Zuluaga suaviza sua posição sobre o processo de paz colombiano

O candidato uribista aceita agora o diálogo com as FARC com “condições e prazos que garantam avanços tangíveis”

Zuluaga e Marta Lucía Ramírez na assinatura do 'Compromisso pela Colômbia'.
Zuluaga e Marta Lucía Ramírez na assinatura do 'Compromisso pela Colômbia'.Fernando Vergara (AP)

O uribista Óscar Iván Zuluaga venceu o primeiro turno das presidenciais com uma mensagem linha-dura contra a guerrilha. Disse que se chegasse ao poder suspenderia imediatamente o diálogo de paz em Havana e daria uma semana às FARC para que interrompessem “toda a ação criminosa”. Agora ele flexibilizou essa posição para conquistar o apoio da candidata conservadora, Marta Lucía Ramírez, e parte dos dois milhões de votos que ela obteve no primeiro turno. No pacto que firmaram na quarta-feira à noite em Bogotá, decidiram “que serão mantidas as conversações com as FARC em Havana, sem acordos feitos às escondidas do país, com condições e prazos que garantam avanços tangíveis, definitivos, verificáveis com acompanhamento internacional”, diz o documento.

Os aliados qurem examinar os três pontos já pactuados em Havana –desenvolvimento agrário, participação política e narcotráfico–, avaliá-los e explicar suas conclusões à opinião pública. O acerto firmado por Zuluaga e Ramírez, chamado de Compromisso com a Colômbia, inclui numerosas condições para o diálogo: o fim do recrutamento de menores e da colocação de minas antipessoa – e a entrega de mapas para começar a removê-las –, acabar com os atentados, os crimes de guerra e os ataques contra a infraestrutura. Tudo isso pediriam no primeiro mês e definiriam que a negociação tenha uma duração determinada.

O uribismo, que desde o princípio esteve contra o que chamam “uma paz com impunidade”, agora incorporou a visão de Marta Lucía Ramírez. A grande diferença está nos tempos: enquanto Zuluaga havia falado em conceder oito dias à guerrilha para que aceitasse suas condições, agora ambos propõem um mês e não interrompem o processo no ato. No documento criticam que “de maneira inaceitável hoje se queira dividir o país em torno da questão da busca da paz”.

O presidente Juan Manuel Santos, que vinculou sua trajetória política e a reeleição ao processo de paz, acusou Zuluaga de ser cínico. “Esta é uma situação totalmente conjuntural e eleitoreira. A extrema direita não quer que esse processo continue. Isso eu recebo com certa surpresa porque não acreditava que fossem tão cínicos”, disse à rádio La W nesta quinta-feira. “Aqueles que durante quatro anos atacaram o processo, acusando-me de legitimar o terrorismo e de sentar-me com delinquentes, agora começam a mudar sua posição. E então logo acontece de serem amigos da paz e da continuidade da negociação, embora imponham condições que são impossíveis de cumprir”, afirmou. Na quarta-feira, o presidente conseguiu que um setor dos conservadores de Ramírez –49 congressistas– o apoiassem na sua reeleição, por isso o partido irá dividido às urnas, precisamente pelas divergências que Santos e Zuluaga têm sobre o processo de paz.

Os membros da Aliança Verde, de centro-esquerda, se reuniram também na quarta-feira com seu candidato, Enrique Peñalosa, que obteve um milhão de votos, e anunciaram que deixarão em liberdade seus seguidores para o segundo turno. “Decidimos não expressar apoio público a nenhum dos candidatos em disputa. Convidamos cada um de nossos eleitores a votar pela alternativa que melhor interprete os princípios e propostas programáticas”, diz um comunicado. Alguns dos senadores dessa coalizão anunciaram que votarão pela reeleição. “Votaremos em Santos porque para nós é aterradora a paz de Óscar Iván Zuluaga” afirmou o senador John Sudarsky.

A expectativa está agora no esquerdista Polo Democrático e sua líder, Clara López, que conseguiu dois milhões de votos. Não se descarta a possibilidade de que termine apoiando Santos pelo apoio que lhe deram ao processo de paz, mas López deixou claro, por ora, que isso não significa sua adesão à campanha pela reeleição. No entanto, um de seus congressistas mais conhecidos, Iván Cepeda, já se pronunciou a favor do presidente, “Não quero um país paramilitarizado, quero um país democrático”, disse. Zuluaga e Santos vão chegar em empate técnico no segundo turno das presidenciais de 15 de junho, segundo uma pesquisa publicada nesta quinta-feira pela Cifras y Conceptos. O presidente candidato obteria 38% dos votos e Zuluaga, 37%, o que indica que a polarização do primeiro turno vai continuar.