Pandemia de coronavírus

“Um apocalipse suave”: os escritores e artistas que adivinharam a pandemia

Literatura, cinema e arte estiveram à frente de algumas das preocupações suscitadas pela crise do coronavírus. Estes são os criadores que chegaram mais perto da realidade

Marion Cotillard em 'Contágio' (2011), de Steven Soderbergh.
Marion Cotillard em 'Contágio' (2011), de Steven Soderbergh.WARNER

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A arte imita a vida, ou é o contrário? A literatura, o cinema e a arte não anunciaram a crise do coronavírus, mas anteciparam algumas das preocupações que prevalecem neste clima de emergência mundial, refletindo sobre as consequências do modelo econômico, antecipando-se ao alerta sobre o meio ambiente ou traduzindo em suas obras o opressivo sentimento de ansiedade que tomou conta deste longo confinamento. Em alguns casos, escritores, artistas e cineastas imaginaram ficções improváveis ​​que se tornaram realidades plausíveis. Esta é uma lista (não exaustiva) das obras que chegaram mais perto da realidade.

Michel Houellebecq: a hecatombe tranquila. O escritor francês situou alguns de seus romances em paisagens pós-apocalípticas, como Plataforma (2001) ou A possibilidade de uma ilha (2005), além de fantasiar sobre o fim da civilização ocidental em O mapa e o território (2010) ou o polêmico Submissão (2015). “Não é algo que eu deseje, mas acho interessante fazer essa abordagem. Compartilho algumas das preocupações da ficção científica”, disse em entrevista realizada em 2016. Seu trabalho como artista, exibido nesse mesmo ano no Palais de Tokyo, em Paris, descreve impressões semelhantes às de seus livros, inspiradas em suas estadias na costa de Almería, onde tem uma casa. Houellebecq fala de espaços desertos onde, em outro tempo, o turismo de massa deveria ser praticado. O que o escritor insinuava, então, era que nos dirigíamos inevitavelmente para uma hecatombe? "É uma possibilidade. Quando visito um lugar novo, me pergunto se conseguirá sobreviver ao desaparecimento da humanidade. Por exemplo, se acontecesse uma epidemia viral, provocaria um apocalipse suave. Os prédios continuariam onde estão, porque não seria como em uma guerra atômica, mas iria sendo produzida uma erosão”, disse ele na época. Reler essas frases hoje causa um calafrio inevitável.

Lars von Trier: melancolia e adivinhação. O diretor dinamarquês poderia figurar nesta lista com Melancolia (2011) e o apocalipse wagneriano que surgia do nada e, em questão de minutos, passava de um ponto desfocado em um horizonte distante a uma sentença de morte para toda a humanidade. Melancolia vinculava a depressão ao fim do mundo e refletia os diferentes graus de ansiedade que se apoderam do indivíduo quando a morte se torna algo tangível. "Diante desta ameaça, o melancólico está sereno, porque o que vai acontecer nada mais faz do que confirmar seu ponto de vista. Quem se preocupa é quem não é melancólico”, dizia Von Trier, nove anos atrás, durante uma entrevista nos estudos Zentropa. Segundo o cineasta, para adivinhar o futuro basta prestar atenção às criações artísticas: “O artista e o melancólico são muito parecidos. Os filtros que suas mentes usam para canalizar estímulos externos não funcionam de todo. O artista é um personagem um pouco doente, no sentido de que seu cérebro está um pouco danificado. Mas, ao mesmo tempo, isso lhe permite ver um pouco mais que os outros. Faz sentido que, na antiguidade, recorressem ao melancólico para perguntar: o que você vê?”. O filme ―e o episódio de autodestruição que Von Trier protagonizou durante sua estreia em Cannes― lembra que o pior apocalipse é sempre o que ocorre em nossas cabeças.

Steven Soderbergh: o vírus como doença mundial. Contágio (2011), que nos dias de hoje se tornou um grande sucesso das plataformas de streaming, tratava de um vírus fictício chamado MV-1, transmitido de morcegos para porcos e, destes, para os humanos. Além do mais, vinha também da China: uma empresária incubava a doença em Hong Kong e a transmitia, sem saber, para os Estados Unidos, onde o contágio se espalhava para milhares de pessoas, forçando-as a mudar seu modo de vida, provocando tumultos e hipóteses de conspiração. Qualquer semelhança com a realidade ... Soderbergh descrevia esse vírus como uma doença global, resultado da hipermobilidade e da interdependência impostas pelo modelo econômico, das quais o diretor mostrava o reverso mais nocivo. Insinuava também que o vírus funcionava como um acontecimento nivelador ou igualador: os cidadãos anônimos sofriam, mas também estrelas de Hollywood, que apareciam em profusão no elenco. Uma de suas protagonistas, Gwyneth Paltrow, foi uma das primeiras a usar máscara nos primeiros dias desta crise. “Eu já fiz parte desse filme”, ​​disse ela em sua conta no Instagram, numa referência a esse filme de catástrofe naturalista, inspirado na pandemia do H1N1 e com roteiro que contou com a assessoria de especialistas da OMS. Seu apocalipse hoje parece plenamente reconhecível.

M. Night Shyamalan: a resposta imune do planeta. Fim dos tempos (2008) foi um tropeço do diretor de O sexto sentido, o que acabou enfraquecendo sua posição em Hollywood por muitos anos. Mas, apesar de suas enormes deficiências, o projeto refletia preocupações que agora parecem plenamente atuais. "É possível que o ecossistema da Terra seja um ser vivo gigantesco? O coronavírus é uma resposta imune do planeta à insolência do ser humano, que destrói infinitos seres vivos por ganância?”, se interrogava há alguns dias o filósofo Markus Gabriel. Shyamalan se fez a mesma pergunta anos atrás, só que no formato de blockbuster. No filme, a natureza se rebelava contra o homem e se vingava de seus contínuos maus-tratos. O planeta provocava uma onda massiva de suicídios, infectando os terráqueos com uma toxina transportada pelo vento e pelas árvores. O filme, cujo título do roteiro era The green effect, foi ridicularizado após sua estreia, assim como o cientista que, em uma das sequências finais, alerta que a propagação dessa estranha doença é semelhante às marés vermelhas que algumas microalgas produzem: um ponto roxo insignificante que, pouco a pouco, acaba destruindo todo um habitat natural.

Mary Shelley: sobrevivência e diferença de classe. O último homem (1826), assinado pela autora de Frankenstein, é o primeiro romance sobre um apocalipse desencadeado por uma peste. Embora tenha sido concebida em 1818 como a biografia do último homem na Terra ―um nobre empobrecido que funciona como alter ego da autora― a história se passa no final do século XXI (especificamente, começa em 2073), quando algo então concebido como uma peste ―ainda não se sabia da existência dos vírus― começa a dizimar o planeta. O enredo joga com a ideia de perplexidade e a impossibilidade de contenção ―as previsões mais otimistas acabam não se cumprindo―, além de refletir os diferentes tratamentos que os infectados recebem de acordo com a classe social à qual pertencem. Ou seja, enquanto a nobreza, origem da narradora, se protege porque tem os recursos para isso, o povo vai caindo sem remédio. Os críticos zombaram dela, e a obra só voltou a ser publicada em 1965, mas Shelley estava à frente de seu tempo.

Stephen King: contágio e irresponsabilidade social. Seu romance A dança da morte (1978) também antecipou o que vivemos agora. Quase uma coreografia, poderosamente povoada e com a melhor força de sua carreira, sobre a dissolução de um mundo em que o ser humano se tornou um enorme micróbio negligenciado, este clássico de King estava certo em tudo ao descrever como a Super Gripe, na realidade, chamada “Capitão Viajante”, iria transformar a Terra em um cadavérico mundo de Oz, com ênfase especial em nossa irresponsabilidade social. King escreve estas linhas: “Naquela noite, eles se alojaram em um motel em Eustice, Oklahoma. Ed e Trish infectaram o zelador. As crianças, Marsha, Stanley e Hector, transmitiram o mal às crianças com quem brincavam no pátio do motel... E essas crianças seguiram viagem até o oeste do Texas, depois para o Alabama, Arkansas e Tennessee. Trish infectou duas mulheres que lavavam a roupa na lavanderia automática situada a duas quadras de distância. Enquanto caminhava pelo corredor do motel para pegar um pouco de gelo, Ed infectou um cara com quem cruzou no saguão. Todos fizeram sua parte nesta obra". Este livro totêmico, mas esperançoso, no qual a vida acaba abrindo caminho, é uma Bíblia pop da pandemia, um tratado viciante que fala do fim de toda inocência possível após o fim do mundo.

Dean R. Koontz: a arma biológica que chegou de Wuhan. É arrepiante mergulhar em The eyes of darkness (1981), um dos romances aparentemente intercambiáveis ​​do então principal concorrente de Stephen King e ler coisas assim: “Um cientista chinês chamado Li Chen desertou para os Estados Unidos e trouxe consigo um arquivo da mais importante e perigosa nova arma biológica chinesa da última década. Eles o chamam de Wuhan-400 porque o desenvolveram em seus laboratórios de pesquisa de DNA nos arredores de Wuhan e, além disso, se tratava da cepa viável, a de número 400. ” Ou esta: “Wuhan-400 é uma arma perfeita. Afeta somente os seres humanos. Nenhum outro ser vivo pode transportá-lo. E, como a sífilis, o Wuhan-400 não pode sobreviver fora de um corpo humano vivo por mais de um minuto, o que significa que não pode contaminar permanentemente objetos ou lugares inteiros". Não fosse um detalhe, seria a história perfeita para quem acredita em conspirações. Segundo o South China Morning Post, o nome do vírus foi alterado no relançamento do livro em 1989, no final da Guerra Fria, o que mudou o vilão da história. A primeira edição da obra, escrita sob o pseudônimo de Koontz, Leigh Nichols, chamava o vírus de Gorki-400 ― uma arma biológica criada pelos russos na cidade de Gorki, um centro industrial da União Soviética, hoje chamado Níjni Novgorod. Mesmo assim, o livro tem sido usado para alimentar diversas teorias conspiratórias que circulam pelas redes: "Se eu entendi corretamente, os chineses poderiam usar o Wuhan-400 para destruir uma cidade, um país e, portanto, não deveriam levar adiante uma descontaminação dispendiosa e demorada antes de avançar e assumir o território conquistado”. Não bastasse isso, The eyes of darkness está ambientado no final de 2019 e início de 2020, o que faz dele o livro que o planeta Terra, ansioso para se livrar de nós, poderia estar lendo.

Emilio Bueso: silêncio sepulcral na cidade. O profético no caso de Cenital (2012), o segundo romance do escritor de Castellón (Valência), uma autoridade na Espanha no gênero apocalíptico, de terror e fantástico, não é tanto o futuro que nos espera, que talvez também seja ―os protagonistas vivem em uma ecovila, o mundo hiperecologicamente abusivo está desmoronando e o petróleo já é história―, mas ter entendido que o futuro passa por deixar o planeta em paz. “A mão invisível roubou sua carteira e o futuro, e não vai parar quando alguns governantes renunciarem. Isto não se corrige com alguns anos de ajuste nem injetando capital ou com a nacionalização de bancos. Isso não vai acabar nos aeroportos sem aviões, trens de alta velocidade sem passageiros, apartamentos sem gente e gente sem apartamentos. Isto só vai acabar quando um silêncio sepulcral dominar todas as grandes cidades, quando o apagão se tornar permanente e as bicicletas deslizarem pelas estradas pedagiadas”, escreve Bueso. Para os curiosos, atualmente pode ser baixado de graça aqui.

Elmgreen & Dragset: o museu como hospital. Quem achou que os leitos arrumados no hospital de campanha que nos dias de hoje ocupa os pavilhões do Ifema, onde se realizou a Feira de Arte Contemporânea, mantêm certa semelhança com uma instalação artística não estava de todo enganado. Esta dupla de artistas, presente nas bienais de meio mundo, se antecipou ao clima atual em 2003 com Please, Keep Quiet!, que transformou os espaços de exposição da Galeria Nacional da Dinamarca em um quarto de hospital que hoje faz parte da coleção permanente do museu. Por meio de camas, mesinhas, equipamentos de saúde e bonecos de cera, os artistas recriaram um cenário fictício que punha em xeque as expectativas sobre determinados espaços através de justaposições inesperadas: um solene museu do século XIX em pleno centro de Copenhague também poderia abrigar um hospital. Uma ficção que hoje em dia está se tornando realidade.

Jordi Colomer: a casa transformada em inferno. Certo estava o artista de Barcelona ao mostrar a ansiedade do confinamento e a distopia de habitar um lugar que acaba se tornando inabitável. É disso que falava Simo (1997), seu primeiro vídeo e um de seus trabalhos mais característicos. Nessa obra de 12 minutos, pertencente à coleção do Museu Reina Sofia, uma câmera se desloca em um travelling para dentro e para fora de uma pequena sala onde aparece um único personagem, Simo, afogada em um local fechado e cheio de objetos que parecem transformar esse habitat em um espaço opressivo. Rodeada de objetos, a protagonista age de modo convulsivo, carregando sacolas, abrindo caixas de sapatos e comendo potes de geleia. Nesta história hermética, a comunicação com o exterior é nula. Colomer soube ilustrar a transformação de um lugar supostamente aconchegante como o lar em um pequeno inferno.

Christian Boltanski: os cadáveres sem funeral. O artista francês, filho de um judeu que passou 20 meses escondido em um quartinho de despejo durante a ocupação nazista, sabe bem o que é confinamento. Em razão de sua ascendência, sua obra costuma falar sobre mortes invisíveis e os corpos que desaparecem sem que ninguém se despedisse deles. Suas obras são altares dedicados a esses desconhecidos que partiram sem ter direito a um funeral. Na série Suisses Morts, iniciada em 1990, dezenas de caixas de biscoitos serviam como modestos sarcófagos de metal para esses homens e mulheres. Nesta obra, emblemática de sua profunda reflexão sobre história e a memória, Boltanski colou uma foto de cada morto em cada uma dessas urnas retangulares, prestando homenagem a suas vidas modestas e lhes restituindo a dignidade. As imagens de parentes das vítimas em Wuhan indo recolher as cinzas anônimas dos mortos depois da reabertura das casas funerárias lembram fortemente esta obra. Em 2018, Boltanski insistiu no mesmo tema em uma instalação na Oude Kerk em Amsterdã, a igreja mais antiga da cidade, onde estão enterradas 20.000 pessoas, apesar de ser conhecida a identidade de apenas 8.000. Boltanski colocou no chão roupas velhas dos habitantes do bairro, fazendo com que aqueles caixões invisíveis ocupassem o espaço que merecem.

Okwui Enwezor: o otimismo histérico. O falecido curador nigeriano, considerado um guru no mundo da arte contemporânea, foi perspicaz ao pôr seu foco de estudo no que parece dominar nossas vidas hoje: a inquietação. Ele orquestrou O desconforto na Bienal de Sevilha em 2006, onde evocou um estado geral de alerta e refletiu sobre o isolamento e a solidão como paradigmas da vida futura. Não estava enganado, como também não se equivocou quando serviu como curador da Bienal de Veneza de 2015. Na grande exposição internacional, que intitulou Todos os futuros do mundo, voltou a explorar tópicos sobre a civilização e o confronto, a etimologia do medo e a sensação de desenraizamento do mundo global, em galerias cheias de navalhas e néons, carrosséis e caveiras, ruínas coloridas e um otimismo um tanto histérico e apenas medianamente credível. Questionado sobre o assunto, Enwezor já vaticinava então o que mais nos assusta hoje: “A pior crise é a incerteza”.

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