Pandemia de coronavírus

A Itália perde o medo do coronavírus

Sul do país europeu baixa a guarda por causa do menor impacto na sua população. A volta do turismo pode alterar a situação

Torcedores do Napoli comemoram um título do seu time em 18 de junho.
Torcedores do Napoli comemoram um título do seu time em 18 de junho.CIRO FUSCO / EFE

A praça Garibaldi, em Nápoles, começou a recuperar a agitação de sempre. Os bandidos procuram suas vítimas, os congestionamentos voltaram à avenida Umberto I e as bancas do bairro de Forcella despacham frutas e hortaliças como se tudo o que aconteceu nos últimos quatro meses tivesse sido só um grande pesadelo. O turismo ainda não voltou a uma das cidades mais exploradas na última década pelas companhias aéreas de baixo custo. Mas Nápoles, como tantas cidades do sul da Itália, deixou para trás a toda pressa o medo da covid-19. Talvez até rápido demais, alertam os especialistas. O uso da máscara caiu vertiginosamente, e as medidas de distanciamento começam a parecer um velho protocolo. A última pesquisa da empresa SWG conclui que os cidadãos “muito preocupados com o vírus” passaram de 57% para 18%.

A situação na Itália, quatro meses depois do primeiro contágio na Lombardia (norte), continua sob controle. Os números melhoram progressivamente. Na segunda-feira foram registradas 23 mortes, uma a menos que na véspera, a menor cifra desde 2 de março. As mortes acumuladas chegaram a 34.657 e se contabilizaram 221 contágios, para um total de 238.720. Mas há indicadores, como as multas por organizar festas, o retorno aos comércios (as compras online caíram de 49% em 11 de maio para 34% em 12 de junho) e a queda na venda de máscaras (pela metade com relação aos piores dias da pandemia, afirma a entidade setorial das farmácias) que alertam as autoridades sanitárias.

A fotografia de Nápoles, onde há uma semana 5.000 pessoas se juntaram para comemorar a conquista da Copa da Itália pela equipe local, mostra um relaxamento evidente. No bar de Ciro Buonerba, na esquina da estação central, ninguém está de máscara. “O que você quer que eu lhe diga? Aqui tivemos poucos contágios. Nosso perigo de morte agora é a queda do turismo, não o vírus”, observa o garçom que atende o balcão lotado. O mesmo acontece em muitos hotéis e comércios. O bom comportamento do sul durante a pandemia contribuiu para esse clima relax.

As cifras de contágios e mortes falam de dois países dentro da Itália. No norte, a mortalidade dobrou durante a pandemia, com picos selvagens que superaram 560% em lugares como Bérgamo, epicentro da tormenta. Nas regiões meridionais, por outro lado, a mortalidade não subiu excessivamente e, em alguns lugares, como Roma em março, inclusive foi mais baixa que em 2019. As estatísticas aqui falam de uma ferida que cicatriza depressa. Também de uma memória curta.

Relaxamento excessivo

Walter Ricciardi, assessor do Governo durante a pandemia e ex-presidente do Instituto de Saúde italiano, acredita haver um “relaxamento excessivo”. “É evidente que a atenção às medidas de comportamento caiu. E, sim, certamente haverá alguns surtos, não daquela maneira tão virulenta porque estamos preparados para intervir. O problema é fazer as pessoas entenderem que o risco é geral. O vírus circula em todo o mundo e provoca danos muito graves. É um problema global, nenhuma parte do mundo está imune. Em lugares onde seu impacto foi zero, pode explodir agora.”

Nas últimas semanas, as atenções se voltaram para lugares onde foram registrados focos. Na terça-feira três bairros foram contaminados na localidade de Palmi (Calábria) quando se detectou um número excessivamente alto de contágios concentrados em um reduzido núcleo vicinal. Em Roma também foram localizados dois focos importantes há apenas duas semanas. “A covid-19 ainda circula entre nós, não se deve baixar o nível de atenção, as reuniões e festas destes dias são uma bofetada nos médicos e familiares das mais de 34.000 vítimas”, comentou o ministro de Assuntos Regionais, Francesco Boccia.

A abertura das fronteiras desde 3 de junho também pode alterar o equilíbrio norte-sul, temem as autoridades. Grande parte do escasso turismo internacional que a Itália receberá no verão optará por visitar zonas meridionais que até agora se mantiveram relativamente isoladas. E 93% dos movimentos serão domésticos, segundo a entidade setorial, deslocamentos que ocorrerão principalmente do norte para o sul, em busca das praias. “Nos lombardos é que deveriam passar por controles”, opina Gianni Zaccaria, em uma banca de legumes de Forcella. Estas são as famosas duas Itálias.

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