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Atos contra impeachment tentam se colar a simbolismo do Golpe de 64

Movimentos sociais convocam protestos contra impeachment neste 31 de março em várias cidades

Protestos de 31 de março relembram Golpe de 64
Frente Nacional de Luta se reúne para o ato, em Brasília AFP

Passadas pouco menos de duas semanas do último grande protesto contra o impeachment, no dia 18 de março, quando o ex-presidente Lula discursou em um carro de som na Avenida Paulista, uma nova mobilização está marcada para esta quinta. Organizada pela Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, que reúnem movimentos populares, sindicatos e organizações políticas, a manifestação deve ocorrer em espaços simbólicos de diferentes cidades do Brasil e do mundo. Em Brasília, por exemplo, os organizadores esperam reunir 100.000 pessoas em frente ao Congresso Nacional e na manhã de hoje a hashtag #BrasilContraOGolpe já estava entre os termos mais comentados globalmente no Twitter.

A organização conjunta do ato mostra que, apesar das divergências entre as duas frentes, fundadas no ano passado, os diferentes discursos de esquerda estão unificados em torno da tese de defesa da democracia. Enquanto a Brasil Popular é mais próxima ao PT, a Povo Sem Medo, ligada a setores do PSOL e ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), sempre se posicionou mais criticamente ao Governo Federal. As diferenças agora, contudo, foram colocadas de lado: os movimentos fecharam uma pauta contrária ao impeachment, ao ajuste fiscal e a reforma da previdência – apesar dos dois últimos pontos serem teses defendidas pelo Governo Dilma.

O dia 31 de março não foi escolhido por acaso pelos organizadores. Em 1964, há exatos 52 anos, os militares, apoiados por setores da sociedade civil e do empresariado brasileiro, depuseram o ex-presidente João Goulart, dando início aos 21 anos de Ditadura Militar no Brasil. “Não é um golpe do mesmo tipo, com as forças armadas nas ruas. Alguns atores mudaram de nome, mas a farsa é a mesma”, defende Raimundo Bonfim, um dos integrantes da Frente Brasil Popular. E o simbolismo se estende também para o palco das manifestações. Em São Paulo, por exemplo, a Avenida Paulista, que esteve em disputa entre manifestantes pró e contra impeachment, foi preterida em favor da Praça da Sé, palco histórico da campanha das Diretas Já.

A mobilização acontece em meio a um cenário de expectativas e incertezas políticas. Com o desembarque do PMDB do Governo, há quem aposte que as chances da presidenta barrar o processo de impeachment, atualmente em análise na Comissão especial da Câmara, ficaram muito reduzidas. Sem apoio do PMDB e com a possível saída de outros partidos da base, resta ao Governo negociar individualmente com os deputados. O ex-presidente Lula, por exemplo, aposta em uma coalizão com peemedebistas sem apoio da direção do partido para barrar o processo. Contudo, Lula, anunciado como novo ministro da Casa Civil, em 16 de março, ainda não conseguiu assumir de fato. Seu caso segue enrolado na Justiça.

Em um quadro em que as dificuldades na articulação política nunca foram tão ruins no Planalto e que a composição de um Ministério e linhas gerais do possível Governo Temer já são discutidas abertamente na imprensa, a mobilização das ruas contra o impeachment parecem uma última esperança do Governo Dilma, e dando caráter vital em meio ao debate sobre sua destituição. Não à toa, protestos, abaixo assinados e atos de intelectuais e juristas têm se multiplicado diariamente em diferentes cidades. Ontem, por exemplo, enquanto manifestantes pró-impeachment estão acampados em frente a Fiesp desde 16 de março, cerca de 800 pessoas se reuniram em um ato de artistas em defesa da democracia no vão livre do Masp.

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