Procura-se cemitério para o ebola

Libéria propõe a criação de um local para enterros aceito por todo o país A rejeição às incinerações provoca cerimônias clandestinas

Retirada de cadáver de um imóvel em Monróvia, capital da Libéria.
Retirada de cadáver de um imóvel em Monróvia, capital da Libéria.Victor Lacken (IFRC)

Cercado pelo mato e por casebres de barro com tetos de zinco, perto de Kaiph Town, na periferia de Monróvia, há um enorme edifício abandonado, pertencente à emissora Liberia Broadcasting Corporation – um dos tantos projetos atropelados pela guerra neste país da África Ocidental. Todos o conhecem como o Edifício Tantandi. Não tem portas nem janelas, e lá restam apenas a gigantesca estrutura de blocos e cimento e uma infinita miséria, em meio à qual algumas crianças brincam de correr. Cerca de 270 pessoas habitam o lugar – sem-teto vindos de diferentes pontos do país, que fizeram desse arranha-céu o seu lar, apesar da ausência de luz, de banheiros... enfim, de tudo. Há apenas um chão onde dormir, e um teto para lhes proteger.

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No segundo andar do edifício, em um cômodo improvisado feito de troncos e papelão, jaz há três dias o corpo sem vida de Harris Sagwivo, de 64 anos. Ebola? Talvez. Nas últimas semanas, dois moradores do imóvel foram internados num hospital e não voltaram mais. O risco é alto.

Garmai Sumo, 28 anos, enfermeira da Cruz Vermelha liberiana especialista em higiene e desinfecção, é a primeira a entrar. Vestida dos pés à cabeça com um traje branco de proteção, aproxima-se do cadáver e introduz uma pequena espátula de madeira em sua boca, para colher uma amostra. Deposita-a em uma bolsa hermética e entra outra vez, agora acompanhada por mais duas pessoas, também usando trajes especiais. Colocam o cadáver em um saco impermeável, espalham desinfetante no cômodo e descem para a rua, onde a família aguarda. A tensão explode.

Há dois meses, o Governo liberiano ordena que todos os cadáveres da capital sejam levados diretamente para um crematório, o que viola frontalmente os costumes da população. Duas filhas de Sagwivo não querem que o corpo de seu pai seja reduzido a cinzas. Resistem, choram. “O nosso pai ninguém leva daqui!”, gritam, muito alteradas.

Há tráfico de falsos atestados de óbito declarando que o morto não tinha o vírus e que, portanto, pode ser enterrado da forma tradicional

Os membros da Cruz Vermelha conseguem convencer os demais irmãos, mas não as duas mulheres. Após algum quiproquó, a equipe consegue depositar o corpo na caçamba de uma caminhonete, onde já há outro cadáver, e deixa o local. Não há ritual fúnebre nem despedida, e a situação é violenta. Em algumas horas, os restos mortais de Sagwivo são incinerados no único crematório da cidade, que foi construído para a população de origem asiática, sobretudo os indianos. E fim de papo.

A cremação é uma prática muito pouco aceita na África Ocidental. Os antropólogos concordam que por aqui se considera que o corpo do falecido deve voltar para a terra, pois, do contrário, essa pessoa estará presente e vai permanecer no mundo dos vivos, aparecendo em sonhos ou provocando doenças, para se vingar dos parentes. Além disso, não se respeita o processo de luto, e não sobra nenhum espaço físico aonde visitar quem partiu, algo muito traumático por romper o equilíbrio entre vivos e mortos. De fato, há famílias que se negam a notificar as mortes e realizam enterros clandestinos, acarretando risco de contágio. Surgiu até mesmo uma rede que trafica falsos atestados de óbito, declarando que o defunto estava livre do ebola e poderia ser enterrado conforme a tradição.

A ampla rejeição às cremações, uma prática que não respeita as recomendações dos antropólogos nem o guia de enterros da Organização Mundial da Saúde (OMS), levou nas últimas semanas o Governo liberiano a reconsiderar sua decisão e a iniciar a busca por um espaço no qual enterrar aos mortos – uma espécie de cemitério do ebola. Entretanto, as autoridades ainda não encontraram um lugar adequado, seguro e que seja aceito pelas comunidades próximas.

Garmai Sumo, assim como seus colegas da Cruz Vermelha, também é uma vítima da situação criada com os enterros, porque sofre um duplo estigma: por parte dos parentes dos mortos e da sua própria comunidade. “Às vezes acontecem essas coisas conosco, as pessoas se opõem a levarmos os corpos. Mas nossos chefes de equipe se encarregam de convencê-las, explicamos que estamos aqui pela segurança delas, que queremos protegê-las”, afirma. Embora Sumo tenha o apoio da sua família, seus amigos não querem mais sair com ela. Estão aterrorizados. “Mas alguém precisa fazer o que eu faço, somos todos liberianos e temos que nos ajudar”, conclui.

A Cruz Vermelha tem 15 equipes em Monróvia, cada uma formada por 10 pessoas. “Deveriam ser considerados heróis em vez de estigmatizá-los”, diz a supervisora Roselyn Ballah.

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