Guerra, manual de instruções

É preciso chamar as coisas pelo seu nome e tratar o inimigo como tal. A alternativa é clara: se não houver mais tropas em seu terreno, teremos mais sangue no nosso

Um homem ergue a bandeira da França em frente ao Bataclan.
Um homem ergue a bandeira da França em frente ao Bataclan.Peter Dejong / AP

Pois bem, é a guerra.

Um novo tipo de guerra.

Uma guerra com e sem fronteiras, com e sem Estado; uma guerra duplamente nova porque mistura o modelo não-territorial da Al Qaeda com o velho paradigma territorial resgatado pelo Estado Islâmico (EI).

De toda maneira, é uma guerra.

E, diante desta guerra, que não era desejada nem pelos Estados Unidos, nem pelo Egito, nem pelo Líbano, nem pela Turquia, nem, agora, pela França, só podemos fazer uma pergunta: o que fazer? Quando temos diante de nós uma guerra como essa, como reagir e vencer?

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Primeira regra. Chamar as coisas pelos seus nomes. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E ousarmos pronunciar a palavra terrível, guerra, diante da qual o mais desejável, o mais adequado e, no fundo, o mais nobre por parte das democracias, mas também sua debilidade, seria rechaça-la até o limite de sua compreensão, de suas referências imaginárias, simbólicas e reais.

A grandeza e a ingenuidade de Léon Blum, que, em um famoso debate com Elie Halévy disse que não conseguia conceber –a não ser como uma contradição— nem mesmo a ideia de uma democracia em guerra.

A dignidade e os limites das grandes consciências humanistas no final daqueles mesmos anos trinta, que viram surgir, espantados, a Georges Bataille, Michel Leiris, Roger Caillois e outros colegas do Collège de Sociologie com seus apelos ao rearmamento intelectual de um mundo que acreditava ter deixado para trás o seu lado maldito e sua História.

E aqui estamos.

Pensar o impensável da guerra.

Admitir esta contradição que é a ideia de uma república moderna se ver obrigada a combater para se salvar. E pensar nisso com mais tristeza ainda, porque várias das regras estabelecidas pelos teóricos da guerra, de Tucidídes a Clausewitz, parecem não servir para o caso desse Estado fantoche que leva a chama do confronto mais além, na medida em que suas frentes de batalha estão espalhadas e seus combatentes têm a vantagem estratégica de não estabelecer diferenças entre o que nós chamamos de vida e eles chamam de morte.

As autoridades francesas, até as suas mais elevadas instâncias, entenderam isso.

A classe política aprovou unanimemente a sua atitude.

Restamos você, eu, o corpo social no seu conjunto e em seus detalhes: resta a pessoa, que é, cada um de nós, um alvo, na frente de batalha, um soldado sem sabê-lo, um foco de resistência, um ponto de mobilização e de fragilidade biopolítica. É desesperador, é atroz, mas as coisas estão colocadas desta maneira, e é preciso agir com a maior das urgências.

Não é terrorismo. Não é uma dispersão de lobos solitários nem de desequilibrados

Segundo princípio: o inimigo. Quem fala em guerra, fala em inimigo. E esse inimigo não só tem de ser tratado como tal, ou seja (os ensinamentos de Carl Schmitt), vê-lo como uma figura que, conforme a tática escolhida, se pode enganar, fazer dialogar, golpear sem dizer nada, não tolerar em caso algum, mas sobretudo (ensinamentos de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino e todos os teóricos das guerras justas), atribuir-lhe também o seu nome autêntico e claro.

Este nome não é terrorismo.

Não é uma dispersão de lobos solitários nem de desequilibrados. Quanto à eterna cultura do pretexto, que nos apresenta os esquadrões da morte como indivíduos humilhados, levados ao limite por uma sociedade desigual e obrigados pela miséria a matar alguns jovens cujo único crime era gostar de rock, de futebol ou do frescor de uma noite de outono em um café, é um insulto à dor e aos assassinados.

Não.

Esses homens que são contra o prazer de viver e a liberdade característica das grandes metrópoles, esses bastardos que odeiam o espírito das cidades, assim como –pois, na verdade, são a mesma coisa—o espírito das leis, do Direito e a suave autonomia dos indivíduos libertados de velhas submissões, esses incultos, aos quais se deveria responder, se não lhes fosse completamente desconhecidas, usando as belas palavras de Victor Hugo ao gritar, em meio à matança da Comuna, que atacar Paris é mais do que atacar a França, pois é destruir o mundo, merecem ser chamados de fascistas.

Melhor ainda: fascislamistas.

Ou melhor ainda: o fruto do cruzamento que um outro escritor, Paul Claudel, viu surgir, quando, em seu Diário, em 21 de maio de 1935, em um momento de uma clarividência cujo segredo só os grandes possuem, registra: “Discurso de Hitler? Cria-se no centro da Europa uma espécie de islamismo...”.

Qual é a vantagem se dar nome às coisas?

Colocar as coisas no seu devido lugar. Lembrar que, com esse tipo de adversário, a guerra deve ser sem trégua nem piedade.

E obrigar a todos, em todos os lugares, tanto no mundo árabe muçulmano como no restante do planeta, a dizerem por que está lutando, ao lado de quem, contra quem.

Isso não significa, é claro, que o Islã tenha qualquer afinidade com o mal, assim como não a têm outras formas de discurso.

E a urgência deste combate não nos deve desviar desta outra batalha, também essencial, que é a batalha em favor do outro Islã, do Islã das luzes, o Islã no qual se reconhecem os herdeiros de Massud, Izetbegovic, bangladeshiano Mujibur Rahman, os nacionalistas curdos e o sultão de Marrocos que tomou a heroica decisão de salvar, enfrentando Vichy, os judeus de seu reino.

Mas isso significa duas coisas, ou talvez três. Para começar, que, como se considera que a tormenta fascista dos anos trinta não reduziu as dimensões da Europa, as terras do Islã são as únicas do mundo em que se evitou assumir a memória e o luto que, sim, foram assumidos pelos alemães, os franceses, os europeus em geral, e os japoneses.

Com esse tipo de adversário, a guerra deve ser sem trégua e sem piedade

Em seguida, que é preciso destacar com mais clareza a disputa decisiva, primordial, que se realiza entre essas duas visões do Islã, envolvidas em uma guerra letal que é, pensando bem e para usar uma expressão bastante conhecida, o único choque de civilizações em curso.

E, por último, que esse traçado da linha sobre a qual se enfrentam os seguidores de um Tariq Ramadan e os amigos do grande Abdelhawahb Meddeb, assinalar o que, de um lado, pode alimentar o “Viva a morte” dos novos niilistas e, de outro, o tipo de trabalho ideológico, textual e espiritual necessário para conjurar o retorno ou a chegada dos fantasmas, deve ser, sobretudo, obra dos próprios muçulmanos.

Conheço a objeção a ser levantada.

Já escuto os bem-pensantes gritando que chamar os bons cidadãos a se desvincular de um crime que não cometeram é supor que sejam cúmplices dele e, portanto, estigmatiza-los.

Nada disso.

Porque o “não em nosso nome” que esperamos dos nossos concidadãos muçulmanos é o mesmo dos israelenses que se desvincularam, há 15 anos, da política de seu Governo na Cisjordânia.

É o mesmo das massas de norte-americanos que, em 2003, protestaram contra a absurda Guerra do Iraque.

É o grito mais recente de todos os britânicos fieis, ou simples leitores do Corão, que decidiram proclamar que existe um outro Islã –tranquilo, misericordioso, apaixonado pela tolerância e pela paz–, que não é este em cujo nome se apunhalou um militar em plena rua.

É um grito belo. E um belo gesto.

Mas, sobretudo, é o gesto simples, de justiça, que consiste em isolar o inimigo, separa-lo de sua retaguarda e fazer com que deixe de se sentir como um peixe dentro da água em uma comunidade para a qual ele é, na verdade, uma vergonha.

Pois quem fala em guerra, fala, mais uma vez, inevitavelmente, em identificação, em marginalização e, se possível, neutralização dessa fração inimiga que atua no território nacional.

Foi o que fez Churchill quando prendeu, no momento da entrada da Grã-Bretanha na guerra, mais de 2.000 pessoas, algumas muito próximas –seu próprio primo, Geo Pitt-Rivers, número dois do partido fascista inglês--, que considerava como inimigos internos.

E é o que, guardando as devidas proporções, o que devemos decidir fazer hoje, por exemplo, proibindo aqueles que pregam o ódio; vigiando mais de perto os cerca de mil indivíduos fichados e marcados com o “S”, ou seja, suspeitos de jihadismo; e convencendo as redes sociais norte-americanas a não permitirem a divulgação dos apelos a que se cometam atentados suicidas a pretexto de se respeitar a Primeira Emenda.

É uma atitude delicada, que está sempre no limite das leis de exceção. E por isso mesmo é crucial, nestes momentos, não recuar nem quanto ao direito nem quanto ao dever de hospitalidade, mais necessários do que nunca diante da avalanche de refugiados sírios que fogem justamente do terror fascislamista.

Continuar a receber imigrantes ao mesmo tempo que destrói o maior número possível de células dispostas a matar.

Abrir ainda mais os braços para os que fogem do EI ao mesmo tempo em que nos dispomos a ser implacáveis com aqueles, entre eles, que querem se aproveitar de nossa fidelidade aos nossos princípios para se infiltrar em territórios para cometer seus crimes.

Não é algo contraditório.

É crucial não recuar agora quanto ao dever e ao direito de hospitalidade

É a única maneira de não dar ao inimigo a vitória que ele dá como certa, que é a de nos ver renunciando ao tipo de convivência aberta e generosa que caracteriza as nossas democracias.

E é, repito, esse raciocínio inerente a toda guerra justa que consiste em não misturar o que tem vocação para a divisão, e mostrar, neste caso, à grande maioria dos muçulmanos da França, que eles não só são nossos aliados, mas também nossos irmãos e concidadãos.

E, para concluir, o fundamental.

A verdadeira raiz dessa irrupção do horror.

Este Estado Islâmico que ocupa um terço da Síria e do Iraque e que oferece aos artífices de possíveis novos Bataclans bases, centros de comando, escolas do crime e campos de treinamento, sem os quais não poderiam fazer nada.

Sabemos que, na semana passada, no Sinjar, os peshmergas obtiveram, junto com a coalizão internacional, uma vitória decisiva.

Poderíamos citar vários exemplos, nos últimos seis meses, nos quais os curdos, que são até agora os únicos que travaram um combate corpo a corpo, viram os malditos soldados do Daech recuarem.

E, como em outro momento em Sarajevo, como na época em que supostos especialistas agitavam o fantasma das centenas de milhares de soldados que seria necessário utilizar no terreno dos combates para impedir a limpeza étnica, na realidade, quando chegar a hora, bastará um punhado de forças especiais e de ocupação: estou convencido de que as hordas do EI são muito mais valentes na hora de atacar alguns jovens parisienses indefesos de quando se trata de enfrentar autênticos combatentes da liberdade, e, por isso, acredito que a comunidade internacional, se quiser, dispõe de todos os meios para acabar com essa ameaça que enfrentamos.

Por que ela não faz isso?

Por que somos tão avaros na ajuda aos nossos aliados curdos?

Que guerra estranha é esta que os Estados Unidos, com Barack Obama à frente, parecem não querer ganhar?

Não sei.

Mas sei que a saída está aí.

E que a alternativa é clara: “No boots on their ground” equivale a “more blood on our ground” (quanto menos tropas no seu território, mais sangue no nosso).

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