Pandemia de coronavírus

“Observamos uma redução de anticorpos em alguns curados de coronavírus”

Clemens Wendtner, médico-chefe do hospital Schwabing, em Munique, atendeu os primeiros pacientes alemães infectados com o vírus

Clemens Wendtner, médico-chefe do hospital Schwabing, em Munique.
Clemens Wendtner, médico-chefe do hospital Schwabing, em Munique.

Clemens Wendtner (Innsbruck, Áustria, 1966) foi o primeiro médico na Alemanha a tratar pacientes com covid-19, no fim de janeiro, quando o foco em uma empresa bávara contagiou 16 pessoas. Todos se curaram e continuam tendo anticorpos, mas Wendtner teme que a imunidade tenha se enfraquecido desde então. Considera que a vacina demorará a chegar e que, enquanto isso, será preciso testar medicamentos capazes de combater a enfermidade. O hospital onde ele trabalha, o Schwabing, fica em Munique, capital da Baviera, o Land (Estado) alemão com mais contágios pelo novo coronavírus.

Pergunta. Você tratou os primeiros contagiados na Alemanha em janeiro. O que aprenderam acompanhando esses casos?

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Resposta. Em nossa clínica tratamos nove pacientes do primeiro foco na empresa Webasto, perto de Munique. Todos estão vivos e bem de saúde, e nenhum sofreu uma deterioração severa. Todos os exames PCR deram negativo. Os exames de anticorpos até agora [desde o final de janeiro] são reativos. Mas observamos em alguns desses casos uma queda nos anticorpos neutralizadores, e isso é uma informação importante e preocupante. Passaram-se três meses desde que esses pacientes chegaram e já vemos um potencial defeito na imunidade.

P. Ou seja: são imunes, mas menos, e não sabemos quanto.

R. Exato. Afinal, só saberemos se tinham uma imunidade forte ou não se voltarem a se contagiar com a covid-19. Há um risco potencial de que alguns desses pacientes possam se reinfectar? Não sabemos. Mas se tiverem menos anticorpos neutralizadores, têm menos proteção. Isto nos indica também que é difícil desenvolver uma vacina para a covid-19. Não digo que seja impossível, mas é difícil. Pode ser, por exemplo, que quando houver uma vacina seja preciso administrá-las aos pacientes em várias doses para reforçá-la. É preciso esperar, mas, enquanto isso, não podemos ficar sentados. Temos que desenvolver medicamentos, não só o remdesivir.

P. Seu hospital participa do estudo global com o remdesivir, financiado pela Gilead. Quais resultados estão obtendo?

R. Participamos de muitos ensaios com vários medicamentos, e o do remdesivir é apenas um deles. Somos parte do ensaio Simple, que termina em 29 de maio, e conheceremos os resultados no começo de junho.

P. Que reações ao medicamento observou em seus pacientes?

R. Nossa experiência nos diz que há pacientes que se beneficiaram do tratamento. Reduziu-se o tempo de hospitalização, outros puderam sair da UTI, ou tiveram redução de febre. Metade dos pacientes que acompanhei pessoalmente neste ensaio de remdesivir experimentou melhoras objetivas.

“Há um risco potencial de que alguns desses pacientes possam se reinfectar? Não sabemos. Mas se tiverem menos anticorpos neutralizadores, têm menos proteção”

P. O que aprendeu nas autópsias sobre o modus operandi do vírus?

R. Vemos muitas inflamações nas autópsias nos pulmões e microembolias. Vemos também inflamações no fígado e nos gânglios linfáticos. Coincide com o que se observou em outros lugares.

P. Os primeiros contágios na Alemanha, na empresa bávara, foram analisados muito detalhadamente. O que se aprendeu a respeito da transmissão deste vírus?

R. Que se transmite com muita facilidade, que apenas alguns minutos são suficientes para a transmissão, e fica claro que as pessoas assintomáticas podem transmitir a doença. Vimos isso no caso da cantina, quando bastou que alguém pedisse o saleiro. Provavelmente teve mais a ver com o fato de estarem sentados de costas um para o outro no mesmo ambiente. Mas é a transmissão por aerossóis, pela fala, esse é o problema com a covid-19.

P. Na Alemanha há uma redução continuada, mas os especialistas insistem no risco de uma recaída. Acredita que a propagação se desacelerará no verão [europeu, do final de junho a setembro], mas voltará no outono?

R. Acredito que no verão continuará se reduzindo, mas que haverá focos, como por exemplo vemos agora na indústria da carne. O vírus terá menos risco de infectar no verão porque a propagação dos raios ultravioleta torna mais difícil a sobrevivência do vírus, especialmente em superfícies, mas o risco não será zero. No outono, com o frio e a umidade, é mais fácil, e essa é uma das razões pelas quais temos o problema na indústria da carne. Não são apenas as condições onde vivem os trabalhadores dessas fábricas, é também porque nessas indústrias faz frio e há umidade, e o vírus se transmite com facilidade nesses ambientes.

P. Não cabe esperar então que o vírus seja extinto?

R. Enquanto não tivermos uma vacina ― e tenho dúvidas de que a teremos neste ano; na melhor das hipóteses no ano que vem ―, não há proteção. E tão pouca gente se infectou na Alemanha que quase não há imunidade, por isso existe o risco de uma segunda onda, e é perigoso. Na Alemanha mantemos uma vigilância muito rigorosa. Quando há mais de 50 casos por cada 100.000 habitantes por semana, nosso sistema de alarme dispara e é preciso implantar restrições novamente.

“Em circunstâncias normais, é um processo que levaria anos. Ninguém pode garantir que teremos uma vacina contra a covid-19”

P. Você diz não acreditar que a vacina ficará pronta este ano. Por quê?

R. Porque não é tão fácil criar uma vacina poderosa. Está sendo testada em humanos, mas é preciso ver se estas pessoas desenvolvem anticorpos e se esses anticorpos permanecerem estáveis ao longo dos meses. Em circunstâncias normais, é um processo que levaria anos. Ninguém pode garantir que teremos uma vacina contra a covid-19.

P. A esta altura há certo consenso sobre a necessidade de fazer muitos testes, mas também de ter uma estratégia clara além da quantidade. Como as autoridades deveriam agir a partir de agora?

R. Os exames continuarão sendo muito importantes nas próximas semanas e meses. É preciso continuar fazendo exames PCR nos grupos de risco. Em nosso hospital, em departamentos como oncologia, geriatria, UTI e pediatria, todos os médicos e enfermeiros são submetidos a exames a cada duas semanas. O mesmo deveria ocorrer nos asilos de idosos, onde estão as pessoas mais vulneráveis. Depois há os exames de anticorpos, mas estes falam do passado, por isso são preferíveis os PCR, porque dizem o que acontece agora e quem é um perigo e deve ser isolado. É preciso fazer exames com frequência, também em pessoas assintomáticas para identificar os contagiantes.

P. A Alemanha é considerada um exemplo de boa gestão nesta crise. O que fez direito?

R. Os cientistas e médicos alertaram, e os políticos levaram a sério. Trata-se de aceitar o risco desta doença, e isso nem sempre foi assim em outros países. De alguma forma, o método foi tipicamente alemão, muitos testes e muita precisão.

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