França enfrenta os assediadores

Governo lança campanha contra o assédio sexual nos transportes públicos do país

Silhueta de mulheres em passagem subterrânea
Silhueta de mulheres em passagem subterrâneaYUYA SHINO (REUTERS)

Na França, a violência contra as mulheres quase nunca é notícia. Isso não quer dizer que as francesas não a sofram. Uma espiada nas estatísticas mostra que o fenômeno é semelhante, se não for superior, ao vivido nos países vizinhos. Agora, contra tal tendência, o assédio que as mulheres sofrem na rua e, sobretudo, nos transportes públicos, chegou aos meios de comunicação graças ao imaginativo e robusto movimento feminista francês e à receptividade do Governo. O jovem grupo Osez le Féminisme (Atrevam-se ao feminismo) já invadiu várias vezes os vagões do metrô com perucas coloridas para chamar a atenção para o problema. Outro coletivo existe apenas para denunciá-lo. Chama-se Stop Harcèlement de Rue (Parem com o assédio nas ruas).

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No final do ano passado, o Governo socialista de François Hollande enfim começou a trabalhar no assunto. Não havia muitos dados confiáveis e atualizados sobre o tema. Um estudo de 15 anos atrás assinalava que 13,7% das francesas diziam ter sofrido insultos e ameaças nos meses anteriores. Uma pesquisa de um grupo feminista demonstrava este ano a condição indefesa das mulheres em algumas situações: 85% delas avaliava que ninguém as ajudaria no caso de serem molestadas.

Um relatório oficial feito sob encomenda revelou em abril, por fim, um dato devastador: 100% das mulheres haviam sofrido assédio pelo menos uma vez na vida. O resultado é que o próprio Executivo lançou este mês uma campanha contra o assédio sexual nos transportes públicos, lugares cujo confinamento e promiscuidade ou, ao contrário, o isolamento, convidam muitos a aproveitar o momento. As mensagens oficiais são refinadas: o mapa de uma linha de metrô põe em cada estação as investidas que os assediadores costumam fazer nas suas vítimas. Osez le Féminisme foi em fevereiro um pouco mais agressivo em seus lemas: "Cuidado! Não coloque a mão na minha bunda porque você se arrisca a um tapa bem forte".

Mas a campanha oficial conta com um respaldo econômico e legal de potencial de fogo bastante superior. A campanha publicitária inclui um único número de telefone para emergências e desenvolverá ferramentas digitais para facilitar a denúncia. Também dará formação específica aos funcionários públicos para que estejam alertas e saibam como tratar as vítimas. Finalmente, foram elevadas as penas para os assediadores. Impor a outra pessoa um comportamento de conotação sexual provocando uma situação intimidadora, hostil ou ofensiva é punido com até três anos de prisão e 45.000 euros (183.700 reais de multa).