Morre Manuel Contreras, chefe da polícia secreta de Pinochet

Diretor da DINA, condenado a 520 anos de prisão, falece aos 86 anos em Santiago

Manuel Contreras, em 2004.
Manuel Contreras, em 2004.CARLOS BARRIA (REUTERS)

Manuel Contreras, condenado a 520 anos de prisão por diversos crimes contra a humanidade na época em que comandou a temida Direção Nacional de Inteligência (DINA), a polícia secreta da ditadura de Augusto Pinochet, morreu na noite de sexta-feira no Hospital Militar de Santiago. Tinha 86 anos.

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O general reformado sofria de diversas doenças, como câncer de intestino, leucemia, hipertensão e diabetes, e estava hospitalizado desde 28 de julho. Antes, cumpria pena na penitenciária de Ponta Peuco.

“Causa frustração porque, afinal, Contreras morreu numa impunidade inapresentável”, observou Lorena Pizarro, presidenta da Agrupação de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD). “A dor que o Chile viveu não desaparece com a morte do chefe do aparelho repressivo de Pinochet. Precisamos garantir que fatos desse tipo não voltem a se repetir”, afirmou a ativista ao Canal 13 da televisão chilena.

Na noite de sexta-feira, em frente ao Hospital Militar de Santiago, cerca de 50 pessoas comemoravam a morte de Contreras com champanha e buzinas: “Assassino, assassino”, gritavam os manifestantes. Desde 2006, quando Pinochet morreu e foi velado na Escola Militar, não havia protestos desse tipo contra uma figura emblemática da ditadura (1973-89). Segundo a polícia, o ex-militar morreu às 22h30 (hora local e de Brasília) e será cremado numa cerimônia familiar discreta. Um decreto emitido durante o primeiro Governo de Michelle Bachelet (2006-2010) determina que nenhum militar que cumpre pena por crimes cometidos durante a ditadura poderá receber honras militares.

Em sua última entrevista, concedida à CNN Chile em 2013, por ocasião dos 40 anos do golpe militar de Pinochet, Contreras afirmou que a DINA nunca se envolveu em torturas. Naquela entrevista, o ex-militar declarou que nem a presidenta Michelle Bachelet nem sua mãe, Ángela Jeria, estiveram presas no centro de detenção de Vila Grimaldi no começo de 1975. De acordo com o testemunho dessas mulheres, no entanto, Contreras não somente esteve presente no lugar como também sugeriu que a Força Aérea do Chile, instituição onde o pai de Bachelet trabalhava, estava exercendo pressões pela libertação das prisioneiras.

Contreras cumpria pena por delitos cometidos depois do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973

“Morreu conforme a sua lei, infelizmente. Espero que os militares que estão na mesma condição dele sintam o repúdio que geram atualmente na sociedade chilena”, afirmou o presidente do Partido Comunista, Guillermo Teillier, ao Canal 13.

Contreras cumpria penas por delitos como sequestro, homicídio, formação de quadrilha e abuso de poder, relativos a violações dos direitos humanos por agentes do Estado depois do golpe de 11 de setembro de 1973. O ex-militar, que sempre manteve uma atitude desafiadora e jamais deu sinais de arrependimento pelos crimes que liderou como chefe da DINA, tinha outros 59 processos pendentes e outras nove condenações a medidas alternativas de reclusão.

O ex-militar jamais deu sinais de arrependimento pelos crimes que liderou como chefe da DINA

A morte de Contreras ocorre justamente quando os direitos humanos entraram novamente para a pauta política chilena. Há duas semanas, um ex-militar rompeu um pacto de silêncio e permitiu que a Justiça reabrisse, depois de 29 anos, um dos casos simbólicos da repressão, conhecido como Caso Quemados. A decisão dos tribunais, que resultou em processos judiciais contra 12 militares da reserva, levou entidades de direitos humanos e partidos de esquerda a solicitarem ao Exército que preste informações sobre o paradeiro dos detidos desaparecidos e entregue às autoridades todas as pessoas vinculadas a crimes contra a humanidade. A Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados convocou para a próxima terça-feira os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica para interrogá-los sobre informações que possam ter a respeito dos crimes da ditadura.

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