Bolívia

Bolívia acusa o ex-presidente argentino Mauricio Macri de colaborar com a destituição de Evo Morales

Presidente Alberto Fernández pede desculpas pelo envio de munições antidistúrbios por parte de seu antecessor para o Governo de Jeanine Áñez

A ex-presidenta boliviana Jeanine Áñez é escoltada pela polícia no dia 6 em La Paz.
A ex-presidenta boliviana Jeanine Áñez é escoltada pela polícia no dia 6 em La Paz.Juan Karita / AP

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, pediu desculpas ao Governo e ao povo da Bolívia pelo envio de munições antidistúrbios por parte de seu antecessor, Mauricio Macri, ao Governo boliviano de Jeanine Áñez, em novembro de 2019. “Constatou-se que foi enviado do nosso país um carregamento de material que só pode ser interpretado como um reforço para a capacidade de ação das forças sediciosas contra a população boliviana naquela ocasião”, afirma Fernández em uma carta dirigida ao atual presidente boliviano, Luis Arce. “Eu me dirijo ao senhor com… dor e vergonha”, escreve. “Foi uma colaboração decidida pelo Governo do então presidente Mauricio Macri com a repressão militar e policial que sofreram aqueles que defendiam a ordem institucional de seu país”, acrescenta.

Em La Paz, o ministro de Relações Exteriores da Bolívia, Rogelio Maita, denunciou “uma coordenação internacional para reprimir o povo boliviano”, comparando-a com o Plano Condor executado pelas ditaduras militares da região nos anos setenta. Maita mostrou à imprensa uma nota de agradecimento enviada em 13 de novembro de 2019 pelo então comandante da Força Aérea Boliviana, general Gonzalo Terceros, ao embaixador da Argentina na Bolívia, Normando Álvarez García, na qual se confirma o recebimento de 40.000 cartuchos AT 12/70 e de uma pequena quantidade de bombas de gás lacrimogêneo. O chanceler boliviano considerou que essa munição foi usada pelas forças policiais e militares no “massacre de Sacaba”, em 15 de novembro de 2019, e no “massacre de Senkata”, em 17 de novembro de 2019. Mais de 30 pessoas morreram nesses atos de repressão contra setores que protestavam contra a derrubada de Evo Morales.

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Quando Áñez assumiu a presidência, em 12 de novembro de 2019, as forças policiais e militares estavam com falta de gás lacrimogêneo e de outras munições antidistúrbios, depois dos 21 dias de conflitos de rua que antecederam a queda de Evo Morales. Essa escassez fez com que o Governo interino pedisse ajuda a pelo menos dois governos vizinhos: o da Argentina e o do Equador, presidido na época por Lenín Moreno, que também forneceu à Bolívia um carregamento de munições desse tipo. Maita pediu que o Ministério Público boliviano investigue quem pode ter realizado uma operação de coordenação de alcance internacional, com contatos com vários governos latino-americanos. Também solicitou que se investigue como foram apagados os registros da entrada desse material e dos voos que o trouxeram. O chanceler boliviano disse que o Governo anterior tentou manter em segredo o que ocorreu e não descartou a possibilidade de que sejam descobertos mais casos desse tipo.

A falta de munições para a polícia fez com que, depois dos envios da Argentina e do Equador, o ministro de Governo de Áñez, Arturo Murillo, comprasse suprimentos policiais não letais através de uma empresa intermediária em Miami. Hoje Murillo está preso nessa cidade dos EUA, onde fixou residência após deixar seu cargo, acusado de ter recebido propina e lavado dinheiro proveniente do preço superfaturado que a Bolívia pagou por essa compra. Esse superfaturamento foi estimado em mais de 2 milhões de dólares (10,5 milhões de reais).

Também está preso o autor da nota de agradecimento à Argentina, o general Terceros, acusado de ter participado do suposto golpe de Estado que levou Áñez ao poder. Além deles, estão detidos a própria ex-presidenta, dois de seus colaboradores e o ex-comandante da Marinha. Já o então comandante da Forças Armadas, Williams Kaliman, escapou em março de sua prisão domiciliar e agora é um fugitivo da Justiça.

A oposição boliviana considera que não houve um golpe de Estado e que, portanto, o Governo de Áñez foi constitucional e não uma “força sediciosa”, como é descrita por Alberto Fernández em sua carta. Para os opositores, Evo Morales perdeu o poder diante de uma revolta popular à qual aderiram no último minuto, com pedidos separados de renúncia do presidente, as Forças Armadas e a polícia. Portanto, consideram que o processo judicial contra Áñez e os ex-comandantes militares é puramente político, afirmando que não passa de um “instrumento de revanche política de Morales”.

Os acontecimentos sangrentos de Sacaba e Senkata estão sendo investigados por um grupo de peritos formado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Não puderam ser objeto de um julgamento na Bolívia porque o Governo tem a maioria parlamentar necessária para aprovar uma acusação por esses motivos contra Áñez, que tem imunidade especial por sua condição de ex-presidenta. O processo pelo qual Áñez está detida se refere supostamente a um caso anterior à sua posse como mandatária, algo que os juristas da oposição e organizações internacionais de direitos humanos consideraram irregular.

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