Coluna
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O brasileiro cordial

Falar que somos tolerantes é desconhecer nosso machismo, nossa homofobia, nosso racismo

Confronto durante protesto contra a desocupação da Favela do Metrô-Mangueira, na zona norte do Rio.
Confronto durante protesto contra a desocupação da Favela do Metrô-Mangueira, na zona norte do Rio.Fernando Frazão/Fotos Públicas/Agência Brasil

Há dias, ao término de uma palestra para cerca de 300 estudantes de uma universidade privada em São Paulo, me peguei pensando, ao olhar o auditório lotado de jovens: quantos de nós, ao deixar esse prédio, chegará ileso em casa? Porque, nos dias que correm, a nossa vida vale tão pouco que sobreviver a mais uma jornada é o máximo que aspiramos. Todos nós conhecemos famílias destroçadas pela violência —e pouco a pouco a sociedade paralisada de medo vai se tornando refém da própria impotência.

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Até o final do ano, estima-se que cerca de 65.000 pessoas terão sido assassinadas no Brasil, o que nos coloca na melancólica liderança do ranking mundial de homicídios no mundo em números absolutos, ou o 11º em números relativos (levando em conta o tamanho da população). E, embora a sensação de violência contamine a sociedade de forma geral, ela nos atinge de maneira particular, dependendo da classe social a que pertencemos, da cor, idade e sexo, e da região do país que habitamos.

De cada três pessoas mortas no Brasil, duas são negras —e 93% do total pertencem ao sexo masculino. Os jovens entre 15 e 29 anos constituem 54% das vítimas. O Nordeste concentra sozinho 37% do total das mortes no país, sendo Alagoas o campeão com uma taxa de 65 mortes por 1.000 habitantes, o dobro da média nacional. A região concentra ainda as cinco capitais mais violentas: João Pessoa, Maceió, Fortaleza, São Luís e Natal. As armas de fogo respondem por 80% dos crimes e quase 60% de todos os homicídios estão relacionados direta ou indiretamente ao tráfico de drogas. E, o mais inquietante: 90% dos assassinatos ficam impunes, porque nunca solucionados...

Se as mulheres representam somente 7% do total das vítimas de homicídios, elas respondem pela quase totalidade das ocorrências de estupro, que é uma agressão devastadora. O Brasil registra cerca de 53.000 casos de violência sexual por ano, que, estima-se, significa apenas 10% do total —a maioria não chega a denunciar o agressor por medo, vergonha ou falta de confiança nas autoridades. 70% das queixas envolvem crianças ou adolescentes e em dois de cada três casos o criminoso é pessoa próxima da vítima (pai ou padrastro, irmão, namorado, amigo ou conhecido).

O Brasil registra cerca de 53.000 casos de violência sexual por ano, que, estima-se, significa apenas 10% do total —a maioria não chega a denunciar o agressor por medo, vergonha ou falta de confiança nas autoridades

Mas a violência também acha-se presente no trânsito, um dos mais letais do mundo —são mais de 40.000 mortos e 170.000 feridos todo ano. Do total das vítimas, 29% são motociclistas, 24% motoristas de automóveis, 19% pedestres, 3% ciclistas, 2% motoristas de caminhão —a maioria absoluta homens (78%) e jovens entre 20 e 29 anos (28%). Imprudência, uso de drogas e álcool e má conservação das ruas e estradas estão entre as principais causas dos acidentes.

Um dos estereótipos mais arraigados em relação à cultura brasileira é a de que somos um povo alegre, hospitaleiro e festeiro. Ora, de cada 100 assassinatos ocorridos no mundo, 13 verificam-se no Brasil. O pensamento machista domina a sociedade de alto a baixo —uma em cada três pessoas (homens e mulheres) acredita que o estupro ocorre por causa do comportamento feminino. A violência no trânsito é responsável pela terceira maior causa de óbitos no Brasil, logo após as doenças cardíacas e o câncer.

Se somarmos as vítimas de homicídios e de acidentes de trânsito alcançamos um total de mais 100.000 mortos por ano ou 274 pessoas por dia, um número de óbitos maior do que o verificado em países em conflito —por exemplo, a guerra civil da ex-Iugoslávia, que durou dez anos, resultou em cerca de 200.000 mortos, e a guerra do Iraque, ocorrida entre 2003 e 2011, em torno de 400.000 vítimas. Então, por que a questão da segurança pública, que afeta a todos individualmente, para além de ideologias ou facções políticas, não mobiliza a opinião pública?

Um dos estereótipos mais arraigados em relação à cultura brasileira é a de que somos um povo alegre, hospitaleiro e festeiro. Ora, de cada 100 assassinatos ocorridos no mundo, 13 verificam-se no Brasil

Talvez tenhamos que repensar o caráter do brasileiro. Afirmar que os brasileiros somos naturalmente alegres é desconhecer a insatisfação latente que vigora nos trens, ônibus e vagões de metrô lotados. Falar que os brasileiros somos tolerantes é desconhecer nosso machismo, nossa homofobia, nosso racismo. Dizer que os brasileiros somos solidários é desconhecer nossa imensa covardia para assumir causas coletivas. A frustração, como já alertou uma canção do Racionais MC, é uma máquina de fazer vilão. No fundo, estamos empurrando a sociedade para o beco sem saída do autismo social.