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“Não aumentar a tarifa de ônibus seria demagogia, puro eleitoralismo”

Às vésperas de uma possível onda de protestos causada pelo aumento do transporte, o prefeito Fernando Haddad diz que a iniciativa é necessária para garantir investimentos

Fernando Haddad, na prefeitura.

O prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) passa pela porta que separa seu gabinete de uma antessala de reuniões com os passos e o sorriso de quem não está às vésperas de enfrentar um possível furacão. Ele recebeu o EL PAÍS na última terça-feira, mesmo dia em que passou a vigorar o aumento de ônibus de 3 para 3,5 reais. Sua decisão, tomada em conjunto com o Governador Geraldo Alckmin (PSDB), responsável pela rede de metrô e trem, será julgada nas ruas nesta sexta. Os mesmos estudantes que incendiaram São Paulo em junho de 2013 se reunirão em um primeiro ato contra o reajuste. 

Calmamente, Haddad defende sua decisão com a racionalidade de um administrador, não de um político preocupado com os custos eleitorais. Está convencido de que a medida será benéfica para a cidade. Dois anos depois de ter assumido o cargo, já parece não temer a impopularidade e estar acostumado com o vaivém da opinião pública de "humor volúvel".   

Pergunta. O ano de 2013 foi conturbado. Não teme que ele possa se repetir com o aumento da tarifa?

Resposta. Eu sempre fui da opinião de que em 2013 o problema não era exatamente a tarifa. A repressão ao movimento gerou uma mudança de perspectiva. Tanto é verdade que mesmo depois da redução da tarifa os protestos continuaram basicamente até a Copa.

P. Mas não tem como negar que o aumento da tarifa foi o estopim.

R. Eu não nego, mas não acredito que teria o impacto que teve se a condução fosse de outra natureza.

P. Acha que agora será um protesto setorial, apenas contra o aumento?

R. Não posso afirmar isso. Mas acho que nem o movimento está sabendo valorizar a vitória que teve. A manutenção do valor dos bilhetes temporais (mensal, semanal e diário) e a instituição do passe livre estudantil são vitórias importantes do movimento. A Prefeitura não está simplesmente retomando uma iniciativa [de aumento] de dois anos atrás. A Prefeitura amadureceu formulações na perspectiva de estabelecer um diálogo com aquilo que ela considera legítimo da parte do movimento. Sempre defendemos que era possível avançar na política de gratuidade, mas o passe livre universal dependia de uma fonte de financiamento. De onde eu vou tirar seis bilhões de reais por ano para financiar o transporte público da cidade [para todos] sem prejudicar áreas como saúde, educação e moradia?

O passe livre universal custa seis bilhões de reais.  É como se eu pegasse toda a arrecadação do IPTU e não investisse mais em nada a não ser no transporte

P. O que é possível fazer para evitar que os atos tenham as mesmas proporções? Houve uma conversa com a polícia?

R. A Prefeitura, infelizmente, não é responsável pelas forças de segurança. Tanto a Polícia Civil quanto a Polícia Militar são órgãos do Governo do Estado. Digo infelizmente porque eu acho que o Brasil deveria evoluir na governança desse modelo em que as forças de segurança pública são associadas às forças de repressão de qualquer movimento político.

P. Você teve um momento político muito bom nesse último semestre. Com a questão das ciclovias houve um reflexo no aumento da sua popularidade, entre os jovens especialmente. E agora vem o aumento da tarifa, algo polêmico. Foi uma decisão política correta? Não seria melhor ter aberto o diálogo antes?

R. Eu vejo a política como uma ação de transformação sólida e efetiva na vida das pessoas. Entendo a perspectiva do movimento social, que não tem as responsabilidades que eu tenho. Quem reivindica tarifa zero já pra todos os cidadãos não tem compromisso com outras pautas de reivindicação tão legítimas quanto essa. Certamente eles não estão preocupados com moradia, com a falta de medicamentos e médicos nos postos de saúde, com a qualidade da educação… O prefeito da cidade tem que estar preocupado, inclusive, com a sustentabilidade do projeto que ele representa. E paga por isso.

Houve todo um esforço para sanear as contas da cidade, que quando eu assumi estava insolvente. A situação se agravou com o congelamento da tarifa e a suspensão da atualização da planta genérica de valores do IPTU. Apesar de tudo isso, cortando custos, saneando contratos, auditando contas, nós conseguimos que nos dois primeiros anos de uma nova administração se investisse mais do que nos dois últimos de uma administração de oito anos. Nós aumentamos em 9%, acima da inflação o investimento na cidade. Como eu vou colocar isso a perder, reiniciando um novo ciclo de endividamento que eu acabo de resolver?

P. Então vale o risco político?

R. O que você chama de risco político não é o que eu chamo de risco político. Para mim o risco político é, depois de ter feito todo esse trabalho para colocar a cidade na rota do desenvolvimento, colocar isso a perder por demagogia.

P. Não aumentar a tarifa seria então demagogia?

R. Seria demagogia. Seria puro eleitoralismo. Sabendo que isso não é sustentável porque eu não tenho fonte de financiamento vou adotar essa política demagógica só pelo calendário eleitoral? Ao invés de adotar uma política demagógica, nós tomamos três medidas: diminuímos a idade da gratuidade de idosos para 60 anos, criamos o passe livre estudantil, incorporando o transporte ao direito à educação, e mantivemos as tarifas dos bilhetes temporais para estimular uma nova visão do transporte por parte do empregador.

P. Já conversou com o MPL neste ano?

R. Não teve nenhuma solicitação deles. Em 2013, quando houve a primeira passeata, pequena ainda, nós enviamos uma comissão para perguntar se eles queriam ser recebidos e naquela ocasião disseram que não. Acho que eles têm outra maneira de se organizar, outra tática.

P. Além do preço da tarifa, as pessoas reclamam do serviço.

R. Em relação aos ônibus as queixas caíram 52% porque eu criei 360 quilômetros de faixas exclusivas na cidade. A velocidade aumentou em 46%. As pessoas ganharam quase quatro horas por semana.

P. O próprio secretário de Transportes, Jilmar Tatto, falou recentemente que a qualidade dos serviço é baixa para o que a Prefeitura paga para as empresas de ônibus.

R. Por isso que nós estamos fazendo uma nova licitação.

P. Foi feita uma auditoria no final do ano passado que apontou muitos problemas nesses contratos…

R. Um mais sério: a questão de que eles preferem pagar multa a respeitar as partidas. Nós contratamos a auditoria com o compromisso de incorporar no novo edital todos os ensinamentos dela.

P. Esse novo edital sai quando?

R. Como é um contrato de longo prazo, o edital tem que ser bem feito, então nós recomendamos que o relatório da auditoria, que tem sete volumes, fosse bem lido, bem discutido, para incorporar no novo edital o que se aprendeu com a licitação que se encerrou. Porque aí nós vamos poder oferecer para a cidade uma melhor qualidade do serviço. Mas negar que a qualidade melhorou, é negar uma evidência empírica. Todo mundo sabe que o ônibus na cidade melhorou.

P. Tem alguma coisa que já se pode dizer que mudará?

R. A gente já tem a certeza de que não é razoável pagar por passageiro, porque essa é uma das razões para a qualidade ser baixa. Quando você paga por passageiro, quanto mais passageiro no mesmo ônibus, melhor [para a empresa]. A experiência internacional demonstra que o certo é a fórmula considerar não só o passageiro, mas também o quilômetro rodado.

P. É possível diminuir os custos, como diz a auditoria?

R. A auditoria disse duas coisas importantes: que não é verdade que o lucro do empresário era muito superior àquilo que se imaginava quando a licitação de 2003 foi feita; e que como as condições econômicas do Brasil melhoraram muito é possível reduzir a taxa interna de retorno [lucro] no próximo edital. Se imaginava que essa taxa por projeto era de quase 30% e é de 15%. E se imagina que é possível baixar pra algo entre 9% e 12%.

P. Com uma taxa de retorno menor a tarifa baixa?

R. Não. Diminui o subsídio.

P. Não seria possível então, com base nisso, aumentar um pouco o subsídio e aumentar os beneficiados com o passe livre?

R. Essa administração praticamente triplicou o subsídio.

P. Mas para o passe livre para toda a cidade...

R. O passe livre universal custa seis bilhões de reais. As pessoas não sabem o que é seis bilhões. É como se eu pegasse toda a arrecadação do IPTU e não investisse mais em nada a não ser no transporte. Hoje vai para a saúde e educação, tem assistência…

P. Agora a migração para o Bilhete Único Mensal, que custa 140 reais, vai compensar. O congelamento desse tipo de tarifa é uma estratégia da Prefeitura para fazer com que as pessoas...

R. Mudem a percepção sobre o transporte. Deixem de se ver como meros fornecedores de força de trabalho. Em todo lugar do mundo o bilhete unitário é mais desvantajoso em relação aos bilhetes temporais. Justamente por isso, para permitir que a pessoa mude a sua relação com a cidade. A imensa maioria dos trabalhadores não vai ser afetada em absolutamente nada pelo aumento da tarifa. O aumento só vai fazer com que o empregador ofereça para ele o bilhete mensal e não o unitário. Você induz o empregador a ver o seu funcionário como alguém que tem o direito a se apropriar da cidade.

P. Só 6% do que vocês esperavam aderiu ao bilhete mensal, uma promessa importante de campanha, um ano depois de ele ser implementado. Por que?

R. Em parte porque não era tão vantajoso para o empregador e, em parte, porque o empregador usava o bilhete unitário para descontar faltas no mês seguinte. O que é uma extrema incoerência.

P: Em uma entrevista recente você falou sobre o “deslizamento” das metas do programa de Governo.

R: O que eu falei foi o seguinte: eu disse que o que a cidade precisava não mudou em função dos 2,5 bilhões que eu perdi, entre IPTU e o subsídio da tarifa. Não é porque deixamos de arrecadar os 2,5 bilhões que os investimentos que foram programados em março de 2013 deixaram de ser importantes. Então, ao invés de abrir mão desses investimentos, nós vamos mantê-los, reavaliando o cronograma de entrega.

P: Tem alguma coisa que já é possível saber que não vai ser cumprido?

R: Vai depender da negociação de desembolso [dos investimentos] com o Governo federal, de quando vai entrar em vigor a nova lei que regulamenta a dívida com a União. Mas estamos agindo como se não tivéssemos perdido aquele dinheiro. São investimentos que terão que ser feitos.

P. E se o aumento da tarifa tiver de ser revogado mais uma vez?

R. Eu não acredito que os estudantes, que foram os mais beneficiados pelas medidas tomadas vão agir da mesma maneira, porque nós não agimos da mesma maneira. Seria contraditório que eles próprios não se apropriassem daquilo que efetivamente ajudaram a construir.

P. A falta de cumprimento das metas afeta especialmente a periferia. Agora fizeram uma página no Facebook que o acusa de ser um prefeito gourmet, uma crítica a forma como você tem priorizado, na visão dessas pessoas, uma elite alternativa, central e não a periferia. Como responde a isso? Acha que Governa mais para a classe média?

R. Todos os hospitais estão sendo feitos na periferia, as creches estão sendo feitas na periferia. A periferia olha muito para investimento, então ela só sente os efeitos quando os investimentos começam a ser feitos. Mas o bilhete único mensal é para quem? Para a periferia. Já tem mais ciclovia na periferia do que tem no centro. Quem aumentou em 46% a velocidade do ônibus? Foi essa administração. É preciso lembrar que o IPTU caiu em toda a periferia e agora que eles vão receber o carnê é que vão perceber. Sabe qual o problema? Aqui os humores são muito volúveis, mudam de uma semana para outra às vezes. O que consolida uma gestão são quatro anos de trabalho que se apresentam no momento certo. É fácil criar uma página no Facebook ofendendo alguém. Essas ofensas, esse desrespeito, não é o que vai ficar. Isso eu posso garantir. Eu não conto sequer com respeito dos principais meios de comunicação. E nem estou reclamando disso, porque acho que é do jogo. Mas vai chegar um momento que a administração vai ter a voz. Na campanha eleitoral eu vou poder dizer alguma coisa. Hoje eu não posso. Hoje eu raramente sou convidado para dar uma entrevista, para colocar meu ponto de vista.

P. Então em 2016 vai tentar a reeleição?

R. Ou eu ou alguém do meu partido vai tentar a reeleição. Seja quem for o candidato do PT vai ter que defender o legado do PT.

P. Chegaram a falar em seu nome para substituir a Dilma. O que acha?

R. Acho que não há a menor dúvida de que o candidato é o presidente Lula. É indisputável isso.

P. Por que acha que é tão difícil para o PT ganhar em São Paulo?

R. São Paulo é o Estado que menos teve alternância no poder no Brasil. É um caso único de 24 anos de sucessão. Acho que em parte é porque existe um desinteresse muito grande em cobrir o Estado por parte da imprensa, que não dá atenção para os temas estaduais. Não há um acompanhamento de metas, de resultados. Também há uma falta de cultura federativa sobre a distribuição de responsabilidades. Quando eu pergunto na periferia quem eles pensam que é o responsável pela segurança pública todos respondem que é o prefeito.

P. Mas também não tem uma falha do PT?

R. Tem. Até disso, de explicar para a sociedade [os papeis]. Temos um problema de natureza comunicacional.

A montanha-russa política de Haddad

Talita Bedinelli

O carrinho de montanha-russa em que subiu o prefeito Fernando Haddad (PT) ao iniciar a gestão da maior cidade da América Latina em 2013 corria para o alto depois de sua popularidade ter despencado em junho do mesmo ano devido à série de protestos iniciada pelo aumento da tarifa do transporte público de São Paulo. A violência nos atos, que opôs a agressividade da Polícia Militar à dos black blocs, aumentou a adesão às manifestações, o que levou à revogação do aumento dos 3,20 reais para os originais 3,00. Na época, um recém-empossado Haddad, o azarão petista que havia ganhado a disputa na capital de um Estado avesso ao sindicalismo do PT, ainda estava em lua de mel com os eleitores. Durou seis meses. Após os protestos, onde ele recebeu a alcunha de "Malddad", sua popularidade despencou.

Foi preciso um ano, a ampliação relâmpago da rede de ciclovias da cidade, a aprovação de um importante Plano Diretor e uma série de aparições públicas em que ele grafitava ou tocava guitarra para que a imagem começasse a ser recuperada. Neste período, ele reativou sua conta de Twitter, ganhou de admiradores uma página no Facebook que ressaltava seus atributos físicos (Haddad, prefeito gato) e melhorou a comunicação com os setores mais jovens da cidade. O número de pessoas que consideravam seu governo ruim ou péssimo passou de 47% para 28% entre julho e setembro do ano passado, segundo a última pesquisa Datafolha. Uma recuperação grande especialmente entre a juventude, apesar de sua aprovação (22%) ainda não ter atingido os índices iniciais (31%).

Mas antes mesmo de chegar ao topo, o carrinho do prefeito já ameaça sofrer uma nova queda. O anúncio do aumento do ônibus, feito antes do governador Geraldo Alckmin, já parece tê-lo acertado, apesar das medidas tomadas por ele para amenizar o impacto: dar gratuidade para todos os estudantes de escolas públicas ou particulares que sejam beneficiados por bolsas do Governo; a redução da idade mínima para a gratuidade de idosos e o congelamento do aumento para os que utilizam os passes temporais. Para o Movimento Passe Livre (MPL), que organiza os protestos, a gratuidade deveria ser para todos os usuários. Após o aumento da tarifa, Haddad ganhou uma nova página no Facebook, a "Haddad, prefeito gourmet", que o acusa de governar apenas para os mais ricos, jovens e descolados. A cidade parece entrar nesta possível nova onda de protestos com a opinião dividida, sem saber se o aumento do ônibus refletirá efetivamente numa melhor qualidade dos demais serviços públicos e no cumprimento das metas de campanha. E, ao menos até sexta, ainda não se sabe para qual direção vai o carrinho do prefeito. 

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