Coluna
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De Dona Lúcia para Temer

"Querido Michel Temer, meu parnasiano predileto, acabo de ouvir mais um áudio vazado pelo poeta. Mais uma vez me senti diante de um homem íntegro e corajoso..."

O vice-presidente Michel Temer.
O vice-presidente Michel Temer.Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Dona Lúcia, a célebre dona de casa que escreveu ao Felipão e ao Parreira, depois do tragicômico 7x1 da Alemanha, voltou novamente, como o boêmio do clássico de Nelson Gonçalves, seu ídolo-mor. Dona Lúcia iria se dirigir diretamente ao Eduardo Cunha, a quem admira pela condição de o mais gozador dos nossos inimputáveis patriotas.

Dona Lúcia, todavia, refletiu. Não poderia trair o poeta, como se refere ao seu conterrâneo de Tietê (SP). Lambeu os selos do civismo e postou a cartinha. Pede, encarecidamente, desculpas pela redação e estilo –não corre mais em suas veias o sangue beletrista dos tempos do grêmio literário do interior.

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Ora direis, ouvir estrelas... Dona Lúcia usou o mesmo modelo epistolar aplicado à comissão técnica da seleção canarinho. Aquela mensagem serve para qualquer capítulo da repetida tragicomédia brasileira. Dona Lúcia, tal qual nossos bons cronistas, se orgulha do autoplágio permanente. “Ora, se até o pato da gloriosa FIESP é uma cópia pirata, por que se preocupar com originalidade a essa altura do estrago?”, indaga.

Dona Lúcia, pelo que reparei, substituiu apenas os nomes dos destinatários nos primeiros parágrafos:

“Querido Michel Temer, meu parnasiano predileto, acabo de ouvir mais um áudio vazado pelo poeta. Mais uma vez me senti diante de um homem íntegro e corajoso. Fiquei muito triste ao constatar que o ser humano muitas vezes é de uma crueldade sem limites. Tive esse sentimento ao ouvir os jornalistas lhe perguntarem sobre a dívida histórica do senhor com a nação brasileira. E o senhor mesmo sofrendo mais do que qualquer um ali com toda humildade que lhe é peculiar, deu uma resposta muito coerente. Parabéns, o senhor é um grande homem e um ser humano ímpar.”

Momento cívico

Dona Lúcia ainda relembra as tertúlias lítero-recreativas em Tietê, alguns favores políticos de varejo patrocinados pelo seu poeta predileto... Não vem ao caso reproduzir neste texto. O que vale aqui é a importância do grande momento cívico. Dona Lúcia prossegue:

Dona Lúcia está impossível. Bordou o slogan que levará às ruas com as colegas da igreja: “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”

“Golpe? Não caia nessa manobra semântica dos barbudinhos terroristas. Não se reprima, não se constranja, mire-se no exemplo do nosso Cunha, o mestre de cerimônias do grande evento deste inesquecível domingo tingido de verde e amarelo. Mire-se no exemplo firme dos nossos telejornais, colunistas e blogueiros. Estão do nosso lado 24 horas. Temos todas as famílias das tradicionais casas impressoras na linha de frente da intervenção civil dos homens de bem. Pena que não temos assim, digamos, um Carlos Lacerda –que homem! O discurso é pobre, mas deixa para lá, quem precisa de elegância de estilo na gravidade da hora? O que importa é tirar a megera.

Sim, temos o menino Moro (que fofo!) e seus melhores arapongas da PF –quem não deve não teme grampo na boca maldita. Nos ambientes do lulo-cubismo, ah miserável Nove Dedos, até as paredes confessam. Ô gentinha!”

País sério

Danada essa dona Lúcia. Não vê a hora do Brasil voltar a ser dos brasileiros. Vai usar domingo o mesmo lenço verde e amarelo que lhe acompanhou na Marcha por Deus e pela Família em 1964. Era uma mocinha. “Naquele tempo não se paquerava nas passeatas”, relembra. “Este país já foi sério um dia.” Dona Lúcia não nega, porém, sem que isso represente traição alguma ao poeta de Tietê, sua queda pelo agrocanalha Ronaldo Caiado. “Um pão”, graceja. Danadinha.

Epistolar no último, dona Lúcia enviou essa mesma carta com cópia a todos os parlamentares de bem. Com ou sem ficha limpa. “Corrupção é apenas um detalhe”, faz paródia a uma frase famosa do amigo Parreira.

Dona Lúcia está impossível. Bordou o slogan que levará às ruas com as colegas da igreja: “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”.

No post scriptum, o P.S. da cartinha aos deputados que decidirão sobre o impeachment, escreveu: “Democracia para mim é grego. Sem mais para o momento, saudações patrióticas.”

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor do romance Big Jato (Companhia das Letras) e comentarista do Papo de Segunda (GNT).

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