O ‘Tropa de Elite’ dos documentários

‘À queima roupa’, de Theresa Jessouroun, compete no Festival do Rio e traz ao debate a impunidade da violência policial no Rio de Janeiro e no Brasil

Cena do documentário 'À queima roupa' (divulgação).
Cena do documentário 'À queima roupa' (divulgação).

Nas telas do Festival do Rio (24 de setembro a 8 de outubro), não faltam blockbusters e filmes de culto nacionais e internacionais, mas o que não deveria passar batido aos olhares do público são os títulos brasileiros que tratam da violência que caracteriza a atuação da polícia nacional. São fatos da vida, como o recente caso de um camelô assassinado por um policial em São Paulo com um tiro no rosto e o desaparecimento do pedreiro Amarildo na Rocinha 2013 depois de ser torturado por policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), e que às vezes chegam à Sétima Arte.

Há quem pense que o cinema deveria se abster de mostrar na tela grande a violência que assola as ruas de um país e se dedicar estritamente ao entretenimento. Assim acontece na Colômbia, por exemplo, onde a guerra entre guerrilhas, paramilitares e o Estado está ativa a mais de 60 anos, e os colombianos se dizem cansados de histórias violentas. No Brasil, onde a palavra ‘guerra' não circula com a mesma facilidade, ainda que reflita muito bem o cenário violento em que vive a grande maioria das comunidades carentes, é igual: imperam no cinema as comédias, enquanto a realidade costuma ficar fora da sala.

Se depender de documentaristas como Theresa Jessouroun (Alma de mulher e Samba), que trabalhou seis anos de sua carreira com o mestre Eduardo Coutinho, a dicotomia de fantasia consoladora versus triste cotidiano não vencerá sempre. Ela acaba de lançar no festival carioca seu último trabalho, À queima roupa, um filme sobre crimes cometidos pela polícia da cidade nos últimos 20 anos – e que está sendo chamado pelos corredores do evento de “o Tropa de Elite dos documentários’.

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A comparação com os filmes de José Padilha – cuja sequência representa, até hoje, o filme mais visto da história do cinema brasileiro (11,2 milhões de espectadores, que se somam aos 2,4 milhões do primeiro) – se dá pelo retrato que é feito, em ambos casos, dos níveis de armamento, tortura e corrupção nas favelas cariocas, onde traficantes e a polícia parecem se enfrentar diariamente, mas que na verdade cobram vidas de pessoas comuns e se retroalimentam numa guerra sem fim. Em ambos casos, inclusive, o espectador não é poupado de imagens e depoimentos pesados.

À queima roupa começa com o relato da chacina de Vigário Geral, ocorrida em 1993 na zona norte do Rio. Segundo a diretora, é um dos episódios mais conhecidos da violência da polícia carioca e aquele que revelou à imprensa – e às pessoas em geral – a corrupção policial. Mas o filme não para por aí, segundo Jessouroun, porque "fatos tão graves quanto continuam acontecendo até hoje”. "A segurança pública brasileira é um tema difícil, mas urgente, e o melhor lugar para estrear este filme nesse momento é aqui no Festival do Rio, que nos dá a oportunidade de mostrá-lo para muitas pessoas”, disse a diretora no início da exibição que abriu a competição de documentários do festival.

O desaparecimento de Amarildo é comentado no filme, mas é em outro documentário, O estopim, que ele é tratado em primeiro plano. Segundo o cineasta Rodrigo Marc Niven, no contexto da violência policial no Rio de Janeiro, “o caso Amarildo foi singular”, porque extrapolou as fronteiras da Rocinha e fez os moradores da comunidade fecharem ruas da zona sul da cidade.

No longa, que também está na mostra competitiva de documentários e que será exibido pela primeira vez na segunda-feira 29 de setembro, as cenas do que podem ter sido suas sessões tortura foram recriadas. Duda, um morador da favela que conhecia Amarildo, é quem conduz a narrativa. Ele já tinha feito denúncias da truculência policial antes da morte do pedreiro. Mas foi preciso fazer um filme para que sua voz fosse registrada.

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