Pandemia de coronavírus

O ar livre como profilaxia contra o coronavírus

A maioria dos focos de contágio ocorre em lugares fechados. Em São Paulo o comércio irá abrir e parques continuarão fechados

Três pessoas com máscaras conversam sentadas num banco, em Madri, na quarta-feira passada.
Três pessoas com máscaras conversam sentadas num banco, em Madri, na quarta-feira passada.VICTOR SAINZ / EL PAÍS

A palavra resfriado é enganosa. Evoca o frio, mas o que causa infecções são os vírus (ou bactérias), não os graus marcados no termômetro. A temperatura pode ajudar, mas não é decisiva para a propagação de doenças respiratórias; não pelo menos de forma direta. A chave é que, no inverno, nos fechamos mais. Os cômodos pouco ventilados são o caldo de cultivo perfeito para que gripes e catarros se concentrem e propaguem. Isso também vale para a covid-19, que tem no ar livre um de seus principais inimigos, como mostra o que vai se descobrindo sobre o coronavírus SARS-CoV-2.

Muitos epidemiologistas falam de um recrudescimento da epidemia no outono. O fato é que pode acontecer em qualquer momento, mas no verão parece menos provável, assim como é mais difícil pegar uma gripe nessa época. Muito já se especulou sobre como o calor poderia afetar a transmissão do vírus, sem conclusões determinantes, embora os países tropicais demonstrem que não é um fator decisivo. Se muitos especialistas esperam um verão sem sobressaltos, isso é porque as pessoas tendem a ficar mais tempo em ambientes abertos.

“O velho ditado de abrir as janelas para que corra o ar é o melhor para [lutar contra] o vírus”, diz Antoni Trilla, epidemiologista e assessor do comitê científico do Governo espanhol. Em lugares fechados, prossegue, é mais provável que se concentrem partículas em suspensão e que elas sejam inaladas. “Se mantivermos distâncias ao ar livre, a possibilidade de contágio é muito, muito baixa”, salienta.

Tudo é questão de probabilidades. Por menos que se saia à rua, o risco zero não existe. É possível cruzar com uma pessoa com a má sorte de que esteja infectada, inalar uma gotícula com vírus e se contagiar. Mas a possibilidade de que isto aconteça é remota. O risco de transmissão cresce quanto mais tempo se estiver em contato com um doente, e quanto mais próximo for este contato, já que a quantidade de vírus inalada influi na probabilidade de contágio.

Os estudos já feitos sobre locais de contágio indicam que a grande maioria se dá em lugares fechados. Gwen Knight, do Centro de Modelos Matemáticos para Doenças Infecciosas, reuniu diversos estudos científicos (além de outro tipo de publicações). Como informa o divulgador Luis Jiménez, dos 188 focos analisados apenas 7 (ou 3,7%) tinham origem numa atividade realizada exclusivamente ao ar livre. “Do ponto de vista do número de infecções confirmadas, os casos externos se relacionam com 150, enquanto os casos ocorridos internamente se relacionam com mais de 9.000”, aponta Jiménez após analisar os dados.

Ildefonso Hernández, professor e porta-voz da Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária, afirma que em todos os estudos publicados apontam que grande parte dos surtos explodiu em lugares fechados: moradias, empresas, restaurantes, lojas, templos religiosos, hospitais, hotéis, funerais, conferências. “Também podem ocorrer em locais abertos, mas o risco é muito menor”, diz.

Ainda que as possibilidades diminuam, “não são nulas”, diz María del Mar Tomás, microbiologista da Sociedade Espanhola de Doenças Infecciosas e Microbiologia Clínica. “Também não deveríamos relaxar ao ar livre. A epidemia está bem mais controlada, mas é preciso ter cuidado com a sensação de que passou”, alerta.

Possibilidade de novo surto

Um bom exemplo disso é o que aconteceu em Lleida, em que uma festa de aniversário com 20 pessoas causou um surto que pode atrasar o avanço do território à chamada nova normalidade. Se tudo corresse bem, a próxima fase da flexibilização viria na próxima segunda-feira, algo que agora parece improvável.

A recomendação de Tomás é não descuidar das distâncias de segurança também em espaços abertos, mas acha que é melhor realizar as reuniões com familiares e amigos ao ar livre e não em lugares fechados e, se for possível, com um número reduzido de pessoas. “A casa nos dá uma sensação de segurança que pode ser traiçoeira. Se fazemos uma festa em um domicílio, podemos relaxar, largar as medidas de prevenção e pode ocorrer uma surpresa”, frisa.

Trilla pede para que se aproveitem as vantagens de um país “em que há muita vida no exterior”. Porque virá o outono e voltaremos a nos trancar. “O frio seco certamente não ajuda, mas o principal risco é que estaremos em espaços fechados, com pouca ventilação, onde a possibilidade de contágio é muito maior”, afirma.

Somente 43 de quase 10.000 infectados em ambientes exteriores

Na recompilação feita por Gwen Knight sobre os focos de contágio, só há realmente dois que respondem com segurança a espaços abertos, como afirma o divulgador Luis Jiménez: “Um se refere ao mercado de Wuhan, o da possível origem do vírus (com 41 infecções), e o outro é o de dois amigos corredores, em que agiram circunstâncias extras que aumentaram o risco: proximidade durante tempo extenso, acompanhada de conversa e/ou respiração intensa”. No total, 43 casos com certa certeza de contágio em ambientes exteriores entre quase 10.000 confirmados.

Na maior investigação sobre focos de contágio, feita na China, foram rastreados mais de 7.000 casos de infecções, procurando os focos de origem. “A grande maioria ocorreu dentro de casa e no transporte. Foi detectado somente um caso de contágio em ambientes exteriores, com duas pessoas envolvidas, que se encontraram na rua e conversaram durante certo tempo”, diz Jiménez.

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