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O enigma da esfinge Marina Silva

A ambientalista, tão temida quanto amada, volta a ser uma incógnita no futuro da política brasileira

A ex-senadora e ex-ministra Marina Silva.
A ex-senadora e ex-ministra Marina Silva. Fabio Rodrigues Pozzebom (Agência Brasil )

A ambientalista Marina Silva, que segundo ela mesma “ganhou perdendo” nas últimas eleições presidenciais enquanto sua adversária, a presidenta Dilma Rousseff, “perdeu ganhando”, poderia ressuscitar, amparada por seu partido, a Rede Sustentabilidade, que acaba de ser legalizado. Continuará sendo o enigma da eterna esfinge?

Marina poderá gostar ou não, mas é difícil, em vista da crise que vive o país, não reconhecer que tinha previsto alguns dos problemas que se agigantaram agora. Como a crise política, produzida em parte pelas velhas práticas do chamado “fisiologismo”, que antecipou na última campanha eleitoral. Tinha razão ao dizer que a sociedade aceita cada vez menos a “velha política”, na qual vê a matriz dos escândalos de corrupção.

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A vocação de defesa da natureza e do meio ambiente, que ela encarna, e que foi reconhecida internacionalmente, também se tornou cada vez mais crucial para salvar o planeta, o que levou o papa Francisco a dedicar ao tema sua primeira encíclica Laudato Si e a insistir nisso em sua viagem aos Estados Unidos.

A aposta de Marina Silva em uma forma diferente de governar, tenha ela ou não a força para impô-la, continua tendo apelo nas ruas. A ambientalista mantém ainda, apesar de seu silêncio e até a quarta-feira sem um partido legalizado, um capital de mais de 30 milhões de votos, segundo as últimas pesquisas, superando uma possível candidatura de Lula.

Nas batalhas presidenciais anteriores, a voz de Marina já indicava uma terceira via, com sua defesa de um modo novo de governar, convencida que a política tradicional formada por partidos sem ideologia nem programas, que se vendem em troca de cargos e privilégios, está esgotada.

Desta vez, depois do terremoto do escândalo de corrupção da Lava Jato, as ideias de Marina se revelam duplamente alternativas à dos partidos tradicionais.

Marina foi duramente criticada nas últimas eleições por sua então adversária política, a candidata Dilma Rousseff, por afirmar que desejava governar com os “melhores”, os não corruptos. E é a presidenta que se vê hoje em dificuldade para nomear seus novos ministros por não saber se estarão ou não envolvidos em algum escândalo de corrupção. Também Dilma agora procura desesperadamente os melhores. Vai com a lanterna do Diógenes em busca de políticos limpos.

O que a ambientalista Marina sempre defendeu é que pode haver outras formas de governar, o que coincide com o que sente e parece desejar a sociedade que defende uma forma diferente e menos corrupta de dirigir os destinos do país e com uma maior participação ativa da sociedade.

Há quem tema que, se Dilma fosse derrubada, poderia aparecer algum aventureiro como aconteceu com Fernando Collor de Mello. Pode-se considerar uma possível candidatura de Marina Silva, com o apoio de seu pequeno e incipiente partido, uma aventura para o futuro do Brasil ou uma esperança de algo diferente?

Pode-se considerar uma possível candidatura de Marina Silva uma aventura para o futuro do Brasil ou uma esperança de algo diferente?

Haverá ainda hoje, depois da inquietação que está vivendo o segundo mandato Dilma, quem se atreva a acusar Marina de querer arrancar a comida do prato dos pobres?

Durante a última campanha, ela cunhou uma frase que agora soa profética: “Pode-se perder ganhando e ganhar perdendo”. Hoje, em vista da crise que vive o Brasil, depois das eleições que deram a vitória ao gigante Golias contra o pequeno Davi, contradizendo o relato bíblico, seria possível dizer que não lhe faltava razão.

Ela perdeu ganhando, porque foi reconhecida a injustiça a que foi submetida pelo tanque eleitoral, e Dilma, que ganhou nas urnas, hoje sofre na carne os resultados de uma vitória que se converteu em derrota.

A ambientalista poderia ser mais que uma voz no deserto, como muitos a acusam. Hoje é necessário colocar o trem descarrilado da economia e da decência política no binário de uma nova era de esperança que volte a unir os sofridos eleitores brasileiros.

O país não precisa de mais rasteiras políticas, nem mais enfrentamento e violência. Precisa recuperar sua vocação de país que ainda acredita que se pode ser feliz sem necessidade de roubar para ser milionário.

Marina Silva, de novo ressuscitada, aparece como uma mistura de utopia e realismo, de profetismo e pragmatismo, capaz de abrir um debate sobre o que os brasileiros desejam e esperam dos políticos, no momento em que sua estima pela velha política nunca foi tão colocada em discussão e contestada com tanta violência.

A ambientalista, talvez tão temida quanto amada, volta a ser, pois, uma incógnita.

Quando o ex-presidente Lula escolheu seu sucessor, pensou em Dilma e Marina, duas ex-ministras. Ambas mulheres de caráter. Lula conhecia melhor Marina, com quem tinha convivido 25 anos no mesmo partido e com uma biografia parecida com a sua. Ele a apreciava ao mesmo tempo que a temia.

Talvez hoje, quando o ex-presidente confessa que o PT deveria ser refundado para voltar a suas origens, arrependa-se de não tê-la escolhido naquela altura. Marina Silva é hoje um espinho para ele e seu partido, e Dilma Rousseff, sua grande dor de cabeça.

O futuro está por escrever.

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