São Paulo, onde o carro é mais lento que o lento transporte público

O paulistano gasta quase três horas por dia com deslocamento, mas, pela primeira vez, quem anda de ônibus ou metrô chega mais rápido a seu destino do que em veículo individual

Faixa de ônibus no Corredor Norte/Sul, em São Paulo. Folhapress

De metrô, carro, ônibus, bicicleta ou a pé, o paulistano gasta diariamente uma média de 2h46 para se deslocar pela cidade, segundo uma pesquisa feita pelo instituto Ibope a pedido da Rede Nossa São Paulo e divulgada nesta quinta-feira. Porém, quem anda de ônibus leva vantagem.

Enquanto quem anda exclusivamente de carro gasta diariamente 2h53 no trânsito, quem anda apenas de ônibus leva 2h46 para se deslocar. “É a primeira vez que detectamos essa pequena diferença”, diz Maurício Broinizi Pereira, coordenador-executivo da Rede Nossa São Paulo.

Segundo um levantamento realizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e divulgado na semana passada, os ônibus na cidade de São Paulo estão 68% mais rápidos nas novas faixas exclusivas para transporte público. Desde 2013, a cidade tem cerca de 320 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus. Esse número vem aumentando a cada mês, desde os protestos de junho do ano passado, cujo estopim foi o aumento da tarifa, reajuste que foi suspenso pela Prefeitura  após as pressões nas ruas.

O aumento na velocidade dos ônibus detectado pela CET talvez seja um dos maiores responsáveis pelo convencimento do paulistano sobre a necessidade das faixas exclusivas: segundo a pesquisa do Ibope, nove em cada dez paulistanos são favoráveis à ampliação das faixas exclusivas de ônibus na cidade.

“Os dados confirmam um pouco o que vemos nas ruas”, diz o editor do movimento Mobilize Brasil, Marcos de Sousa. Ruas essas que têm sido cada vez mais disputadas. Na semana passada, circularam nas redes sociais fotos de carros estacionados em cima das novas ciclovias implementadas pela gestão do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. O espaço, destinado à passagem das bicicletas, virou estacionamento.

Ainda que 88% dos paulistanos aprovem a construção e ampliação de ciclovias na cidade, no bairro nobre de Higienópolis quem tem carro ainda é o dono do espaço. Enquanto isso, áreas mais afastadas do centro sofrem com a carência de vias exclusivas para a bicicleta. Segundo uma reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no último domingo, fora das regiões mais nobres da cidade, apenas dois bairros da periferia receberam faixas exclusivas para a bicicleta. Justamente onde mais se usa a bicicleta como meio de transporte.

Na maior cidade por área da América do Sul, a briga é por espaço e Higienópolis, infelizmente, não está só. De 2013 para 2014, subiu de 27% para 38% o número de paulistanos que usam o carro todos os dias, ou quase todos os dias, e de 52% para 62% a quantidade dos que têm carro em casa, um acréscimo que foi registrado em todas as faixas de renda, escolaridade e regiões da cidade. No ano passado, São Paulo registrou uma frota de 5,4 milhões de carros circulando pelos 1.500 quilômetros quadrados da cidade. É quase um carro para cada dois paulistanos.

O paradoxo foi parar nas ruas. Por que o paulistano apoia medidas que incentivam o transporte público se, ao mesmo tempo, não deixa o carro na garagem? “Essas coisas não são automáticas. Acho importante que tenha uma percepção favorável, mas é um processo de transição”, explica Broinizi. E esse processo vai demorar quanto tempo o poder público quiser, já que depende do Governo –municipal, no caso de ônibus e estadual, para o metrô e trens - investir no transporte público para que as pessoas passem a, de fato, a preferir um ônibus a um carro. “O transporte público, de forma geral, é desconfortável. Viajar, mesmo que seja por meia hora, em condições subumanas todos os dias cansa”, diz Sousa.

Mas o paulistano parece estar disposto a contribuir com sua parte. Quase a metade (43%) é favorável à ampliação do rodízio de veículos para dois dias e 71% estão dispostos a usar o transporte público diariamente se houver boas alternativas. A ampliação dos corredores de ônibus (37%) e a ampliação das linhas do metrô (58%) são as medidas mais urgentes para a melhoria da mobilidade urbana.

Parece, porém, que o metrô de São Paulo, uma cidade com 11,3 milhões de habitantes, é inversamente proporcional à demanda da cidade: são apenas 74 quilômetros de extensão, enquanto em cidades como Santiago do Chile (6,3 milhões de habitantes) são 103 quilômetros de extensão, e a Cidade do México (8,8 milhões de habitantes), 202 quilômetros.

Na segunda-feira, 22, é celebrado o Dia Mundial sem Carro. Os movimentos sociais pela mobilidade na cidade convocam o paulistano a deixar o carro na garagem. Se grande parte da população aderir ao movimento, a cidade daria conta de atender a tanta gente?

Um ano após as manifestações, o passe livre continua em pauta

M. R.

Um dos temas centrais que deu início às manifestações de junho do ano passado, o passe livre, continua em pauta na cidade. Uma parcela significativa dos paulistanos, 41%, é favorável à implementação do passe livre para todos os usuários do transporte público em São Paulo.

Apesar dos inúmeros problemas estruturais e sociais da cidade, São Paulo é considerada um lugar bom ou ótimo para se viver por 66% dos entrevistados.

A saúde continua sendo o maior problema para a cidade, de acordo com a pesquisa. Mas o item 'abastecimento de água' passou do 18 lugar em 2013 - a última posição - para a sexta posição neste ano. "A razão é óbvia, há uma crise muito grande no abastecimento de água", diz Maurício Broinizi Pereira.

A pesquisa ouviu 700 pessoas entre os dias 29 de agosto e 03 de setembro.

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