exclusiva no Governo para acelerar privatizações e concessões”.

Um dos mais fortes defensores do impeachment de Dilma para a construção de um “novo Brasil” é o movimento Vem pra Rua, cujo líder, Rogério Chequer, celebrou a votação favorável ao impeachment da presidenta na Câmara com um artigo publicado no UOL. Nele, Chequer garante que, a partir de agora, “o país poderá, sim, se reerguer, virando a página da mentira, do autoritarismo e do crime, orquestrados pelo PT, e iniciar uma caminhada longa e difícil, porém justa e necessária”. Mas isso não significa descanso. Superada a fase de “monitorar a Câmara”, o movimento promete se concentrar na admissão do processo de impeachment pelo Senado e também continuar vigilante com Temer.

“Acreditamos que a maioria dos senadores vai acatá-lo, mas vamos nos mobilizar nacionalmente para conversar, monitorar e exigir deles que se cumpra a imensa vontade popular pela saída de Dilma”, declarou Chequer por telefone ao EL PAÍS. Ele defende que a petista não é o único alvo do movimento. Se o Temer subir, “nossa missão continua sendo monitorar o novo Governo, como fazemos agora. Não somos unicamente um movimento pró-impeachment e anti-PT. O Vem pra Rua quer garantir que nossos governantes estejam conectados com os anseios da população e que os eleitores se sintam representados”, explica, em um tom de voz ponderado.

É aí onde a esquerda se alarma – e onde fica claro que o futuro promete muito para o Brasil, menos conciliação. Chequer, ainda assim, discorda de que haja polarização. “A arrebatadora maioria da população se opõe às práticas lulo-petistas. O que existe é uma minoria barulhenta que se apoia no aparelhamento do Governo. Com a concretização do impeachment e os fatos novos que devem surgir da nova administração, essa minoria pode perceber que cabe a eles fazer oposição democrática e pacífica”, opina. Com planos para o que virá, o líder do Vem pra Rua chega a demonstrar disposição ao diálogo, mas não esconde que só dará ouvidos a quem se sintonize com o movimento. “Estamos sempre abertos a ter uma interlocução com qualquer um que esteja alinhado com as nossas ideias, independentemente do partido”.

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