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Eduardo Paes: “Prefeitura errou ao não ter regras claras para a ciclovia. É um conjunto de falhas inaceitável”

Prefeito diz que suspeita de falha de projeto e que espera auditoria para punir culpados

Peemedebista defende Serra em seu partido para que concorra à presidência em 2018

Eduardo Paes
Eduardo Paes, em março deste ano. Agência Brasil

Eduardo Paes (Rio de Janeiro, 1969) não quer falar de política porque diz não gostar do que vê. Enquanto em seu partido, o PMDB, já estão repartindo as cadeiras dos ministérios diante um provável afastamento da presidenta Dilma Rousseff, o prefeito do Rio de Janeiro marca distância diplomática de Michel Temer, reclama da “imaturidade” da classe política e critica o impeachment como algo que “não vai fazer bem ao Brasil”.

A cem dias das Olimpíadas, as primeiras da história na América do Sul, Paes lida com a morte de duas pessoas após o desabamento da ciclovia projetada para ser a estrela de seu legado no Rio. O prefeito vê ainda seu nome na sucessão, Pedro Paulo, sob ameaça por causa da suposta agressão do pupilo à ex-mulher. Se sobreviver aos Jogos, promete ter sua cara estampada na cédula de candidato a governador do Rio e faz sua aposta para as presidenciais de 2018. Nem Temer, nem ele. O melhor candidato à presidência pelo PMDB seria o senador José Serra.

Pergunta. Como afeta ao prestígio da cidade a queda da ciclovia Tim Maia, onde falharam os mecanismos de controle da Prefeitura?

Resposta. Mais do que a imagem do Rio, eu acho que é um episódio muito triste porque principalmente perdemos duas vidas. É uma tragédia inaceitável. Desde o início botei a cara e assumi as responsabilidades da Prefeitura. Agora, assumi-las significa identificar onde estava o problema. E não vai ser algo que vai se decidir em 48 ou 72 horas. Contratamos uma auditoria para que duas universidades do Rio apresentem um laudo independente para poder fazer essa avaliação e identificar o nível que tem que ser punido. Temos que achar o CPF, não pode ficar na pessoa jurídica, tem que ver quem era o responsável pelo projeto que não identificou aquela possibilidade [de uma onda derrubar a ciclovia]. Do ponto de vista da imagem, que não é minha preocupação inicial, eu prefiro responder isso assim: “Olha, é muito triste para a cidade, mas temos tanta coisa boa para mostrar das Olimpíadas”. Havia um descrédito muito grande da nossa capacidade de entregar o Parque Olímpico, a Vila dos Atletas, o campo de golfe... E está tudo entregue, faltam só pequenos detalhes.

P. Qual foi sua reação quando, a caminho da Grécia, recebeu a notícia do desabamento da ciclovia?

R. De incredulidade. Minha primeira frase deve ter sido um palavrão. Puta que o pariu, provavelmente. É triste, você perdeu duas vidas e aquela ciclovia já tinha virado um símbolo da cidade. É difícil olhar um Instagram de um carioca que não tivesse uma foto nessa ciclovia. Me solidarizo com as famílias, isso já não tem volta, e vamos trabalhar para que não aconteça mais esse absurdo que aconteceu.

P. No caso da Concremat, responsável pela construção da ciclovia, é normal que a empresa tenha quase 50% dos contratos com a Prefeitura assinados sem licitação, sob a justificativa de contratos emergenciais?

R. No caso dela, é. A Concremat é uma empresa de geotecnia, ela é muito especializada. A Concremat não tem muita obra como a da ciclovia, que ela entra em um processo licitatório.

P. E por que ela entrou nessa licitação?

R. Não sei, tem que perguntar para eles. Mas era uma obra muito complexa mesmo. Era uma encosta, rochosa. Era uma empresa respeitada no mercado, até este momento. Eu não quero sair culpando ninguém, mas eu suspendi os pagamentos e a possibilidade da Concremat participar de licitações ou ter contratos da Prefeitura até que a gente tenha isso claro. Se eles foram responsáveis, vão ser declarados inidôneos e não vão poder participar de obra da Prefeitura. Se não foram, é a vida que segue.

P. Você anunciou após a tragédia a checagem de todas as obras públicas da cidade, há risco da iniciativa atrasar a conclusão das obras?

R. Acho que não. A checagem a gente faz o tempo todo. De verdade, nesse caso da ciclovia, você tinha a melhor empresa da Prefeitura, que é a Geo Rio, e uma empresa de muito nome, que é a Concremat.

P. Pior ainda, né?

R. O mais inaceitável é isso, que você tem os melhores times fazendo aquilo ali. Na minha opinião, mas eu não sou engenheiro, você teve um problema de projeto, de não mensurar a possibilidade de uma onda bater de forma diferente. Tem outra falha, da Prefeitura, de não ter estabelecido regras claras de utilização. É um conjunto de falhas realmente inaceitável.

P. A 100 dias das Olimpíadas quais são os principais desafios para garantir o sucesso dos Jogos?

R. O grande desafio das Olimpíadas agora é a operação dos Jogos e a cidade. A gente saiu dessa fase em que as obras eram o grande chamariz e agora começamos a cuidar da mobilidade, da segurança, a chegada e saída de público. São coisas que a gente vem trabalhando há muito tempo, mas chegou a hora da verdade. Temos também o desafio da colaboração do carioca com as Olimpíadas, que deve entender as dificuldades que o evento vai trazer para a cidade.

P. Você disse recentemente que sua última reunião com o COI (Comitê Olímpico Internacional) em Genebra teria sido para explicar as dificuldades de organizar uma Olimpíada em um cenário em que a grande maioria das construtoras está envolvida pela Operação Lava Jato. Na prática, em que consistem essas dificuldades?

R. Não me lembro de ter sido específico nisso. Eu tenho tentado manter um diálogo permanente com o presidente [Thomas] Bach, para informá-lo de como estão indo as coisas. Essa história de preocupação com construtoras da Lava Jato já teve uma fase pior. Quase dois anos atrás, quando começou a operação, quando faltavam quase dois anos e meio de obras, você tinha uma sensação de que essas empresas não conseguiriam entregar e, graças a Deus, tudo correu bem. Essa não é mais uma preocupação.

Na minha opinião,  você teve um problema de projeto na ciclovia

P. Segundo a Superintendência Regional do Trabalho, 11 pessoas morreram no transcorrer das obras Olímpicas e de legado. Em Londres, não houve vítimas mortais e na Copa do Mundo de 2014 morreram oito pessoas. Os motivos das mortes, segundo os fiscais, são “falta de planejamento” e “a corrida para cumprir o cronograma”. Houve pressa para entregar tudo da Olimpíada?

R. Esse número já baixou para nove. É o seguinte: tudo o que você tem agora vira culpa da Olimpíada. Eles associaram vítimas a obras que não tem nada ver com a Olimpíada. Nas obras olímpicas propriamente ditas você não teve nenhuma morte.

P. Mas sim nas obras chamadas de legado...

R. Houve nas obras de legado. É inaceitável e a gente cobra dessas empresas o cumprimento das regras de [segurança no] trabalho. Agora, eu não sei que tipo de acidente que se deu nessas obras. Não tem nada feito às pressas. Claro que o tempo de preparação de uma Olimpíada, para o que a gente está fazendo, é um tempo grande. Mas o Museu do Amanhã, onde parece que teve uma morte, a obra demorou quase seis anos. O ritmo é acelerado, sim, mas não é por culpa disso que houve mortes.

P. Uma das suas políticas mais criticadas com alcance internacional foi a remoção de moradores da Vila Autódromo. Hoje, quando apenas restam um punhado de famílias, a Prefeitura vai urbanizá-la. Por que vocês demoraram tanto em apresentar um plano que hoje beneficia apenas 20 famílias? A sua estratégia com a comunidade foi a melhor?

R. Eu fiz o que falei desde o início: quem quiser ficar, vai ficar. Você tem exatas 24 famílias que querem ficar, todos vão ficar.

P. Mas houve outras famílias que queriam ficar e se sentiram pressionadas a sair. Há muitas maneiras de pressionar as pessoas.

R. De verdade, eu tenho quatro abaixo assinados de moradores da Vila Autódromo, que eu não queria que saíssem, que vieram protestar na minha frente dizendo que a imprensa internacional ou que a ONG tal não representava eles. Ninguém saiu de lá forçado, só que tem uma demagogia envolvida louca, né?

P. Você então não mudaria nem uma vírgula do que foi feito?

R. Não sei, é óbvio que você teve desgaste com esse processo, mas aconteceu exatamente o que eu prometi que aconteceria.

P. Dados da própria Prefeitura o situam como o prefeito do Rio que mais remoções executou, com quase de 80.000 pessoas desde 2009. Ganhou o recorde como prefeito que mais despejos promoveu, a maioria sob a justificativa de serem pessoas em áreas de risco, ainda que especialistas discordem.

R. Eles pegam o número de famílias de classe média que a gente desapropriou para fazer a Transcarioca e a Transolímpica [sistema de linhas de ônibus rápido com faixa exclusiva] e incluem nas remoções das favelas e não é verdade. A maior parte das desapropriações que nós fizemos foram de comércios, famílias de classe média. Se houve um caso de remoção foi a Vila Autódromo e, mesmo assim, foi negociado.

P. Qual é o plano da Prefeitura para lidar com o desemprego que a cidade vai sofrer depois dos Jogos?

R. A gente lançou já um programa, chamado “Rio pra frente”, em que licitamos várias outras obras, varias outras intervenções, várias outras parcerias público-privadas e várias outras concessões na tentativa de não ter essa parada e ter a expectativa de continuar com esse ritmo grande de investimentos na cidade. A Prefeitura tem uma situação financeira e fiscal muito organizada, que permite a gente continuar investindo, fazendo as coisas. Mas nós estamos no Brasil, não estamos numa ilha, então a situação econômica do país precisa melhorar.

P. O que você achou da sessão do Congresso que aprovou o impeachment da presidenta Dilma?

R. Sem surpresa. Eu fui deputado. Você tem ali a representação do país. Eu já acompanho a política há muito tempo no Brasil e acompanho parlamentos em todos os lugares do mundo e eu acho que você tem um problema de postura. Mas você tem ali a representação da sociedade: tem o sujeito que é do interior, lá não sei de onde, e tem suas teses e tem seu jeito de ser, e você tem um sujeito mais de direita, mais conservador radical, que fala absurdos... Para quem nunca acompanhou a Câmara pode ficar surpreso, mas, para quem já foi deputado e conhece, é um problema de postura, de maneira de votar, mas... Eu não homenagearia minha mãe, minha mulher, minha filha para votar em nada.

Paes na inauguração da nova Marina da Glória.
Paes na inauguração da nova Marina da Glória. AFP

P. Você já se manifestou contra o impeachment, mas seu pupilo Pedro Paulo votou a favor. Por quê? Meses atrás o mesmo Pedro Paulo foi exonerado para apoiar em Brasília a eleição de Leonardo Picciani, aliado de Dilma.

R. Tem que perguntar para ele. Não é meu pupilo, ele é um deputado federal muito ligado a mim, mas que tem liberdade de tomar suas decisões. Outro deputado federal muito ligado a mim e que eu ajudo muito [Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara] votou “não”. Eu não votei. Eu acho muito ruim para o Brasil tudo o que aconteceu. E me limito a ficar por aqui.

P. Por que acha ruim?

R. Porque o ideal é que a gente estivesse podendo avançar, mas...

P. Você não acredita que o potencial Governo de Michel Temer pode ser uma via para avançar? É o que muita gente acredita...

R. Olha, eu torço pelo Brasil dar certo. Por que eu não tenho vontade de falar de Brasília? Porque eu fiz todo o esforço do mundo, mais do que devia porque eu tenho que cuidar da minha cidade, para tentar ajudar na composição política, acalmar a oposição, com quem eu me dou muito bem, a buscar entendimento, mas Brasília hoje me passa a sensação de uma enorme imaturidade. Eu não estou lá, não estou obrigado a estar lá, graças a Deus, então também não me sinto à vontade de dar opinião sobre o que acontece lá. A minha opinião é uma só: eu nunca vi tanta imaturidade e tanta incapacidade de arranjo político. Para mim é uma decepção.

P. Insisto porque alguém que vem de fora não entende facilmente o desembarque do PMDB do Rio, após todo o apoio que vinha prestando ao Governo Dilma.

R. Aí você tem que perguntar ao presidente do PMDB no Rio [Jorge Picciani]. Não é uma decisão partidária que eu encaminho, é uma decisão do partido no Rio.

P. Você vai apoiar um Governo Temer?

R. Eu, como prefeito, não tenho que ser oposição nem apoiar, eu tenho que trabalhar junto. Meu papel é governar a cidade e me dar bem com qualquer governo que lá esteja. Estoy muy aburrido de hablar de política [estou entediado de falar de política].

P. Qual é sua relação com Dilma Rousseff agora,você rompeu com ela? Porque o PT rompeu com você...

Serra é um cara maduro para essa tarefa e acho que hoje é o melhor nome que o Brasil tem para ser presidente

R. É um condicionamento político. O PT não rompeu comigo, rompeu com a candidatura do Pedro Paulo e com o PMDB do Rio. Compreensível após o posicionamento do partido. Mas eu guardo com os quadros do PT a melhor relação do mundo, e assim pretendo manter. Eu não estou disputando eleição. Eu tenho meu candidato e ele votou a favor do impeachment. É a opinião dele. Eu não sou coronel, não mando nos deputados. Acho que eles tem que votar com a sua consciência.

P. Você seria partidário de novas eleições?

R. Não. A única coisa que eu sempre defendi é que a conscientização e a maturidade política pudesse prevalecer. Infelizmente não prevaleceu.

P. Você já paquerou com a ideia de se candidatar a governador com o senador tucano José Serra como candidato à presidência pelo PMDB. O racha que vemos no PSDB hoje tem a ver com uma possível mudança de partido de Serra?

R. Continuo achando massa essa ideia. Tomara que o Serra seja ministro e tomara que o PSDB expulse ele e se filie ao PMDB para ser nosso candidato a presidente.

P. Por que Serra?

R. Acho ele o quadro político mais preparado do Brasil. Ele tem dimensão, capacidade política de articulação, conhecimento dos problemas brasileiros, seriedade, autoridade. Ele é um cara maduro para essa tarefa e acho que hoje é o melhor nome que o Brasil tem para ser presidente se houver um impeachment do Temer, da Dilma, de quem quer que seja.

P. Não há um nome forte no seu partido capaz de assumir uma candidatura presidencial?

R. Eu acho que não. Pode ser que Michel Temer vire um homem forte, mas hoje acho que não. Por isso sempre defendi que seria interessante trazer o senador José Serra para o PMDB.

P. E você nem pensa em se candidatar?

R. Nããão [risos]. Se eu sair vivo daqui, eu quero ser governador. Eu nunca tive esse sonho. Não quer dizer que eu não tenha mais sonhos na minha vida, mas eu sou um homem realizado porque meu sonho é estar onde estou. Por mim ficaria mais um tempo, mesmo com todas as dificuldades que eu tenho.

P. O que você acha da permanência de Eduardo Cunha na presidência da Câmara?

R. Eu sempre defendo que as pessoas tenham direito de defesa. Mas eu acho que esse processo dele no Conselho de Ética tem que ser julgado logo, que ele apresente sua defesa e que permita o julgamento. O mais grave é não se permitir julgar, usar a posição de presidente da Câmara para não julgar.

P. Que é o que parece que está sendo feito...

R. Compete aos deputados resolver esse problema. Por isso é que eu te digo que, se eu pudesse, até  31 de dezembro [quando acaba seu mandato], não ter mais que voltar a Brasília, eu seria um homem feliz.

P. O que significam os repasses contemplados na planilha do Odebrecht no seu nome Eduardo Paes, o “Nervosinho”?

R. Significam apoio eleitoral declarado à Justiça eleitoral.

P. Mas no Tribunal Superior Eleitoral não aparecem doações da Odebrecht para sua campanha.

 R. Dos 23 milhões de reais da minha campanha, 19 milhões vêm do PMDB nacional, então, provavelmente, a Odebrecht fez a doação ao PMDB nacional. Todas as minhas declarações de campanha eu fiz de maneira adequada, e não há nada que envolva meu nome em nenhum tipo de ilegalidade ou crime.

P. Mas essa não parece uma forma muito transparente de declarar as contas. A gente tem que confiar na palavra de cada um de vocês de que os repasses foram legitimamente enviados aos comitês de campanha.

Nunca vi tanta imaturidade e tanta incapacidade de arranjo político. Para mim é uma decepção

R. Mas a lei brasileira permitia isso. E essas grandes empresas, principalmente, para que não houvesse algum tipo de ilação depois, elas preferiam fazer as doações pelo partido nacional e não era obrigada a identificação. Passou a ser obrigatório em 2014. Então é correta essa determinação de identificar [os candidatos beneficiários]. Era ruim até 2012, mas isso gerava para essas empresas uma posição mais confortável que pensava: "Ô, amanhã eu vou fazer uma obra para a Prefeitura do Rio. Se eu doar tanto para a campanha, vão pensar que foi por conta disso”.

P. No caso do Pedro Paulo vocês mudaram a versão dos fatos várias vezes. Primeiro minimizaram a primeira agressão a agora ex-mulher dele e disseram que era única. Após vazar a segunda denúncia, optaram por uma coletiva de imprensa e a ex-mulher defendeu o secretário. Depois disso, a defesa de Pedro Paulo levanta a hipótese de que a vítima pode ter se autoflagelado. Com que história a gente fica?

R. Ele está sendo objeto de inquérito pela Procuradoria Geral da República, pelo Supremo Tribunal Federal e pela Polícia Federal. A melhor coisa é aguardar os resultados desse inquérito e desse julgamento para ver se ele vai ser condenado ou não. Eu mantenho minha posição de apoio a Pedro Paulo porque eu tenho certeza que ele não é um agressor de mulheres e que jamais agrediu sua mulher.

P. Mas “jamais agrediu sua mulher.” significa que ex-mulher teria mentido, né?

R. Não estou dizendo nada. Eu não faço parte do casal, não conheço. Eu conheço o personagem Pedro Paulo e posso lhe garantir que ele nunca agrediu a mulher dele.

P. O que você vai fazer se a Justiça decretar que Pedro Paulo é culpado?

R. Serei o primeiro a retirar o apoio à candidatura dele. Jamais apoiaria um agressor de mulher. Jamais. Mas eu tenho muita certeza de que ele não é. Essa história ainda vai ficar clara para todos.

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