Terceira dose agrava a desigualdade mundial no acesso às vacinas contra o coronavírus

OMS lembra que as evidências sobre as doses de reforço “não são conclusivas” e pede aos países ricos que esperem que os pobres imunizem seus cidadãos antes de universalizá-las. Brasil já anunciou 3ª dose

Trabalhadores de Antananarivo (Madagascar) desembarcam uma remessa de vacinas recebidas por meio do programa Covax.
Trabalhadores de Antananarivo (Madagascar) desembarcam uma remessa de vacinas recebidas por meio do programa Covax.MAMYRAEL (AFP)

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A humanidade enfrentou poucos desafios globais nas últimas décadas como a pandemia do coronavírus. A resposta à crise 20 meses e 4,5 milhões de mortes depois, porém, não mostra um mundo mais coeso e solidário, mas orientado por interesses nacionais e em que as desigualdades entre os países se consolidam. Aconteceu na primeira onda, quando as fronteiras foram fechadas para não compartilhar produtos básicos. Aconteceu novamente com as primeiras vacinas, monopolizadas pelos países ricos. E agora, com o debate sobre a necessidade da terceira dose em aberto, os de maior renda se preparam para usar várias centenas de milhões de vacinas que a Organização Mundial da Saúde (OMS) pede que sejam destinadas a países que ainda não puderam proteger seus grupos mais vulneráveis. Menos de 2% da população dos países pobres está protegida, segundo este órgão.

“Faltou uma visão global para enfrentar a pandemia”, lamenta Africa González, professora do Centro de Pesquisas Biomédicas (Cinbio) da Universidade de Vigo. “Se o fizéssemos, o centro do debate agora seria como aumentar a cobertura de vacinação em todo o mundo e não se dar a terceira dose apenas em alguns países. O risco é que surjam variantes que inutilizem todas as vacinas atuais “, acrescenta o especialista. Quique Bassat, epidemiologista e pesquisador do ICREA do instituto ISGlobal, defende posição semelhante: “Estamos repetindo erros. Israel e os Estados Unidos [que anunciaram a terceira punção para toda a população adulta] seguirão seu caminho, mas a chave será se todos os países os seguirão ou se limitarão aos grupos para os quais foi acreditado ser necessário " .

Entre os grandes países europeus, a França e a Alemanha anunciaram que vão aplicar uma punção de armadura a partir de setembro à população mais vulnerável - no primeiro caso com critérios bastante frouxos - e àqueles com mais de 65 anos. A Espanha, por enquanto, aguarda a tomada de posição da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). Nesta semana, o Ministério da Saúde brasileiro anunciou que vai aplicar, também a partir de setembro, a dose de reforço em pessoas maiores de 70 anos e em pacientes imunossuprimidos. Na quinta-feira, a Pfizer, vacina prevista para contemplar esse reforço no Brasil, anunciou parceria com a Eurofarma para produzir sua vacina em território brasileiro, com vistas ao fornecimento de imunizantes para a América Latina.

A OMS, por outro lado, pede aos países ricos uma moratória que adie a terceira injeção. “As evidências sobre os benefícios das doses de reforço são inconclusivas. Também enfrentamos um problema moral quando há uma grande parte da população mundial não vacinada. Os países ricos não podem usar essas doses para que outros possam se desfazer delas. Estamos todos no mesmo barco e tratar apenas uma parte da população não ajudará a sair da pandemia “, defendeu esta quarta-feira o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

A ciência e a indústria farmacêutica, com enorme apoio público —até 10 bilhões de euros, de acordo com Médicos Sem Fronteiras (MSF)— alcançaram um sucesso sem precedentes, desenvolvendo uma dúzia de vacinas em um ano e meio. Além disso, e apesar dos problemas iniciais, a capacidade de produção global cresceu. Em um planeta com 7,8 bilhões de pessoas, entre 10 bilhões e 14 bilhões de injeções foram necessárias neste ano. As previsões da indústria são de que em dezembro superem 12 bilhões.

Conquistas que, no entanto, ainda não garantem que a vacina chegue a tempo a todos os que necessitam. De acordo com Our World in Data, a cobertura mostra grandes diferenças entre os países. Enquanto vários dos mais ricos, incluindo a Espanha, atingem 70% da população com o padrão completo, muitos dos mais pobres permanecem abaixo de 1%. A média mundial resultante dessas grandes disparidades é de um em cada quatro habitantes protegidos do globo.

O sistema Covax, capitaneado pela OMS e que visa a garantir vacinas para pelo menos 20% da população dos países participantes do programa, foi a chave para que os países ricos garantissem suas doses o mais rápido possível —afinal, são eles que adiantam o dinheiro e onde estão as grandes empresas farmacêuticas— e para que a vacina chegasse depois ao resto do planeta. Mas a iniciativa não está funcionando no ritmo esperado e agora, quando era possível ver um aumento nos frascos disponíveis, a terceira dose ameaça reduzi-los. A Covax já deveria ter recebido 640 milhões de vacinas (2 bilhões no ano todo), mas apenas 160 milhões chegaram.

Irene Bernal, chefe de acesso a medicamentos da organização independente Salud por Derecho, afirma: “A Covax não recebeu os fundos de que precisava e não foi considerada um ator prioritário na aquisição de vacinas. Os governos o relegaram e preferiram acumular doses. O problema básico é que é um programa que depende da vontade política dos países ricos e das empresas farmacêuticas “, explica.

Revenda de vacinas

O resultado é um planeta transformado em um verdadeiro bazar de vacinas. Em alguns casos, as doses são revendidas. Isso é o que a Polônia fez com a Austrália, com um milhão de doses da Pfizer. Em outros, são doadas. É o que estão fazendo Estados Unidos, Canadá e União Europeia, que adquiriram várias vezes a quantidade de que precisavam. A Espanha se comprometeu a enviar por meio da Covax mais de seis milhões de doses para países latino-americanos.

Essa situação, em que os países menos desenvolvidos são relegados na hora do acesso às vacinas, tem alimentado o debate sobre as patentes. A Organização Mundial do Comércio (OMC) vai retomar em seu conselho geral em outubro a iniciativa da Índia e da África do Sul, com o apoio de mais de 100 países (incluindo os Estados Unidos), para liberar licenças. O objetivo não é apenas aumentar a produção, mas fazê-la nos países menos desenvolvidos para que sejam autossuficientes.

Irene Bernal acredita que “a terceira dose pode causar um novo gargalo na produção de vacinas que precisa ser combatido em várias frentes”. “As patentes são apenas um primeiro passo que deve vir acompanhado da transferência de conhecimento pelas empresas. Se elas não quiserem dar esse passo, atrasaremos o acesso e perderemos milhares de vidas que hoje têm chance”, argumenta.

As diferenças na cobertura vacinal entre os países, entretanto, não são tão somente por uma questão de renda. Uma nova variável entrou em jogo nos últimos meses e ameaça se tornar mais um calcanhar de Aquiles na luta contra a pandemia: parcela importante da população se recusa a receber a vacina. É um problema, admitem os especialistas, tão difícil de enfrentar quanto as desigualdades e obedece a uma complexa mescla —diferente em cada país— de desconfiança em relação aos Governos, ignorância e tendências difíceis de catalogar.

Nos Estados Unidos, o primeiro país, ao lado do Reino Unido, a iniciar a vacinação em massa, o ritmo da campanha perdeu força há meses e apenas 51% da população está totalmente imunizada. A Rússia, que desenvolveu a vacina Sputnik V, chega a apenas 24%. E a Bulgária, membro da UE que tem o mesmo acesso às vacinas que a Espanha, está perto de 20%.

Estratégia personalizada

Enquanto isso, o debate sobre a necessidade da terceira dose ainda está aberto. Especialistas como África González consideram que não é necessária de modo geral. “Não há nenhuma evidência que a embase para todos aqueles com mais de 65 anos nem todos os imunossuprimidos. Seria mais apropriada uma estratégia personalizada com estudos de imunidade. Os resultados revelariam que muitas pessoas não precisam dela e que outras, que não desenvolveram anticorpos com duas doses, não o farão com três porque seu problema tem outras causas. Gastaríamos muitas vacinas sem necessidade”, pondera.

José Luis Alfonso, chefe da medicina preventiva do Hospital Geral de Valência, defende a posição oposta: “A prática clínica nos mostra que a resposta imunológica de muitos pacientes não é suficiente após duas doses e que a presença de anticorpos diminui com a passagem do tempo. Além disso, depois dos 70 anos, costuma ter início a imunossenescência, processo que enfraquece as defesas. Numa situação de disponibilidade de vacinas, considero que a relação custo-benefício é favorável”.

Alfonso é partidário de administrar a terceira dose, como anunciada por França, Alemanha e Brasil, a todos os maiores de 65 anos, no caso dos dois primeiro, e de 70 no último, além dos imunossuprimidos, grupo que em seus diferentes graus de risco abarca cerca de 40% da população espanhola, para se ter uma ideia. Já Quique Bassat defende um critério mais restritivo: “Certamente, a terceira dose só seria necessária em pacientes de maior risco [cerca de 8% da população]. Definir quais pacientes são candidatos é justamente a questão central agora”, conclui.

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