Coluna
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Rescaldo do incêndio

Querer dividir o país entre nordestinos e sulistas é um obscurantismo e uma falácia

Falsa divisão

Que trata-se de um discurso obscurantista querer dividir o país entre nordestinos, que votaram em Dilma Rousseff para a Presidência da República, e sulistas, que votaram em Aécio Neves, não há qualquer dúvida. Mas, mais que isso, trata-se de uma falácia, pois os que assim agem ignoram os números. A candidata petista obteve 20.176.579 votos no Nordeste e 26.627.802 no Sul-Sudeste – uma significativa diferença de 6.451.223 votos.

Falsa aprovação

Assim como é inverídico o discurso da situação de que, com sua vitória, Dilma teve seu governo aprovado pela maioria dos brasileiros. A petista conseguiu 54.501.118 votos de um eleitorado total de 142.822.046 pessoas, ou seja, apenas 38,16% dos brasileiros a reelegeram. Além dos 51.041.155 votos dados a Aécio Neves (35,74% do total), outros 30.137.479 brasileiros se abstiveram (21,1%), 5.219.787 anularam o voto (3,65%) e 1.921.819 votaram em branco (1,35%)...

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Menos mulheres

Embora a participação das mulheres na disputa por cargos nas eleições de 2014 tenha crescido 46% em relação a 2010, os resultados das urnas foram decepcionantes. Em 2010, 52 mulheres foram eleitas deputadas federais – este ano, apenas 46 conseguiram votos suficientes. Em 2010, duas mulheres se elegeram governadoras – este ano, somente uma, a de Roraima. E no Senado, a próxima legislatura deverá contar com uma bancada de 13 mulheres e 68 homens.

Mais conservadorismo

Segundo informações do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a bancada evangélica ampliou sua participação política e deverá contar com pelo menos 70 parlamentares alinhados na defesa de valores tradicionais da sociedade – ou seja, questões como união civil de casais homossexuais e aborto, entre outras, deverão continuar afastadas da pauta do Congresso Nacional.

E entre os evangélicos, alguns estão entre os campeões de votos do país, como Marco Feliciano, ligado à Assembléia de Deus (quase 400 mil votos, o terceiro colocado em São Paulo), Christiane Yared, da Catedral do Reino de Deus (200 mil votos, a melhor colocada no Paraná), Eduardo Cunha, da igreja Sara Nossa Terra (232 mil votos, o terceiro melhor colocado no Rio de Janeiro) e Pastor Eurico, da Assembléia de Deus (233 mil votos, entre os mais votados de Pernambuco).

À bala

Também há a bancada da bala, aquela que defende a redução da maioridade penal, entre outras reivindicações. Três deputados federais eleitos, ligados à polícia, são campeões de votos em seus estados. O delegado Eder Mauro, do Pará, foi denunciado na Justiça por crime de tortura. O Delegado Waldir, de Goiás, é réu numa ação civil pública por improbidade administrativa. Alberto Fraga, de Brasília, já foi condenado por porte ilegal de arma, é réu em ação de improbidade, em ação penal por peculato, e acusado de homicídio quando em atividade policial. Afora o conhecido deputado reeleito Jair Bolsonaro, campeão de votos no Rio de Janeiro, que responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal por crime ambiental.

Bancada dos processados

Mas eles não estão sós. Segundo levantamento do jornal O Globo, 40% dos deputados federais campeões de voto e dos senadores eleitos são investigados pela Justiça a partir de acusações da polícia e do Ministério Público, com suspeitas que vão de desvios de recursos e improbidade administrativa a crime de tortura e desrespeito à Lei Seca.

Gambiarra

Mas tudo pode ser pior... O senador Rodrigo Rollemberg foi eleito governador do Distrito Federal, abrindo espaço para a posse de seu suplente, Hélio José da Silva Lima, conhecido como Hélio Gambiarra. Ex-sindicalista, Gambiarra candidatou-se à Assembleia Distrital (equivalente à Assembleia Legislativa), obtendo apenas seis votos. Acusado pelo próprio Rodrigo Rollemberg de ter abusado sexualmente de uma sobrinha, Gambiarra será senador da República pelos próximos quatro anos...

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