Mortes por inundações na Alemanha e Bélgica sobem para mais de 120

Oeste alemão contabiliza 1.300 desaparecidos, além de 103 mortos. Outras 23 pessoas morreram na região belga da Valônia

Um bombeiro inspeciona os escombros de uma casa na localidade de Schuld, no oeste da Alemanha, nesta quinta-feira. Em vídeo, imagens dos destroços.
Um bombeiro inspeciona os escombros de uma casa na localidade de Schuld, no oeste da Alemanha, nesta quinta-feira. Em vídeo, imagens dos destroços.BERND LAUTER / AFP
Berlim / Schuld (Alemanha) / Bruxelas - 16 jul 2021 - 17:20 UTC

A cifra de mortos nas graves inundações que atingiram o oeste da Alemanha e o leste da Bélgica na madrugada de quinta-feira já supera 120. A maioria dos falecimentos confirmados foram na no oeste alemão, 103, e ao menos 23 pessoas morreram na região belga da Valônia. É a maior catástrofe natural mais letal nessa região da Europa em várias décadas. As inundações afetaram também Luxemburgo, os Países Baixos e o leste da França.

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Há 1.300 desaparecidos apenas no distrito alemão de Ahrweiler, ao sul de Colônia, conforme anunciou o governo local em sua conta do Facebook. Com esta cifra tão elevada de desaparecidos, as autoridades temem que o número de mortos “tenha que ser corrigido para cima”, embora em muitos casos isso possa refletir apenas o corte nos serviços de telefonia fixa e celular, esclareceu um porta-voz da polícia de Koblenz. Muitas estradas do distrito continuam interrompidas, e a polícia pede que ninguém pegue o carro para verificar se seus familiares estão bem, porque se colocam em risco e podem bloquear as vias de resgate.

Manter contato com os afetados foi complicado nas últimas horas. As redes de telefonia celular caíram em algumas das regiões alemãs afetadas por estas chuvas, as mais abundantes já registradas em um período de 24 horas. Localidades inteiras, como Schuld, ficaram arrasadas, com muitas de suas casas reduzidas a escombros depois da enchente dos rios que cruzam amplas áreas de dois Estados federados do oeste alemão: Renânia do Norte-Westfália e Renânia-Palatinado.

A força da água continuou provocando estragos na madrugada da sexta-feira. Em Erftstadt, perto de Colônia, várias casas caíram total ou parcialmente, informa o canal público ARD. As equipes de resgate continuavam tentando chegar aos moradores que resolveram voltar para algumas destas moradias, apesar das advertências em contrário, disse o governo do distrito de Colônia. Os serviços de emergência estão resgatando os afetados em botes. Nesta zona há muitos desaparecidos. Além disso, um vazamento de gás dificultou ainda mais as tarefas. Vários asilos geriátricos foram desocupados, assim como os hospitais.

Já de madrugada, uma represa no rio Ruhr (afluente do Mosel) transbordou perto da fronteira com a Bélgica. Os especialistas tinham advertido para essa possibilidade na véspera. A barragem da represa de Steinbach também ameaça não suportar o volume de água acumulado desde a noite de quarta-feira, que provocou o transbordamento de rios, arrastou casas e alagou porões, onde algumas pessoas ficaram presas e morreram afogadas. O transbordamento destas represas provocará inundações nos trechos mais baixos do Ruhr, alertaram as autoridades. O distrito de Düren mantém em alerta as localidades de Heimbach, Nideggen e Kreuzau.

Cerca de 165.000 pessoas continuavam sem eletricidade na manhã de sexta-feira. Várias linhas ferroviárias continuam interrompidas. Os trens de longa distância procedentes de Berlim só viajam até Düsseldorf, em vez de prosseguirem até Colônia e Bonn. A Autoestrada 1 teve o trânsito interrompido em ambas as direções perto de Leverkusen.

A água arrastou carros, casas e até ruas inteiras nos Estados da Renânia do Norte-Westfália (o mais populoso do país, com 18 milhões de habitantes) e Renânia-Palatinado (quatro milhões). A polícia de Koblenz abriu uma linha telefônica para receber informações sobre pessoas desaparecidas. Imagens gravadas com drones mostram povoados inteiros com as ruas cobertas de água. São as piores inundações na Alemanha em várias décadas, mais devastadoras inclusive que as de 2002 na parte oriental do país.

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O Exército alemão enviou 900 soldados à região para colaborar nos trabalhos de resgate e busca de desaparecidos nos dois Estados afetados. Segundo o Ministério de Interior alemão, há 15.000 pessoas trabalhando nas tarefas de salvamento. O titular dessa pasta, Horst Seehofer, atribuiu as inundações à mudança climática e pediu que sejam aceleradas as medidas de mitigação. “Ninguém pode duvidar que esta catástrofe está relacionada com a crise climática”, afirmou em declarações à revista Der Spiegel. Seehofer anunciou ajudas do Governo federal para os afetados, como anteciparam ontem tanto a chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel, em visita oficial a Washington como outros ministros. O Executivo deve aprovar oficialmente as ajudas na sua próxima reunião, na quarta-feira.

Merkel qualificou na quinta-feira a situação de “catastrófica” e se disse “comovida” ao saber o alcance da tragédia. “É impossível descrever com palavras”, afirmou em um breve pronunciamento antes de se reunir com o presidente norte-americano, Joe Biden. Ela disse estar em contato com os líderes dos dois Estados afetados e com os ministros das Finanças, Olaf Scholz, e Interior, Horst Seehofer. A dirigente embarcaria de volta para a Alemanha na madrugada desta sexta-feira.

O parlamento da Renânia do Norte-Westfália deve se reunir em caráter emergencial nesta sexta-feira para discutir a reação a tragédia.

23 mortos na Bélgica

Na Bélgica, as chuvas torrenciais deixaram 23 mortos, segundo o jornal Le Soir, além de provocar grandes estragos, especialmente no sul da francófona Valônia. As localidades de Verviers e Pepinster concentram 15 dos mortos. A situação é especialmente grave na província da Liège, onde na manhã de sexta-feira foram encontrados três corpos no município de Trooz, segundo o prefeito local, Fabien Beltran. Embora os meteorologistas prevejam que o tempo tende a melhorar, inúmeras construções estão em risco, e não se descarta que algumas tenham que ser desocupadas.

As inundações afetaram também as infraestruturas belgas. “Estradas e rodovias inteiras desapareceram devido à subida das águas, e fazemos o que podemos, embora nos falte material. O fato é que levaremos meses ou anos para nos recuperarmos”, disse Beltran. Ao todo, 41.000 lares continuam sem eletricidade; a água das torneiras nos municípios mais afetados passou a ser considerada não potável, há dezenas de bloqueios nas rodovias, e os trens estão parados no sul do país.

As autoridades belgas anunciaram que o Governo nacional vai declarar estado de calamidade natural, como já fizeram os vizinhos Luxemburgo e Países Baixos. Na Holanda, as autoridades pediram na quinta-feira a 10.000 moradores de Maastricht que deixassem suas casas devido ao perigo de que o rio Mosel transborde na sua passagem por esta cidade, informa Isabel Ferrer.

Na França, os serviços meteorológicos mantêm nesta sexta-feira um alerta laranja por risco de inundações em 13 departamentos do nordeste do país, na zona fronteiriça com a Bélgica e a Alemanha, por causa das chuvas esperadas.

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