Pelo menos cinco manifestantes morrem em duros confrontos com as forças de segurança na Bolívia

Choques ocorreram perto de Cochabamba em uma manifestação de cocaleiros leais a Morales

Uma dos protestos em Sacaba, em Cochabamba (Bolívia).
Uma dos protestos em Sacaba, em Cochabamba (Bolívia).AFP

A convulsão na Bolívia não diminuiu com a renúncia de Evo Morales e a posse de um Governo interino. Os protestos gerados pela mudança dos equilíbrios políticos do país deixaram na sexta-feira pelo menos 5 manifestantes mortos e mais de 20 feridos em uma localidade próxima da cidade de Cochabamba, segundo informações da Defensoria Pública. Os choques com as forças de segurança e militares ocorreram durante uma grande manifestação de cocaleiros fiéis ao ex-presidente. Também ocorreram distúrbios em La Paz.

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Os confrontos ocorreram nas proximidades de uma ponte do município de Sacaba, onde os manifestantes se concentraram com a intenção de partir para a cidade de Cochabamba. Essa área da província do Chapare, polo da produção de folha de coca, transformou-se nas últimas semanas no principal reduto da resistência dos seguidores de Morales.

Com as vítimas de sexta-feira, subiu para 18 o total de mortos nos protestos iniciados depois das eleições de 20 de outubro. Os feridos somam quase 550 e os detidos, 44. A violência continua. Em La Paz, milhares de pessoas, principalmente representantes indígenas do município de El Alto e membros da milícia dos Ponchos Vermelhos seguiram até a praça de San Francisco, no centro da cidade, onde entraram em confronto com as forças de segurança.

A presidenta interina da Bolívia, Jeanine Áñez, afirma desde que assumiu o cargo, na terça-feira, que sua missão é “pacificar” o país e convocar eleições o mais rápido possível. Até agora, não atingiu nenhum desses objetivos. O Governo atribui isso às ações de grupos violentos e vândalos. Mas a realidade é que a tensão não foi contida. No México, onde está asilado, Morales criticou a atuação das forças de segurança. “O regime golpista que tomou de assalto o poder na minha querida Bolívia reprime com balas das Forças Armadas e da polícia o povo que pede pacificação", afirmou o ex-presidente nas redes sociais.

Horas antes, Áñez advertira Morales de que ele tem contas pendentes com a Justiça e que, se voltar ao país, terá de responder por elas. Em declarações à imprensa internacional, a ex-senadora, que assumiu a presidência sem o apoio majoritário do Parlamento, reiterou que a meta de seu Governo provisório é convocar eleições “justas e transparentes”, mas não disse quando serão realizadas. Não estabeleceu nem mesmo um horizonte para isso, embora a Constituição lhe dê três meses para marcar uma data.

A presidenta interina disse que, durante esta transição, não haverá perseguição contra adversários políticos. No entanto, deixou claro que o ex-presidente terá de arcar com suas responsabilidades se decidir retornar ao país. “Agora já estão pedindo que venha, quando ninguém o expulsou do país. Ele saiu por conta própria, […] ele sabe que ainda tem contas pendentes com a Justiça boliviana”, afirmou. “Se o presidente Morales voltar, que volte, mas ele sabe que também tem de responder à Justiça. O que vamos exigir é que a Justiça boliviana faça seu trabalho, não que faça uma perseguição política, que é o que sofremos durante 14 anos, judicialização da política e politização da Justiça”, acrescentou. O ex-presidente tinha declarado, em uma entrevista ao EL PAÍS no México, estar disposto a voltar e desistir de ser candidato para pacificar a Bolívia.

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