A corrupção agita mais uma vez a campanha eleitoral brasileira

O ex-diretor de abastecimento da Petrobras afirmou que existia na empresa um sistema de subornos institucionalizado e que o PT embolsava entre 1% e 3% de todos os contratos

 O ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.
O ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa. (EFE)

A apenas duas semanas para o segundo turno das eleições presidenciais e os dois candidatos, a atual presidenta Dilma Rousseff, do PT, e o senador Aécio Neves, do PSDB, aparecem empatados nas pesquisas de intenção de voto, uma onda de suspeitas e acusações de corrupção generalizada sacudiu ainda mais a campanha eleitoral, já tão agitada por si mesma.

O ex-diretor de abastecimento da maior empresa pública brasileira, a Petrobras, Paulo Roberto Costa, depôs nesta semana diante do juiz e afirmou que existia na empresa um sistema de subornos institucionalizado e que o PT embolsava entre 1% e 3% de todos os contratos que foram feitos entre 2004 a 2012. O mesmo afirma o doleiro Alberto Youssef, especialista em lavar dinheiro e parceiro dos negócios escusos de Costa. “Pelo que me lembro, não havia empresa que tivesse deixado de pagar naquela época”, garante.

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Tanto Costa como Youssef se veem obrigados a delatar para salvar a própria pele e não passar o que lhes resta da vida na cadeia: estão presos, acusados, entre outras coisas, de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. Ao mesmo, foi descoberta uma conta de Costa na Suíça com mais de 23 milhões de dólares (cerca de 55,7 milhões de reais) e a polícia tem provas da relação de Yousseff com vários negócios de Costa e de que recebeu dinheiro de empresas relacionadas com a empresa petrolífera. Os dois chegaram a um acordo com o juiz: se depõem e fornecem informações sobre o sistema de corrupção que atravessava, segundo suas afirmações, todo o esquema da Petrobras, suas penas de prisão serão menores do que os previsíveis 40 anos que receberiam.

A primeira bomba foi revelada há várias semanas pela revista Veja, na qual afirmava que Costa já acusara mais de uma dezena de políticos brasileiros, inclusive deputados, senadores e ex-ministros, de terem se apropriado de parte do dinheiro da empresa. Agora a delação vai um passo adiante. Yousseff explica que tanto ele como Costa se encontravam com, entre outras pessoas, o tesoureiro do PT, para entregar-lhe a parte que reclamava o partido. “A gente se reunia em hotéis do Rio de Janeiro e de São Paulo, ou na própria casa do, por assim dizer, agente político. Tratávamos das questões das empresas que iam participar das licitações”, conta Yousseff. Ou seja: as empresas pagavam “um pedágio” em troca de receber um contrato milionário. As cifras dão enjôo. Por exemplo, na construção da refinaria da Petrobras em Pernambuco, segundo o depoimento de Yousseff, foram pagos cerca de 68 milhões de reais em subornos. A imprensa brasileira calcula que por esse sistema foram desviados, no total, mais de 10 bilhões de reais.

Yosseff vai mais longe e garante que um grupo de deputados pressionou em 2004 o então presidente Lula para que colocasse Costa na direção de abastecimento após bloquear iniciativas parlamentares. “Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco; teve de ceder  e colocou Paulo Roberto Costa no cargo”. Em uma reunião com sindicalistas em São Paulo, o próprio Lula negou esses fatos na quinta-feira: “Estou de saco cheio de denúncias em vésperas de eleição”.  “É sempre a mesma coisa: chegam as eleições, aparecem as denúncias e ninguém precisa provar nada”.

O deputado do PT Arlindo Chinaglia especificou que nos três meses que antecederam a nomeação de Costa, em 2004, o congresso brasileiro, longe de estar parado, apresentou e aprovou um número considerável de emendas. Dessa maneira tratou de desmontar o argumento de Yousseff (e de passagem, semear a dúvida em toda a delação).

De qualquer modo, as acusações de corrupção que envolvem o PT, que está no poder há doze anos, marcam e marcarão a campanha eleitoral, o duelo entre Dilma e Aécio, que acaba no domingo, dia 26 de outubro. Rousseff acusa a candidatura de Neves de estimular essas delações e de utilizá-las como munição eleitoral envenenada. “É estranho e estarrecedor que, no meio da campanha eleitoral, façam esse tipo de divulgação”, disse ontem, fazendo eco às declarações de Lula. Aécio Neves, por sua vez, replicou: “Eu acho estarrecedor o vazamento desses depoimentos. Assaltaram a maior empresa brasileira e não há sequer uma indignação da presidente. Ela está indignada com o vazamento. ”.

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