Crise política no Haiti

Instabilidade política no Haiti preocupa os EUA, que temem nova onda migratória

Estados Unidos, Colômbia e República Dominicana se mobilizam para esclarecer o assassinato do presidente Jovenel Moïse diante do temor de uma explosão violenta que respingue sobre toda a América

Cidadãos haitianos mostram seus passaportes para pedir asilo em frente à embaixada dos Estados Unidos em Tabarre, neste sábado.
Cidadãos haitianos mostram seus passaportes para pedir asilo em frente à embaixada dos Estados Unidos em Tabarre, neste sábado.VALERIE BAERISWYL / AFP
Porto Príncipe (Haiti) - 11 jul 2021 - 13:54 UTC

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Tão arraigada no coração dos haitianos quanto a estátua do Le Marron Inconnu erguida no centro de Porto Príncipe como um símbolo da luta contra a escravidão, a palavra crise se instalou como a única forma de governo no país caribenho. Ao vácuo de poder existente —até três líderes se proclamaram chefes de Estado depois do assassinato do presidente Jovenel Moïse— se junta a fome que atinge com dureza o Haiti, imerso na “pior crise humanitária dos últimos anos”, segundo o Unicef.

A onda expansiva do assassinato atinge toda a região e afeta diretamente os Estados Unidos, que temem uma crise migratória —na sexta-feira, centenas de pessoas se aglomeravam em frente à embaixada em busca de um visto—, a Colômbia, de onde saiu a maioria dos suspeitos presos, e a República Dominicana, que acompanha com preocupação os acontecimentos no país vizinho, com o qual compartilha fronteira e uma tensa relação desde a criação das duas nações e a divisão da ilha La Española, em 1821.

Cientes de como terminam as crises no país mais pobre da América e diante do temor de que um levante violento varra tudo, o Haiti pediu aos EUA e à ONU o envio de tropas para proteger portos, aeroportos e outros pontos estratégicos. “Pensamos que os mercenários poderiam destruir a infraestrutura para criar caos no país”, disse na sexta-feira o ministro das Eleições, Mathias Pierre.

O Departamento de Estado norte-americano e o Pentágono confirmaram o pedido de ajuda haitiano, embora sem detalhar se haverá mobilização de tropas militares, uma ameaça sempre latente que justifica a rejeição da população à presença estrangeira e a missões internacionais, como a dos capacetes azuis da ONU. Esta última, que levou o Exército brasileiro ao país, resultou em escândalos de abusos sexuais e da propagação do cólera entre 2004 e 2017. Um ódio patente nas paredes da sede da missão já cancelada da ONU, apedrejadas até o cansaço pela população.

Enquanto isso, a investigação do assassinato do presidente abre um leque de possibilidades. De um plano orquestrado pela equipe de segurança de Moïse à conspiração de um grupo de oligarcas afastados de alguns dos negócios mais suculentos. Parte da escolta de Moïse está sob investigação e o Ministério Público chamou os magnatas Réginald Boulos e Dimitri Vorbe para depor na segunda-feira. Boulos é dono de um conglomerado de empresas e a família Vorbe é dona do monopólio de eletricidade que Moïse havia começado a romper com a entrada de concorrentes. Ambos foram apontados pelo mandatário em uma entrevista ao EL PAÍS, meses antes de morrer.

Ao desconcerto por conta do ocorrido somam-se as dúvidas sobre o futuro político do país. Um dos últimos decretos assinados por Moïse foi nomear o oposicionista Ariel Henry como figura de aproximação para recompor as relações antes das eleições presidenciais e legislativas de setembro. O novo primeiro-ministro tinha sido nomeado, mas não chegou a ser empossado, e o primeiro-ministro cessante, Claude Joseph, apoiado pelos EUA, insiste que não deixará o poder, o que provocou tensão. E se havia alguma dúvida de que tudo pode piorar no Haiti, na noite de sexta-feira um grupo de senadores da oposição acusou Joseph de “instigar um golpe” e pediu a um terceiro, o presidente do Senado, Joseph Lambert, que assumisse a chefia do Estado. A Corte Suprema, que teria de decidir sobre essa controvérsia, foi dissolvida e seu presidente morreu no mês passado de covid-19.

Enquanto isso acontece nas alturas, policiais e militares colombianos e norte-americanos anunciaram sua chegada ao país para ajudar a esclarecer o magnicídio, embora o que continua sem chegar são as vacinas. O Haiti é um dos poucos países do mundo que não recebeu uma única dose de vacina contra a covid-19, enquanto a população combate a pandemia com paracetamol e vodu. Meio a sério, meio brincando, o sacerdote católico Gilles Dauroc costumava dizer que, na ausência de dados estatísticos confiáveis, “no Haiti se considera que há 80% de católicos, 40% de protestantes e 90% de praticantes de vodu”.

A verdade é que a pandemia castigou ainda mais a empobrecida economia do Haiti, que depende em 75% da cooperação internacional e que a ONU situa no 170º lugar entre 187 países no índice de desenvolvimento humano. Dada essa precariedade, a instabilidade política, endêmica no Haiti desde a queda da ditadura, com 20 governos em 35 anos e com seis primeiros-ministros apenas no mandato do presidente assassinado, torna-se uma bomba-relógio para a região. O terremoto de 12 de janeiro de 2010 não só ocasionou mais de 300.000 mortos e um milhão meio de desabrigados, mas destruiu um Estado erguido com bases pouco sólidas depois da ditadura de Papa Doc e Baby Doc Duvalier, consolidada à base de terror e facões por seus temidos tonton macoutes.

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