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Ainda desunida, oposição quer se aproveitar da fragilidade de Dilma

Unificar discursos e atrair o PMDB são as estratégias para desgastar gestão petista

O senador Anastasia, um dos investigados pela Lava Jato. Ampliar foto
O senador Anastasia, um dos investigados pela Lava Jato. Ag. Senado

A oposição à presidenta Dilma Rousseff (PT) vive uma fase que qualquer um do time do contra gostaria de ter: sobram argumentos para atacar o seu Governo. Operação Lava Jato, crise política e econômica, política externa paralisada, mudanças nas regras trabalhistas, aumento de tributos e a uma correção da tabela do Imposto de Renda abaixo do previsto são alguns dos alvos da grita de deputados e senadores nas tribunas do Congresso Nacional e em entrevistas nas últimas semanas. E é exatamente esse excesso de temas a serem debatidos que pode distanciar os críticos de seus eleitores.

Nos últimos dias, os parlamentares têm se dividido em grupos com posturas distintas para confrontarem a gestão petista e até mesmo para atrair membros da bancada governista, principalmente do PMDB. De um lado estão os que fazem discursos que, por serem mais amplos, acabam balizando a agenda opositora, como os senadores Aécio Neves e José Serra, do PSDB. Do outro, estão os que cobram o Governo com um linguajar que se aproxima mais da população e dos manifestantes que programam protestos em favor do impeachment de Rousseff em todo o país para o próximo dia 15. Nesse grupo estão senadores Aloysio Nunes e Cássio Cunha Lima, do PSDB, e Randolfe Rodrigues, do PSOL, e o deputado Rubens Bueno, do PPS, que já se declararam favoráveis a esses protestos.

Em seu discurso de reestreia no Senado na última quarta-feira, Serra, por exemplo levou longos 50 minutos para traçar um panorama dos últimos 12 anos de Governo petista e atribuiu a atual crise à condução da política econômica do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro de Rousseff. Atacou também temas que são chaves para os tucanos, como a política externa. Em síntese, disse que era preciso alterar as regras de união alfandegária do Mercosul para que o Brasil pudesse se relacionar comercialmente com grandes potências.

Neves, por outro lado repete frases que usou na campanha eleitoral em que foi derrotado por Rousseff no ano passado. Ao comentar a fala de Serra disse que o Brasil vive um embate entre a verdade e a mentira.

“É melhor ver esse Governo sangrar até o último dia de seu mandato do que derrubá-lo dessa maneira”, disse um tucano

A mesma linha, mas em um tom mais agressivo, segue o deputado Bruno Araújo, líder da minoria na Câmara dos Deputados (grupo que reúne 140 parlamentares de quatro partidos). “A presidente cometeu a maior traição, a maior trapaça eleitoral do período republicano”, discursou no mês passado na Câmara, com as imagens sendo divulgadas na Internet. “Esse vídeo teve um alcance inesperado [foram mais de 1,1 milhão de visualizações no YouTube] porque nós desmoralizamos a presidente”, disse Araújo ao EL PAÍS.

Algo que mostra a desunião dos opositores é o apoio a um pedido de impeachment. Nem todos se dizem a favor. Alguns ainda querem esperar o que virá dos protestos, para só depois, se declararem. Já outro grupo é extremamente contra. “É melhor ver esse Governo sangrar até o último dia de seu mandato do que derrubá-lo dessa maneira, que nem sempre parece ser tão legítima”, disse um deputado tucano.

Uma estratégia para sangrar a gestão petista é reforçar as denúncias na CPI da Petrobras que funciona na Câmara. A ideia é fatiar o comando da CPI com sub-relatorias, tirando o poder do relator, que é do PT.

Grandes confrontos

Os primeiros embates diretos com o estafe governista já começam na próxima semana logo após virem à tona todos os nomes dos 49 investigados pela Procuradoria Geral da República como sendo o braço político da quadrilha investigada pelos desvios na Petrobras. E essa batalha deve ocorrer mesmo com a citação ao senador Antonio Anastasia, do PSDB de Minas Gerais.

O PMDB está com um pé em cada canoa, podendo virar oposição

“A oposição deve tirar proveito da situação, mesmo que tenha de sacrificar alguém. Avaliando os lucros e prejuízos, vale a pena aumentar a beligerância contra o Governo federal", diz o cientista político Paulo César Nascimento, professor da Universidade de Brasília.

As bancadas do PSOL e do PPS prometeram fazer representações contra todos os parlamentares que tiverem seus nomes citados.  “Vamos levar às Corregedorias para que haja um julgamento político por uma razão simples, tudo que surgir merecer ser apurado e investigado. Sem exceção”, explica Bueno. Só não estariam nesse grupo os políticos que tiveram pedidos de investigação arquivados, como Rousseff e Neves. “Não tem sentido investigar quem nem o Ministério Público viu irregularidade”, ponderou o deputado.

O PSOL vai além. Defende o afastamento de qualquer membro que estiver nos cargos do Executivo ou da Mesa Diretora da Câmara e do Senado. Entre eles estariam os seus presidentes Eduardo Cunha e Renan Calheiros, que estão na “lista maldita” da Petrobras, que inclui 54 pessoas.

A proposta do PSOL esbarra em dois problemas: sua bancada é minúscula (com quatro deputados) e o PMDB está com um pé em cada canoa, podendo virar oposição. “Há um descontentamento muito grande na base do Governo. Até a propina para o PT era maior do que a para o PMDB. Nem todos remam mais do mesmo lado e alguns devem se aproximar da oposição”, analisou Bueno.

A oposição deve tirar proveito da situação, mesmo que tenha de sacrificar alguém

Paulo César Nascimento, professor da UnB

“Não tivemos problemas em atrair os governistas, eles se sentem traídos, assim como a metade da população que votou na Dilma”, disse Araújo.

Um exemplo da aproximação foram os elogios trocados na quarta e quinta-feira entre os senadores Aécio Neves e José Serra com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) por conta da devolução de uma das medidas provisórias de Rousseff sobre o ajuste fiscal. Algo muito diferente do que ocorreu no mês passado, dias após Calheiros ser escolhido para a presidência do Senado, Neves disse que ele apequenava o poder Legislativo e não tinha legitimidade para estar no cargo porque excluía a oposição das comissões do Senado. Ao que ouviu com resposta do peemedebista que o tucano não tinha a dimensão da democracia. Ontem, inimigos. Hoje, possíveis aliados.

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