O comércio marítimo forja um elo bilionário entre o Panamá e a China

Embora não mantenham relações diplomáticas, o vínculo comercial entre os dois países se consolidou nos últimos anos

Um navio no canal de Panamá.
Um navio no canal de Panamá. (EFE)

O Panamá não mantém relações diplomáticas com a China e continua sendo um parceiro estratégico para os chineses nacionalistas de Taiwan na América Latina e Caribe, como uma tradicional plataforma política e econômica regional para rebater o isolamento internacional de Taipé. Mas os negócios anuais entre os chineses continentais e os panamenhos são multibilionários e estão ancorados na poderosa Zona Livre de Colón (ZLC), o segundo maior porto livre de reexportação de mercadorias do mundo, e no Canal do Panamá, que movimenta mais de 50% do comércio na principal rota entre centros de produção e consumo: da Ásia à Costa Leste dos Estados Unidos.

“A China é o mais importante fornecedor de mercadorias da Zona Livre”, disse o chinês Wang Jian, representante-adjunto do Escritório de Desenvolvimento Comercial China-Panamá, em entrevista telefônica ao EL PAÍS.

As exportações da China para a ZLC já superaram os 11 bilhões de dólares por ano, segundo Wang. A cifra demonstra a predominância chinesa nas importações totais da Zona Livre, que em 2012 foram superiores a 14,5 bilhões de dólares, segundo cifras da ZLC, que não especificou o montante de 2013. A Zona fatura mais de 30 bilhões de dólares por ano.

Wang disse que 99% do intercâmbio comercial entre a China e o Panamá é composto por vendas da China para o mercado do Panamá. “Os panamenhos não exportam quase nada para o mercado chinês. Suas exportações mal chegam a 40 milhões de dólares por ano.”

Um elemento vital da participação chinesa em negócios no Panamá e a partir dele é a operação do Bank of China, que desde 1994 é um dos 91 bancos – principalmente da América, Europa e Ásia – que funcionam no Centro Bancário Internacional do Panamá, instalado em 1970.

Cifras da Superintendência de Bancos do Panamá mostram que os ativos líquidos do Bank of China no Centro aumentaram de 536,7 milhões de dólares em 2012 para 651 milhões de dólares em 2013, uma variação positiva em torno de 114,3 milhões de dólares.

Carga chinesa

No intenso movimento de negócios, a China se consolidou nos últimos anos como o segundo principal cliente mundial do Canal, só superado pelos Estados Unidos, com 137,6 milhões de toneladas de fluxo de carga de e para portos norte-americanos em 2013. A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) informou ao EL PAÍS que mais de 46,4 milhões de toneladas tiveram a China como origem ou destino no ano anterior, em navios de bandeira chinesa ou de outras nações.

As embarcações chinesas que cruzaram o Canal nesse período transportaram uma tonelagem bruta superior a 3,7 milhões de toneladas, com uma média superior a 34.000 toneladas por navio, segundo a contagem oficial.

Um dos dados cruciais da presença chinesa no Panamá é o fluxo de carga da China pelo Canal para a Costa Leste dos Estados Unidos, que somou 10,9 milhões de toneladas em 2013. O montante é o mais importante da rota entre a Ásia e o leste dos EUA pela hidrovia panamenha, que chegou a 24,1 milhões de toneladas no ano anterior, tendo entre os demais clientes a Coreia do Sul (6,3 milhões de toneladas), Japão (3,9 milhões) e Taiwan (1,2 milhão).

Os envios da China para a costa leste da América Central, via Canal, somaram 1,2 milhão de toneladas no mesmo período, mesma cifra das remessas para o litoral leste da América do Sul, vindo em seguida as Antilhas, com mais de 800.000 toneladas, e o Canadá, com pouco mais de 58.000. Na América do Sul, os principais destinos dos produtos chineses transportados através do Canal foram a Venezuela, com 768.000 toneladas, a Colômbia com 422.000, e o Brasil, com 41.000.

A China usa o Canal para grande parte dos seus negócios com a Europa e o Oriente Médio. O relatório da ACP revelou – sem detalhar os destinos – que no ano passado foram enviadas 14,4 milhões de toneladas de portos chineses para o Oriente Médio através do Canal, ao passo que o total despachado para a Europa por essa via interoceânica mal chegou a 182.000 toneladas, com a Itália como principal destino (73.000), seguida por Reino Unido (46.000), Espanha e Portugal (9.000), e mais de 46.000 no resto dos países europeus.

No sentido do Atlântico para o Pacífico, o total somou 30,5 milhões de toneladas que atravessaram o Canal em 2013 com mercadorias para a China, em especial da Costa Leste dos Estados Unidos – um total 25,8 milhões de toneladas. A Venezuela despachou 1,3 milhão de toneladas para a China através do Canal do Panamá.

“Saia se puder”

Atraídos essencialmente pela construção, a partir de 1850, de uma ferrovia que atravessava o istmo centro-americano – uma das primeiras ofertas panamenhas daquela que é hoje uma economia de serviços –, os chineses se assentaram no Panamá desde meados do século XIX, de modo que não são recém-chegados.

A antiga imagem do beco de Salsipuedes (“saia se puder”) remete a um velho estilo de fazer negócios no coração da capital panamenha, há mais de 150 anos. Dominado por empresários chineses imigrantes, essa estreita rua cresceu economicamente ao amparo e em paralelo à construção da ferrovia e da primeira tentativa fracassada de abrir uma via interoceânica – em 1880. Assim, tornou-se uma mistura comercial de espanhóis, americanos, turcos, hindus, afro-descendentes, italianos, judeus e árabes.

Quando em 1903 finalmente o Canal começou a ser construído pelos Estados Unidos, para ser finalizado em 1914 – seu centenário será comemorado em agosto próximo –, os chineses já estavam no istmo panamenho. Não obstante, foi escassa a contribuição da sua mão-de-obra para a abertura do canal no começo do século XX, segundo os registros históricos.

No cenário político, o elo tradicional panamenho foi com os chineses nacionalistas, expulsos da China continental em 1949. Os panamenhos estabeleceram relações diplomáticas com a República da China (hoje instalada em Taiwan) em 1911, e ambos os países assinaram em 2003 um tratado de livre comércio. Atualmente, o intercâmbio anual já supera os 250 milhões de dólares por ano, com superávit para os taiwaneses e com transações concentradas em grande parte na ZLC. Os dois países têm, desde outubro de 2013, uma tarifa zero em seus intercâmbios comerciais.

Por isso, a penetração do gigante chinês continental no mercado panamenho avança com uma peculiaridade: o Panamá é o país que há mais tempo mantém intactos seus vínculos políticos e diplomáticos com Taipé, o que não parece incomodar Pequim.

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