Estados Unidos rompem com programa mundial da OMS para produção de vacinas contra a covid-19

Casa Branca diz que a Organização Mundial da Saúde é “corrupta” e joga suas fichas em acordos bilaterais com empresas farmacêuticas para produção do medicamento

O presidente Donald Trump conversa com a imprensa sobre a possibilidade de fabricação de vacinas por empresas americanas.
O presidente Donald Trump conversa com a imprensa sobre a possibilidade de fabricação de vacinas por empresas americanas.JIM WATSON / AFP

O Governo americano de Donald Trump informou na terça-feira (1) que não participará do esforço global para desenvolver, fabricar e distribuir à população vacinas contra o coronavírus. A Casa Branca justificou a decisão alegando que a “corrupta” Organização Mundial da Saúde (OMS) está envolvida na iniciativa. O gesto de desprezo do país à agência da ONU ocorre poucos meses depois de os Estados Unidos anunciarem o congelamento dos recursos ao organismo e iniciarem a sua desfiliação formal, prevista para meados de 2021, por “administrar mal e acobertar” a propagação da maior pandemia em um século.

“Os Estados Unidos continuarão envolvendo nossos sócios internacionais para garantirmos a derrota deste vírus, mas não nos veremos limitados por organizações multilaterais influenciadas pela corrupta Organização Mundial da Saúde e pela China”, afirmou Judd Deere, porta-voz da Casa Branca, sobre a participação da potência mundial na plataforma Covid-19 Vaccines Global Access (Covax). Mais de 170 países estão em conversações para participarem da iniciativa codirigida pela OMS, a Coalizão para as Inovações e Preparação para Epidemias e a Aliança Global para a Vacinação e a Imunização (Gavi).

O objetivo do Covax é dificultar que o país que descobrir a primeira vacina fique com todas as doses para si, e que em vez disso a prioridade seja atender imediatamente pessoas de alto risco no mundo inteiro. Os Estados Unidos estariam apostando em acordos bilaterais com companhias farmacêuticas, em vez de participar da iniciativa global. Mas a OMS defende que é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. “Ao se unir à plataforma, ao mesmo tempo em que fazem acordos bilaterais, na verdade se está apostando em um número maior de candidatos a vacina”, afirmou em meados de agosto a brasileira Mariângela Simão, diretora-adjunta da OMS para o acesso a medicamentos e vacinas.

Em princípio houve reticência do Governo norte-americano a se desvincular da Covax e dar as costas à diplomacia sanitária, mas depois se instalou a ideia de que os Estados Unidos têm candidatos a vacina suficientes em fase de ensaios clínicos, e por isso podem agir sozinhos, conforme disseram ao jornal The Washington Post, sob anonimato, um funcionário da Administração e um ex-alto funcionário. Entretanto, como salientou Mariângela em seu pronunciamento em 17 de agosto, ainda não se sabe qual potencial candidato a vacina será bem-sucedido.

Stephen Hahn, diretor da FDA, a agência de medicamentos dos EUA, afirmou em uma entrevista publicada no domingo pelo jornal inglês Financial Times que está disposto a aprovar o uso de uma vacina norte-americana para a covid-19 antes de concluído o processo normal de ensaios clínicos. Um grupo de especialistas da OMS alertou que, até agora, nenhuma das 33 vacinas experimentais que já estão sendo testadas em humanos demonstrou sua segurança e eficácia. “Existe o perigo de que as pressões políticas e econômicas para introduzir rapidamente uma vacina contra a covid-19 possam provocar a introdução generalizada de uma vacina que na realidade seja muito pouco efetiva. Que só reduza a incidência da covid-19 entre 10% e 20%, por exemplo”, advertem os especialistas.

A ofensiva de Trump contra a OMS surge porque ele considera que a organização agiu em prol dos interesses da China e tem que “prestar contas” por isso. “O silêncio da OMS perante o desaparecimento de pesquisadores e médicos e as novas restrições à informação sobre a pesquisa das origens da covid-19 [por parte da China] é profundamente preocupante”, disse o mandatário, em pleno pico de contágios. Os detalhes sobre a retirada dos EUA do organismo ainda estão sendo avaliados mas, considerando que só se tornará efetiva em 6 de julho do ano que vem, dependerá também de se Trump ganhar ou não as eleições presidenciais americanas, marcadas para novembro.

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