_
_
_
_
_

Putin decreta que só o espumante russo é champanhe e “escandaliza” indústria francesa

Nova lei reserva a etiqueta, originalmente atribuída a uma região da França, apenas ao produto local, enquanto o francês será rotulado como “espumante”. Associação de produtores recomenda suspender venda de champanhe para a Rússia

El presidente ruso, Vladímir Putin
O presidente russo, Vladimir Putin, segura uma taça durante cerimônia no Kremlin, em 2016.POOL New (Reuters)

Vladimir Putin estourou a batalha do champanhe. O presidente russo sancionou uma nova lei decretando que apenas os champanskoe, os populares e acessíveis espumantes criados na época soviética como fórmula para democratizar o luxo, podem ser etiquetados como champanhe a partir de agora na Rússia. Os borbulhantes vinhos estrangeiros —inclusive os da região da Champanha, nordeste da França, protegidos por uma denominação de origem controlada e fabricado apenas com certas variedades de uvas e um processo de maturação específico— serão rotulados e classificados como “vinhos espumantes” no mercado russo.

A norma, que modifica a lei atual sobre bebidas alcoólicas, rubricada na sexta-feira passada, causou indignação e estupor em grande parte da indústria do champanhe, que defende zelosamente a denominação de origem controlada e insiste em que o champanhe genuíno só provém da região da Champanha, onde o terroir cria as condições propícias para a bebida, elaborada exclusivamente com as cepas chardonnay, pinot noir, meunier, arbane, petit meslier, pinot blanc ou pinot gris, colhidas mediante poda curta.

Mais informações
Juan Juan Micó, proprietário das Destilerías Ayelo, com antigas garrafas de Kola-Coca
O vilarejo espanhol que diz ter inventado a Coca-Cola
Manifestação do Partido Comunista Russo para comemorar a Revolução de Outubro de 1917, em 7 de novembro
Cresce na Rússia o número de nostálgicos da União Soviética
La viticultora Sara Pérez, en su finca Els Escurçons, en el Priorat. De aquí salen como máximo 3.000 botellas de un tinto único. A la derecha, su mano sobre una barrica de vinos rancios.
Enologia: Extremo singular

A associação que reúne a indústria francesa declarou-se “escandalizada” e pediu aos produtores que paralisem o envio de seus vinhos à Rússia até que a nova norma seja esclarecida. “O Comitê Champanha deplora que esta legislação não garanta aos consumidores russos informação clara e transparente sobre as origens e características do vinho”, disseram seus copresidentes Maxime Toubart e Jean-Marie Barillere em um comunicado, recordando que o nome champanhe está protegido em mais de 120 países. Enquanto isso, o ministro francês do Comércio Exterior, Franck Riester, salientou que sua equipe está analisando as implicações da nova lei russa para o setor vitivinícola francês.

Mas também há fabricantes, como o poderoso Moët Hennessy, do grupo de produtos de luxo do grupo LVMH e responsável por marcas como Moët Chandon, Veuve Clicquot e Dom Perignon, que decidiram engolir as hesitações e se adaptar resignados ao novo rótulo. A empresa ameaçou neste fim de semana suspender temporariamente a distribuição na Rússia, alegando que a mudança de etiqueta custaria milhares de euros. Em uma carta aos seus sócios russos publicada pelo jornal de negócios Vedomosti explicou que a nova regra pode obrigar não só a mudar o rótulo, como certificar novamente os vinhos. Mas o espumante Moët continuará disponível na Rússia. “As casas de champanhe Moët Hennessy sempre respeitaram a lei vigente onde quer que operem e retomarão as entregas assim que puderem fazer as mudanças [de rótulo]”, disse na segunda-feira o grupo em um comunicado.

O país euroasiático (144,5 milhões de habitantes) importa 50 milhões de litros de vinhos espumantes, 13% deles são champanhe, de acordo com números da consultoria Centro de Pesquisa do Mercado Federal e Regional de Álcool da Rússia (Tsiffrra), que coloca em aproximadamente 3% a participação da Moët Hennessy no mercado das bebidas, que importa vinhos à Rússia no valor de 20 milhões de dólares (101 milhões de reais) por ano. Um segmento pequeno de produtos de luxo que poucos podem se permitir no país hoje.

A nova regra, que é mais um passo nas últimas leis de protecionismo russo em plena onda de sanções ocidentais contra Moscou —que já vetaram e restringiram produtos como o queijo parmesão, o gouda e o presunto ibérico—, e que tenta promover os produtores locais, desatou críticas e alerta entre alguns, como Olga Sokolova, diretora de vendas da Vinicom, especializada em vinhos estrangeiros, que define a situação como “absurda”; e até mesmo de fabricantes russos, que se pronunciaram contra a “apropriação” por completo da marca Champanhe. Mas há outros, como o especialista no setor de vinho Yuri Yudich, que afirmam que a lei só oficializa algo que já é regra. “Desde a época soviética, que hoje é lembrada por alguns com hostilidade e por outros com leve tristeza, a palavra champanhe não significa produtos elaborados na Champanha, e sim vinhos secos, semissecos, doces e outros de todo tipo borbulhantes”, escreve Yudich em uma análise, em que minimiza a importância da nova regulamentação.

Na década de 1920, com Josef Stalin já no poder e após a abolição da lei seca, os enólogos soviéticos receberam o encargo de criar um vinho espumante que estivesse disponível às camadas mais amplas da população trabalhadora: uma versão made in URSS do vinho francês das elites de todo o mundo. Desse modo foi criado o Champanhe soviético e, depois, seu sucessor, o champanskoe, típico nas festas e Ano Novo. De fato, a maioria dos russos bebe vinho espumante nacional; somente 27% do mercado corresponde a esse tipo de vinho estrangeiro: do cava ao prosecco e champanhe.

Não existiu debate social sobre a nova regulamentação, que surpreendeu de guarda baixa consumidores e distribuidores. Mas há empresários que podem se beneficiar dela, como Yuri Kovalchuk, amigo próximo do presidente Putin, que lidera o Bank Rossiya (sancionado pelos EUA) e que através de uma subsidiária é dono da fábrica de vinho espumante Novy Svet, na península ucraniana da Crimeia, que a Rússia anexou ilegalmente em 2014. E Boris Titov, presidente da comissão de defesa dos direitos dos empresários, cuja família é dona da fábrica de vinho espumante Abrau-Dyurso, na região de Krasnodar. Suas ações subiram 3% na segunda-feira (e chegaram a subir até 7,7% nas primeiras operações), apesar de seu diretor-geral, Pavel Titov (filho de Boris Titov) declarar não ver muito sentido na lei. “É muito importante proteger os vinhos russos em nosso mercado. Mas a legislação deve ser razoável e não contradizer o senso comum. Não tenho nenhuma dúvida de que o verdadeiro champanhe é fabricado na região francesa da Champanha”, disse à Rádio França Internacional.

Não é a primeira vez que Putin ajuda a empresa de Titov. Suas ações também dispararam no começo do ano, quando o presidente russo comentou que estava muito interessado na enologia e que se por acaso se aposentar poderia se dedicar ao setor e até ser assessor das bodegas Abrau-Dyurso.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
_
_