O caso da menina que controlou o HIV depois de parar de tomar remédio

O primeiro caso pediátrico conhecido de regressão do vírus depois de um tratamento antirretroviral logo no início, e seu posterior abandono, abre a porta a novas pesquisas sobre a aids

O Dia Mundial contra a Aids em Daca (Bangladesh).
O Dia Mundial contra a Aids em Daca (Bangladesh).ABIR ABDULLAH (EFE)

Na luta contra a aids, de tempos em tempos surgem descobertas surpreendentes. São casos raros e, a priori, não generalizáveis para a maioria dos portadores do HIV, mas abrem janelas de esperança pelas quais os pesquisadores podem olhar para encontrar novos enfoques contra a doença. No congresso da Sociedade Internacional da Aids, que está sendo realizado em Vancouver, acaba de ser apresentada uma delas: o caso de uma adolescente francesa que controlou os níveis do vírus depois de 12 anos, sem terapia antirretroviral

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É o primeiro caso na história de uma criança que deixa o tratamento e consegue uma regressão do HIV-1. Embora a menina continue infectada, pode levar uma vida perfeitamente normal sem tomar nenhum medicamento. No entanto, é preciso levar em conta que se trata de um único indivíduo, por isso ainda não se pode tirar conclusões firmes.

A descoberta foi anunciada nesta segunda-feira em Vancouver pelo Instituto Pasteur, cujos pesquisadores começaram a rastrear todos os casos pediátricos com HIV que tinham recebido tratamento logo ao nascer. Fizeram isso depois de outros dois desses achados que aportam novas perspectivas na luta contra a aids: o primeiro, a chamada pesquisa Visconti (2012), na qual essa mesma instituição mostrou que existem grupos de adultos capazes de controlar o vírus depois de abandonar os remédios se começaram a tomá-los muito pouco tempo depois de se infectarem. O segundo, o famoso bebê do Mississippi (2013), uma recém-nascida que se acreditava tinha conseguido vencer o vírus depois de deixar os antirretrovirais, mas que sofreu uma recaída dois anos depois.

Nos arquivos sobre casos pediátricos, os cientistas do Pasteur comprovaram que uma menina cuja mãe não se tratou durante a gravidez (algo que evita o contágio) recebeu depois de nascer um forte tratamento profilático que foi retirado pouco depois. Ao abandoná-lo os níveis do vírus dispararam, por isso lhe aplicaram uma potente terapia antirretroviral. Cerca de cinco anos depois, o sistema de saúde francês perdeu o contato com essa família, até que, quando a menina tinha seis anos e meio, foi levada ao médico e informou que havia deixado a terapia fazia alguns meses. As análises demonstraram que a carga viral continuava muito baixa, por isso ficou decidido não retomar a medicação e fazer um acompanhamento observacional muito próximo para comprovar se os níveis se manteriam. Isso aconteceu no ano de 2003. Hoje, 12 anos depois, o vírus continua controlado, algo que abre a porta para investigar o que há por trás desse fenômeno e quão frequente pode ser.

Asier Sáez-Cirión, espanhol que lidera o estudo do qual resultou a descoberta, explica que, em primeiro lugar, isso mostra que uma regressão prolongada é possível em crianças. “Vimos que funciona com mecanismos semelhantes aos dos adultos e que os mecanismos são muito diferentes dos daquelas pessoas que controlam o vírus de forma natural (isso acontece com cerca de 0,5% dos infectados), nos quais se verificam parâmetros genéticos raros. Aqui se viu que ao deixar a profilaxia a carga viral aumentou, ou seja, não é algo inato e parece fundamental o posterior tratamento precoce. O que acontece é que não há muitas crianças que começaram a tomar uma medicação forte, a mantiveram durante certo tempo e depois a interromperam. Isso é raro e sabemos que a maior parte das crianças e adultos que param não vão ser capazes de manter baixos níveis do vírus. Portanto, é um primeiro passo, não o suficiente. Temos que entender melhor por que há certos pacientes que controlam o HIV com terapia precoce, por que outros, não, e buscar marcadores para prever quem pode ser beneficiado”, explica.

Embora a menina continue infectada, pode levar uma vida perfeitamente normal sem tomar nenhum medicamento

A transmissão de mãe para filho, que entre a gestação, o parto e a amamentação oscila entre 15% e 45%, pode ser evitada se a mãe segue um tratamento durante a gravidez. Na maioria dos países desenvolvidos já é quase inexistente e, recentemente, Cuba foi reconhecido como o primeiro país do mundo a ter erradicado esse tipo de transmissão. No entanto, em outros lugares a infecção dos recém-nascidos continua sendo frequente.

A comunidade científica se mostra muito cautelosa ante essa descoberta e enfatiza que é preciso investigar mais para conhecer quais são os mecanismos que há por trás dessa regressão, e até que ponto pode ser frequente. Sharon Lewin, responsável pelo Departamento de Doenças Infecciosas da Universidade de Melbourne, e conceituada pesquisadora no campo do HIV, assegura que achados como esse podem ser “muito inspiradores” para os doentes, porque se comprova que é possível uma regressão, mas que não se deve perder de vista que se trata de um caso individual. “Não sabemos o quanto pode ser comum. Para isso é preciso pôr em prática experimentos clínicos que nos mostrem a natureza desse fenômeno. É necessário fazer testes com dois grupos que tenham recebido medicamento cedo e retirá-lo de um deles para comprovar a taxa de regressão dos que ficaram sem medicamentos em relação ao outro”, explica a pesquisadora. Já há alguns estudos com essas características em curso. Dentro de aproximadamente um ano começarão a ser conhecidos os primeiros resultados (em adultos) e poderão ser tiradas conclusões mais sólidas.

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