Conflito entre Exército venezuelano e grupos armados volta a ganhar força na fronteira com a Colômbia

Governo de Nicolás Maduro critica “abandono” da região pelo Estado colombiano. Moradores acusam policiais venezuelanos de matar uma família de camponeses

Refugiados venezuelanos chegam à Colômbia depois dos confrontos.
Refugiados venezuelanos chegam à Colômbia depois dos confrontos.DANIEL FERNANDO MARTINEZ CERVERA / AFP

A fronteira da Venezuela com a Colômbia, na região do Alto Apure, é uma zona de guerra. A violência recrudesce quando se completa uma semana dos combates entre militares da Força Armada Bolivariana e grupos irregulares colombianos, compostos de supostos integrantes de dissidências da ex-guerrilha FARC. Na Colômbia, moradores obrigados a fugir de povoados fronteiriços como La Victoria e El Ripial denunciaram que membros das forças venezuelanas teriam roubado residências e matado quatro membros de uma família de camponeses. Em vídeos que circularam nos últimos dias nas redes sociais, aviões de combate são vistos sobrevoando a zona, junto a veículos militares e instalações destruídas por explosões.

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O Governo venezuelano mobilizou toda a sua força militar na área, junto com missões das Forças de Atuações Especiais da Polícia Bolivariana, o corpo de segurança apontado como responsável pelo assassinato da família de camponeses. A corporação acumula um histórico de abusos e execuções extrajudiciais que levou a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, a lançar em 2019 um pedido ao Governo de Nicolás Maduro para que a dissolvesse.

Em uma gravação difundida recentemente pelas redes sociais, Raiza Remolina, sobrinha dos camponeses assassinados, relata a um jornalista local que seus familiares foram retirados na quinta-feira de suas casas, localizadas no bairro 5 de Julio, em La Victoria, no lado venezuelano da fronteira, durante uma operação de buscas nos arredores, supostamente à caça de guerrilheiros. “Meus parentes foram levados e apareceram em El Ripial, um pouco mais longe de onde eles estavam. Apareceram jogados no campo, com os uniformes usados pelos grupos irregulares. Amarraram uma calça no meu primo, lhe puseram botas e uma arma ao seu lado. Na minha tia calçaram botas de guerrilheira. No marido dela e no seu cunhado também”, contou a jovem no vídeo.

Outros depoimentos colhidos pela ex-deputada Delsa Solórzano e pela ONG FundaRedes, que vem documentando a incursão de grupos irregulares na fronteira e prestando apoio às vítimas, parecem confirmar o relato, corroborado também por fotos nas redes sociais dos corpos dos camponeses, com armas de fogo e uma granada perto das mãos. Emir Remolina, filho das vítimas, contou em uma das gravações que sua mãe, Luz Remolina, era dona de casa, e seu pai, Emilio Ramírez Villamizar, trabalhava em uma fazenda. Seu irmão e seu tio, também assassinados, não tinham nenhuma ocupação. Emir soube do ocorrido através de grupos de Whatsapp de moradores, onde circularam fotos dos cadáveres.

Após três dias de espera, nesta segunda-feira os corpos da família Ramírez Remolina foram enterrados em Arauquita, no lado colombiano da fronteira. No domingo, moradores de La Victoria e familiares desabrigados fizeram uma vigília de protesto. Saíram pelas ruas do município com velas, bandeiras brancas e cartazes com mensagens como “Queremos voltar para nossos lares”, “Queremos paz e tranquilidade”, “Justiça para a família Ramírez Remolina”. O conflito, entretanto, não parou. Na madrugada desta segunda-feira ocorreu um novo ataque com explosivos contra um posto militar venezuelano, segundo relatos da FundaRedes.

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Diante desses fatos, o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, anunciou o envio à região de uma equipe de especialistas da Direção Geral de Defesa dos Direitos Humanos e da Unidade Criminalística do Ministério Público para apoiar as investigações. “Caso sejam encontrados indícios de fatos puníveis a mando de funcionários da segurança do Estado, terá início a investigação e correspondente punição”, escreveu no sábado em sua conta do Twitter.

O conflito no Apure inflamou pela enésima vez a narrativa bélica do chavismo. Em um comunicado, o chanceler Jorge Arreaza atribuiu o episódio ao ministério colombiano de Relações Exteriores, que nesta semana manifestou sua preocupação com os confrontos em território venezuelano e o decorrente deslocamento de pessoas. “É um fato comprovado o abandono das fronteiras por parte do Estado colombiano, dando um consentimento mais do que tácito às ações de diversos grupos criminais que operam na área”, afirma Arreaza, acrescentando que o presidente da Colômbia, Iván Duque, com apoio do Comando Sul dos Estados Unidos, “instalou um corredor de atividades ilegais como o tráfico de pessoas, a exploração ilegal de minérios e o narcotráfico, destinado a financiar a instrumentalização destes grupos armados contra a Venezuela”. E acrescenta: “Ao se verem derrotados, estes grupos armados usam a população como escudo humano para fugir para a Colômbia, onde não são perseguidos”.

O ministro venezuelano da Defesa, Vladimir Padrino, também deu declarações no mesmo sentido no último sábado. “As incursões no espaço geográfico venezuelano devem ser consideradas como uma agressão patrocinada por Iván Duque”, afirmou em uma entrevista coletiva. “Vimos como pelo WhatsApp os subversivos, os irregulares e os terroristas causaram terror psicológico à população”, afirmou. O funcionário apresentou um saldo parcial das operações: “6 terroristas neutralizados, 27 suspeitos postos à disposição do Tribunal Militar 14 de Controle, outros 12 detidos no dia de ontem [sexta-feira] e o confisco de armamentos, granadas, munições, explosivos, objetos militares, veículos, drogas e equipamentos tecnológicos com informação relativa às suas atividades”. Enquanto isso, 15 refúgios no povoado de Arauquita, um município colombiano fronteiriço, receberam mais de 3.000 pessoas, entre colombianos e venezuelanos deslocados logo depois dos enfrentamentos que começaram no domingo passado.

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