ANIMAIS SELVAGENS

A difícil relação entre uma cidade mexicana e os crocodilos selvagens

Sul do Estado de Tamaulipas, no litoral do Golfo do México, é a área em que se concentra o maior número de ataques desses animais a humanos

Elementos do grupo S.O.S Cocodrilo de Tampico capturam um crocodilo, em maio deste ano.
Elementos do grupo S.O.S Cocodrilo de Tampico capturam um crocodilo, em maio deste ano.RR. SS.

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Conrado, pescador ilegal de 73 anos, ainda se lembra do som que quase o fez derrubar sua rede de susto. “Foi aí, ele o comeu nessa esquina”, diz enquanto aponta com o dedo indicador uma ponte a cinco metros de distância. O homem, vestido com uma camisa turquesa e uma calça com as barras nos joelhos, se refere a um animal com quem convive em sua atividade ilegal: um crocodilo do pântano. Há alguns dias, escutou como o réptil devorou o cachorro de um garoto. O menino, que não tinha mais do que 10 anos, tentou correr para salvar seu animal de estimação, mas seu pai o impediu. Conrado e seus colegas viram coisas piores.

O septuagenário, como muitos outros moradores da área metropolitana de Tampico (no Estado de Tamaulipas, que tem 780.000 habitantes com Ciudad Madero e Altamira), soube do que aconteceu a alguns metros de onde se encontra. Nas margens da lagoa do Carpintero, um corpo d’água de 150 hectares — mais de 200 campos de futebol —, uma mulher indigente foi atacada por um crocodilo de 3 metros enquanto lavava sua roupa. Quando as equipes de resgate chegaram, já estava morta. As pessoas se amontoaram para gravar com os celulares. Os vídeos se tornaram virais. Foi a segunda morte por ataques desde outubro.

O ocorrido se deu justamente em uma área em que não há uma cerca de segurança. Outro pescador ilegal, que prefere não dar seu nome e que carrega dois baldes cheios de moluscos, a conhecia porque muitas vezes se cruzaram quando ele voltava do trabalho: “Vendia coisas na rua. Não é a única pessoa que vinha aqui”, diz.

Na lagoa vivem entre 80 e 90 sáurios, de acordo com o último estudo oficial da Prefeitura de Tampico, realizado neste ano. Mas não são os únicos na região. Se as três cidades forem observadas no mapa, tão unidas que em muitas ruas dificilmente se distingue entre uma e outra, é possível notar algo evidente: há água por todos os lados. Os crocodilos habitam em todo o sistema lacustre da região, que chega a 42.000 hectares. Isso sem contar os quilômetros de praia. O fenômeno chamou a atenção até mesmo do australiano Steve Irwin, o famoso caçador de crocodilos, falecido em 2006, que gravou um programa na cidade em 2004.

Segundo os registros históricos, esses animais vivem na região desde o começo do século XIX. A expansão da região — impulsionada pelo auge petrolífero de Ciudad Madero — acabou por destruir pouco a pouco os habitats dos crocodilos. A lagoa do Carpintero, no coração de Tampico, perdeu 50% de seu tamanho e os mangues que adornam o ecossistema foram muito reduzidos. Susana Castañeda, uma moradora de 23 anos, faz uma pergunta enquanto caminha pelo canal que liga a lagoa ao rio Pánuco: “Pensando bem, somos nós que invadimos sua casa. É normal que a defendam. É sua natureza”.

Os avistamentos, um problema recente

As interações entre crocodilos e moradores são coisa de todos os dias. Dificilmente se encontra um habitante que não tenha visto e conheça alguém que teve um encontro de perto. Não há verão chuvoso sem que as fotografias dos animais andando livremente pelas ruas circulem pelas redes. Graciela Sánchez, de 51 anos, vive em frente à lagoa e está cansada de vê-los andar na avenida diante de sua casa: “Imagine só, eu tenho que prender muito bem meus cachorros”, diz. Mas acrescenta: “Isso é recente. Moro aqui há 31 anos e isso não acontecia antes”.

Sánchez tem razão. Os problemas de convivência com os répteis são recentes, de acordo com o historiador local David Granados. Até os anos setenta, a população era relativamente pequena. Foi nessa década que entrou em vigor uma lei federal que proibiu a caça dos crocodilos do pântano, uma espécie que vive em toda a faixa do Golfo do México e que chega até a América Central.

A mudança legal fez com que o número de animais explodisse. Jaime Salinas, biólogo da Universidade do Nordeste, critica duramente a lei. “Há muito animalover [animalista] que não entende nada. Deve existir uma cinegética controlada. Antes você via um e o matava. Não acontecia nada. O primordial é a vida humana”. Mas nem tudo pode ser atribuído à regulamentação, que segundo fontes da Secretaria do Meio Ambiente do México (SEMARNAT) não deve mudar. A lagoa do Carpintero passou de ser o esgoto da região a uma atração turística nas últimas décadas após seu saneamento.


Visitantes observam um crocodilo em um mirante em Tampico. JUAN CARLOS ESPINOSA
Visitantes observam um crocodilo em um mirante em Tampico. JUAN CARLOS ESPINOSA Juan Carlos Espinosa

Hoje, os crocodilos de Tampico, que os moradores apelidaram carinhosamente de Juanchos, em homenagem a um desenho animado norte-americano dos anos sessenta, fazem parte das campanhas turísticas da cidade. No canal onde Conrado pesca ilegalmente, saem em determinado horário embarcações que dão um passeio pela lagoa e param quando o capitão vê que há um perto, para que os visitantes aproveitem para tirar uma foto.

Bem em frente ao Corpo de Bombeiros há um mirante onde um menino joga um pedaço de alface ao animal através da cerca de 1,10 metro. Ricardo Haro, da Associação de Advogados Ambientalistas de Tamaulipas, critica que os sáurios sejam promovidos dessa forma: “Essa normalização é perigosa”, frisa por telefone. Salinas é mais cauteloso em sua opinião. “Talvez não seja o melhor enfoque. Mas se o turismo gera dinheiro, e com isso financia campanhas de conscientização e uma segunda cerca de segurança, tudo bem”, afirma. Todos os especialistas consultados concordam em algo: alimentar os crocodilos é um erro enorme porque faz com que os predadores associem as pessoas a alimento.

Barreiras físicas e conscientização

Na Prefeitura argumentam que todos os ataques ocorreram porque a pessoa atacada entrou no habitat do animal. Mas no caso da mulher morta recentemente, não havia uma barreira física que a impedisse de lavar suas roupas na lagoa. Por outro lado, as autoridades dizem que os avisos estão em praticamente toda a região. Graciela Sánchez não compra esse argumento: “Poderia ser evitado. Deveria existir uma proteção dupla. Você acha que uma cerca de um metro é suficiente? Não, filho...”.

O Governo municipal insiste na responsabilidade individual, mas afirma que as campanhas de conscientização aumentarão. “Há pessoas que não ligam”, lamenta Elvia Holguera, secretária de Turismo da cidade. De acordo com os números oficiais, desde 2008 em Tamaulipas ocorreram 39 contatos entre crocodilos do pântano e pessoas, nove deles mortais. A região metropolitana de Tampico é a mais perigosa.

Por muitos anos, César Cedillo, um veterinário com especialização nos sáurios, se sentiu ignorado. Agora lidera o grupo SOS Cocodrilo, uma equipe criada pela Prefeitura de Tampico para coordenar diversas autoridades com os Bombeiros e a Proteção Civil. É das pessoas que mais conhecem sobre o assunto na cidade. Só em 2019 começaram a ouvi-lo e deram a ele a responsabilidade de liderar o projeto mais ambicioso em anos. Ainda assim, sabe que há coisas a se fazer: “Falta muita pedagogia, e que seja constante”, declara enquanto passa apresentações em PowerPoint sobre seu trabalho no gabinete local de Turismo.

Cedillo admite que o melhor seria que as três cidades —Tampico é governada pelo partido conservador PAN e Ciudad Madero e Altamira pelo situacionista Morena— se coordenassem com o mesmo projeto, mas ainda não existe uma proposta formal para fazê-lo.

Outro dos pontos em aberto dos últimos anos é o da participação do Governo Federal. Em 2014, a SEMARNAT instalou uma unidade para conservar os crocodilos que estivessem nas ruas, em vez de capturá-los e devolvê-los imediatamente, como se faz hoje. O edifício teve um custo de 99.000 dólares (515.000 reais). Nunca entrou em funcionamento.

Em um dos barquinhos que percorrem a lagoa, uma família de Monterrey se aproxima dos manguezais. “Olha um ali!”, grita com ímpeto um menino. O barco para um instante. Um par de olhos surge na água. Por megafone, a guia turística comemora o avistamento: “Esse exemplar está se comportando bem”. É o sexto do dia e ainda não são 14h. É um dia normal em uma cidade que ainda aprende a conviver com esses dinossauros do presente.

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