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Movimento Passe Livre

“Senti um soco e falei: perdi, perdi”

O depoimento de um militante preso na manifestação desta sexta-feira

Policiais disparam bombas na manifestação de sexta.
Policiais disparam bombas na manifestação de sexta. REUTERS

Bruno Karnov tem 34 anos e trabalha na área de audiovisual. Ele acaba de sair do 78º distrito policial de São Paulo depois de duas horas preso por desacato. Ainda tem uma ferida aberta, causada por uma bala borracha da última sexta-feira, quando o Movimento Passe Livre convocou o primeiro ato contra o aumento da tarifa. Neste segundo protesto ele acabou detido. É a segunda vez que passa pela delegacia: a primeira foi durante a abertura da Copa do Mundo. Eis seu relato:

"Estava pronto para ir embora depois da dispersão no Theatro Municipal. Foi quando vi uma menina gritando dentro de uma Kombi da polícia. Mas ela gritava muito mesmo. Não posso assegurar o que estavam fazendo com ela, mas me pareceu que estavam dando um mata-leão e enforcando a menina.

Meu sangue subiu e em uma atitude muito estúpida dei um tapa na Kombi e depois um chute. Aí senti um soco e falei: "perdi, perdi". Lembro de ter caído no chão e ver apenas botas ao meu redor, mas eles não me agrediram.

Dentro do DP eles jogam no psicológico, e é impressionante porque eles vão de amigões e falam: "amigo, nós concordamos com os protestos de vocês, mas sabe que sempre tem essa meia dúzia..." Mas hoje foi tranquilo em comparação com a primeira vez, na abertura da Copa. Ali tomamos muita porrada, estávamos pelados e nos pediram para ficar de cócoras e sofremos uma humilhação do caralho. Desta ainda me sai bem.

Eu me reivindicava anarquista, mas hoje sou autônomo. Eu acredito em um movimento popular e apartidário. Se acho minha prisão justa? Bom, eu chutei uma Kombi da polícia, não sei se isso é justo. Na verdade estou perdendo a noção de justiça, pois também não acho justo um policial agredir uma menina.

Depois de duas prisões estou cogitando se volto aos protestos. Mas o pessoal do MPL recebeu já um monte de intimação e eles continuam na luta. Eles são uma inspiração e os únicos que conseguem unificar a esquerda. Então acho que estou nessa.

Estou com muita raiva e muito medo. Esses caras [os policiais] vão me deixar louco.

Eu queria ter notícias dessa menina que gritava. Ela era negra, e tinha uns 16 anos. Me avisem por favor se souberem de alguma coisa”.

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