Crise no Haiti

Investigação é prejudicada pelas inconsistências no Haiti: guardas ausentes, pistoleiros turistas e um improvável autor intelectual

Mais perguntas do que respostas levantam dúvidas sobre os motivos e o papel dos colombianos presos pelo assassinato do presidente Jovenel Moïse

Policial monta guarda em 11 de julho diante de um mural que mostra o presidente haitiano Jovenel Moise na entrada da casa onde foi assassinado, em Porto Príncipe.
Policial monta guarda em 11 de julho diante de um mural que mostra o presidente haitiano Jovenel Moise na entrada da casa onde foi assassinado, em Porto Príncipe.RICARDO ARDUENGO / Reuters

Um autor intelectual que não está à altura, uma guarda presidencial que sobrevive sem um arranhão ao ataque de quase 30 homens armados, pistoleiros colombianos que publicam fotos de turismo nas redes sociais dias antes da operação e supostas ligações com a oposição venezuelana. As inconsistências superam em muito as certezas na investigação da morte do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, torturado e assassinado em sua casa em Porto Príncipe no dia 7 de julho. Estas são algumas das perguntas sem resposta.

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Quem organizou o assassinato do presidente Jovenel Moïse?

As autoridades haitianas anunciaram a prisão de Emmanuel Sanon como um dos cérebros do assassinato do presidente Jovenel Moïse. O médico de 63 anos, nascido no Haiti, mas residente na Flórida (EUA) há mais de 20 anos, teria sido a pessoa que os pistoleiros colombianos contataram quando se viram encurralados. Embora de acordo com as autoridades haitianas ele tivesse aspirações presidenciais, é um autêntico desconhecido tanto no país quanto entre a poderosa comunidade imigrante. Até três políticos haitianos consultados pelo EL PAÍS não conheciam Sanon e acreditam que é impossível que seja o organizador do magnicídio sem a colaboração de esferas mais altas.

Em um vídeo publicado em 2011 no YouTube, intitulado Liderança para o Haiti, Sanon descreve os líderes haitianos como corruptos e os acusa de despojar o país de seus recursos, dizendo que eles “não se importam com o povo”. No vídeo, diz querer ser presidente e defende que o país caribenho possui recursos naturais, como urânio e petróleo, que foram arrebatados pela classe política. Sua conta no Twitter está inativa desde 2011 e no momento de sua captura tinha 67 seguidores. Ele não seguia ninguém.

Os ex-militares colombianos detidos sabiam o que fariam no Haiti?

O papel dos supostos mercenários colombianos, os 21 ex-militares apontados como participantes do magnicídio (18 detidos e três mortos durante a prisão), tampouco está claro. A polícia colombiana disse na segunda-feira que respeita a autonomia do Haiti e que não podia divulgar nenhuma hipótese sobre o crime. Em meio à intriga, vários analistas se perguntam por que postaram nas redes sociais suas fotos em lugares turísticos da República Dominicana se sabiam que iam cometer um magnicídio, ou as razões pelas quais nenhum membro da segurança presidencial ficou ferido. Na ilha, os ex-militares pedem assistência judicial e contato com suas famílias, enquanto parentes dos supostos pistoleiros mortos durante a operação de captura reclamam a repatriação de seus corpos.

O Ministério das Relações Exteriores da Colômbia disse nesta segunda-feira, depois de uma reunião com o embaixador do Haiti em Bogotá, que pediu para ter acesso aos presos e manifestou preocupação por sua segurança. “Pedimos expressamente ao embaixador que seu Governo adote as medidas necessárias para garantir a integridade física dos compatriotas”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores colombiano, Francisco Echeverry, ao reafirmar que os familiares insistem que “são pessoas respeitáveis”.

A empresa CTU e o papel opaco do venezuelano Antonio Intriago

Parte das investigações transnacionais se concentra nas empresas que intermediaram o recrutamento e a viagem dos ex-militares colombianos. As autoridades do país andino identificaram cinco empresas, mas o foco está em uma delas: a CTU Security LLC (Counter Terrorist Unit Federal Academy), com sede na Flórida, Estados Unidos. Essa empresa comprou, com um cartão de crédito registrado nos EUA, 19 passagens aéreas de Bogotá à República Dominicana, os voos usados por uma parte do grupo de 21 ex-militares colombianos que posteriormente cruzaram a fronteira com o Haiti.

“Conseguimos estabelecer vínculos de comunicação entre Germán Rivera García e Duberney Capador (dois dos ex-militares mortos) com a empresa CTU Security com sede em Miami”, disse o diretor da polícia colombiana, o general Jorge Luis Vargas. É aí que surge outra peça do quebra-cabeça: o venezuelano Anthony Intriago, que figura como um dos chefes da CTU. No fim de semana, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, vinculou-o à oposição de seu país e afirmou desde Caracas, sem provas, que Intriago era “amigo pessoal de Juan Guaidó e Leopoldo López”.

Foi uma tentativa fracassada de sequestro que acabou em tortura e assassinato?

Quando o juiz Carl Henry Destin, responsável pela investigação, chegou à cena do crime, encontrou o presidente fora da cama, com alguns ossos quebrados e vestindo calças de rua. Tudo indica que Moïse foi espancado violentamente na cabeça e nas pernas com algo semelhante a um facão ou um taco de beisebol.

Se foi assassinado enquanto dormia, a dúvida é saber por que usava jeans, como mostram as fotos tiradas no necrotério vistas por este jornal. Ele havia tentado se defender ou talvez tenha sido um sequestro que acabou mal, como disseram alguns dos presos. Os dois haitianos nascidos nos Estados Unidos envolvidos disseram que a ideia original era sequestrar o presidente e levá-lo ao Palácio Nacional, e que jamais pensaram que seria assassinado.

Que papel teve a equipe de segurança do presidente? Quem é Dimitri Hérard?

A polícia investiga o papel desempenhado na operação por Dimitri Hérard, chefe da segurança do Palácio Nacional. Desde antes do magnicídio, Hérard estava na mira dos investigadores por suposto tráfico de armas. Agora terá que depor junto ao chefe da segurança do presidente Moïse, Jean Laguel Civil. Ambos são suspeitos de permitir que o mandatário fosse torturado e depois assassinado sem que ninguém de sua equipe ficasse ferido. Também terão de explicar como o comando conseguiu entrar na casa sem que houvesse troca de tiros, embora o exterior tenha ficado cheio de cartuchos vazios.

Na Colômbia também se segue a pista de Hérard, pois foi um lugar de trânsito para suas viagens ao Equador, Panamá e República Dominicana. A primeira viagem foi em 19 de janeiro e a última em 29 de maio, segundo a polícia. “Mas ele não esteve somente em trânsito, também permaneceu dois dias na Colômbia. Estamos verificando quais atividades desenvolveu aqui”, disse Vargas.

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