Eleições EUA 2020

Sombra de Hunter Biden paira sobre a nova presidência dos EUA

Filho do mandatário eleito está sob os holofotes por seus negócios e uma investigação da Promotoria de Delaware sobre seus impostos

Joe Biden e seu filho Hunter no dia da posse de Barack Obama em janeiro de 2009.
Joe Biden e seu filho Hunter no dia da posse de Barack Obama em janeiro de 2009.Carlos Barria / Reuters

A família é uma instituição com a qual se viaja por toda a vida e que, no caso do próximo presidente dos Estados Unidos, de repente terá um lugar na primeira fila quando este chegar à Casa Branca em 20 de janeiro. E antes de começar o mandato de Joe Biden, os holofotes do escrutínio estão em seu filho Hunter, investigado por seus negócios e que já esteve na mira dos republicanos por suas relações empresariais na Ucrânia.

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Barack deixou o 1600 da Avenida Pensilvânia livre de escândalos, mesmo com duas filhas adolescentes na mira ― o máximo que aconteceu foi Malia, a mais velha, ter sido vista fumando o que parecia maconha em um conhecido festival de música ―. Não foi o caso de outros presidentes recentes. Da investigação do irmão de Jimmy Carter, Billy, por interceder a favor do Governo da Líbia, até um dos filhos de George Bush pai (Neil) por um empréstimo bancário fraudulento, acabando com o perdão concedido por Bill Clinton a seu irmão Roger por um caso de drogas. Os filhos de Donald Trump também tiveram contas com a Justiça.

Quando tomar posse, Joe Biden cruzará as portas da Casa Branca com uma grande bagagem familiar chamada Hunter Biden e seus problemas legais. Se o Departamento de Justiça dos EUA não livrar o único filho homem vivo de seu sucessor antes dessa data, o novo presidente se verá diante da tessitura de decidir se seu Governo abre uma investigação que pode expor seu filho a uma acusação penal. Por enquanto, e apesar do ex-promotor geral William Barr, que renunciou a pouco tempo, ter se distanciado de Trump ao declarar que não via razão alguma para nomear um investigador especial após a Promotoria de Delaware abrir um caso pelos impostos de Hunter Biden, nas fileiras republicanas o pedem para assegurar que o assunto fique afastado de qualquer tipo de favoritismo.

A vida de Hunter Biden foi marcada pela trajetória de seus influentes pais. Seu caminho pessoal teve em seus quase 50 anos de vida mais sombras do que luzes, mais tragédias do que alegrias, começando pela morte de sua mãe em um acidente de trânsito quando tinha três anos. Álcool, drogas, prostitutas, um casamento fracassado, a relação sentimental com a viúva de seu irmão, Beau, e vários centros de reabilitação estão na biografia de mais da metade de sua jovem vida. De modo justo ou não, ele é considerado o desgarrado da família Biden.

Foi influenciado pelo fato de ser um homem eclipsado por seu irmão mais velho, Beau, destinado a triunfar como o pai ― algo que sua morte prematura por câncer impediu em 2015 ―. Hunter há anos é uma preocupação aos Biden. Agora, sua sombra beirando os limites da legalidade paira sobre a nova presidência.

Para começar, as atividades passadas do advogado, lobista e empresário foram alvo das acusações do mandatário em fim de mandato, ainda que a caça às bruxas iniciada por Trump contra Hunter ― e por extensão contra o pai ― acabou se voltando contra ele. Ao pretender que fosse aberta contra o filho de Biden uma investigação sobre seu papel em uma empresa de gás na Ucrânia, Trump acabou pressionando o presidente desse país, o que abriu o caminho ao impeachment que por fim superou no Senado, de maioria republicana.

Um computador esquecido

Os ataques do ainda presidente foram feitos no começo da corrida do candidato democrata à Casa Branca, mas na reta final da batalha o assunto voltou a subir como possível escândalo através de um tabloide do magnata Rupert Murdoch lançado sobre supostos e-mails encontrados em um computador que Hunter Biden havia mandado consertar e nunca pegou. A breve correspondência eletrônica foi resumida assim pelo The New York Post: “Um executivo ucraniano agradeceu a Hunter Biden pela oportunidade de se reunir com seu pai vice-presidente”. Por trás dessa história da etapa de Biden como segundo de Obama estava o advogado pessoal de Trump, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, que há anos faz acusações infundadas contra os Biden.

“Todo mundo tem traumas. Em cada família há vícios. Eu estava perdido. Estava em um túnel, um túnel sem fim, do qual nunca se sai”, disse Hunter Biden em um perfil escrito por Adam Entous na The New Yorker no ano passado. Hunter confessou todos os seus pecados para se adiantar assim a qualquer polêmica e não prejudicar seu pai quando começava seu caminho rumo à Casa Branca. A investigação sobre seus negócios na Ucrânia não deu resultados, mas o nome de Hunter Biden não irá desaparecer.

Atualmente, enfrenta uma investigação federal, realizada pela Promotoria de Delaware, sobre seus “assuntos fiscais”, como ele mesmo declarou, sobre suas complicadas atividades financeiras, ainda que até o momento nenhuma conduta ilegal tenha sido provada.

Mesmo que Hunter Biden não seja declarado culpado de ter violado a lei, o fato de que ocorra uma investigação será um problema ao presidente. No caso de Billy Carter, irmão de outro presidente democrata, os escândalos causaram quatro investigações judiciais e do Congresso e um relatório de 92 páginas da Casa Branca. Se os problemas de Hunter Biden seguirem o mesmo caminho, a Administração democrata enfrentaria uma situação complicada, com meses de investigações que atrapalhariam o trabalho da Casa Branca e significariam uma espada de Dâmocles sobre o presidente.


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