Demografia

A bomba-relógio demográfica que ameaça a China: população em queda e mais idosa

Menos crianças nascem a cada ano no país mais populoso do mundo, que é também o que mais rapidamente envelhece

Um avô passeia com seu neto por um parque de Pequim, em fevereiro deste ano
Um avô passeia com seu neto por um parque de Pequim, em fevereiro deste anoMark Schiefelbein / AP

A pergunta do livro didático caiu como um raio durante a aula numa escola de idiomas de Pequim: “Você concorda?”. As seis alunas ―de idades entre a adolescência e a faixa dos 30, todas estudantes ou profissionais de classe média― responderam de maneira tão rápida como quase unânime. “Não, de jeito nenhum!”, reagiram cinco delas. Duas se apressaram em acrescentar que tampouco queriam filhos: “Quero independência econômica, minha carreira, minhas viagens”, observou uma delas. Só a mais jovem, de 16 anos, admitiu que, sim, via no seu futuro a possibilidade de se casar e constituir família.

São respostas típicas na China, ao menos nas cidades. A prosperidade econômica dos últimos anos e um aumento do nível educacional, o custo de vida elevado, junto a uma evolução da mentalidade em torno do amor, do casamento e da família, se somaram aos efeitos deixados por décadas da política do filho único. Como em outras sociedades desenvolvidas, casar-se e ter filhos já não representa, para as gerações chinesas mais jovens, a necessidade ou a obrigação que poderiam ser para seus pais ou seus irmãos mais velhos. A cada ano nascem menos crianças: 17,86 milhões em 2016, depois do fim da política do filho único; 14,65 milhões em 2019.

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A queda da natalidade está entre os fatores de um problema que faz dispararem os alarmes entre as autoridades nacionais: a redução da população, que se combinará com um drástico envelhecimento, o mais rápido do mundo. Uma autêntica bomba-relógio demográfica no país mais populoso de todos, e que vê nisso um dos pilares da sua influência. Segundo o Ministério de Assuntos Civis, em 2019 a proporção de maiores de 65 anos era de 12,57%; até 2025 essa cifra pode chegar a 25%, ou 300 milhões de pessoas. Em 2050, segundo as projeções da Comissão Nacional sobre o Envelhecimento, os maiores de 60 anos superarão 487 milhões de pessoas, representando 28% da sua população ―mais do que todos os habitantes da União Europeia. Por outro lado, a população em idade de trabalhar, entre 15 e 59 anos, representava no final de 2019 64% do total, enquanto entre 2000 e 2010 havia crescido de 66% para 70%.

Politicamente delicado

É um problema sobre o qual os especialistas vêm alertando com insistência cada vez maior e que se tornou uma questão politicamente muito delicada, a tal ponto que as cifras do último censo são um segredo guardado a sete chaves: deveriam ter sido divulgadas no começo de abril, mas, um mês depois, ainda não há data prevista. A porta-voz do Departamento Nacional de Estatísticas, Liu Aihua, afirmou há duas semanas que ainda eram necessários “mais preparativos” antes das apresentar os dados.

Nesta semana, o Financial Times publicou que o censo, compilado em 2020, revela a primeira queda no número de habitantes na China desde os tempos do Grande Salto Adiante, entre 1959 e 1961, quando uma onda de fome matou dezenas de milhares de pessoas. A população voltará a ficar abaixo de 1,4 bilhão de pessoas, um marco que tinha alcançado em 2019. Quase imediatamente, Pequim negou a notícia. Em um seco comunicado de uma só linha, o Departamento Nacional de Estatística afirmou que “a população continuou crescendo em 2020”, embora não esclareça se com relação ao ano anterior ou a 2010, a data do censo anterior.

Mas o consenso entre os especialistas chineses continua sendo que a contração logo chegará, possivelmente em um ano ou dois. Um estudo do Instituto de Pesquisas Evergrande, da prestigiosa Universidade Tsinghua, calcula que o temido pico ocorrerá durante os próximos cinco anos; a estatal Academia de Ciências Sociais da China o prevê para 2027, a data com a qual os mercados e funcionários públicos trabalham.

Temores

A perspectiva é dramática para a China: uma população mais envelhecida e com maior expectativa de vida, somada a um menor número de nascimentos e de trabalhadores jovens, implica que a força de trabalho não será suficiente para sustentar as gerações mais velhas. É algo que terá impacto nas perspectivas econômicas, do consumo aos cuidados com os idosos, passando pelo gasto da Previdência Social ―problemas que outras sociedades ricas já enfrentam, mas que a segunda maior econômica do mundo precisa enfrentar com um menor grau de desenvolvimento. E é algo que pode complicar as aspirações do seu presidente, Xi Jinping, de transformar o país em uma grande potência nas próximas três décadas.

“Nossas projeções, com as cifras de antes do censo, já sugeriam que a força de trabalho se contrairia em 0,5% ao ano até 2030, com um impacto similar no PIB”, apontava a consultoria Capital Economics em nota nesta quarta-feira. “Um crescimento mais lento pode tornar mais difícil alcançar os Estados Unidos economicamente. E também pode haver um impacto intangível no prestígio global da China.”

A se confirmar a redução populacional, e que chega antes do esperado, a China terá que acelerar a adoção de medidas até agora adiadas. “Talvez devesse relaxar completamente a política de controle de natalidade”, para permitir que quem quiser tenha três filhos ou mais, diz em nota Zhiwei Zhang, da consultoria Pinpoint Asset Management. Permitir que todos os casais possam ter dois filhos a partir de 2016 não foi suficiente: embora naquele ano tenha havido um leve repique nos nascimentos, nos anos seguintes as cifras não pararam de cair.

Já em março, o primeiro-ministro Li Keqiang antecipou em seu discurso anual à Assembleia Nacional Popular (ANP, o Parlamento chinês) o lançamento de uma “estratégia nacional para enfrentar o envelhecimento populacional”, num indício da preocupação que o problema desata entre os líderes. Segundo o chefe de Governo, Pequim trabalhará para que o índice de natalidade seja “apropriado”, numa possível referência à eliminação dos controles de natalidade.

Outra batata quente será a elevação da idade de aposentadoria. Algo que, conforme mencionou Li em seu discurso, também será implantado “de maneira gradual”. Atualmente, a aposentadoria está fixada em 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, embora no caso delas possa cair para 50 se desempenharem trabalhos que gerem maior desgaste físico. A expectativa de vida beira os 76 anos.

O próprio banco central chinês também lançou uma mensagem de alerta. Em um relatório publicado na semana passada, dizia “reconhecer que a situação demográfica mudou” e que “a educação e o progresso tecnológico não têm como compensar a redução da população”. Entre outras coisas, o documento recomenda “liberalizar por completo e estimular os nascimentos” e reduzir o ônus financeiro que acompanha a criação de um filho ―incluindo sua educação―, o que dissuade muitos casais de aumentarem a prole. De forma inédita, também menciona a possibilidade de permitir uma maior imigração, uma ideia que até agora era quase tabu na China.

Resta ver se medidas deste tipo convenceriam as alunas da aula de idiomas em Pequim. “Não quero bebês”, insistia uma delas, profissional bancária. “Viajar a outros lugares, andar por aí, percorrer paisagens, é o que eu mais gosto na vida. Para ter um filho, eu teria que renunciar a isso.”

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